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O cancro provoca infertilidade? O que dizem os especialistas

19 Dez 2025 - 08:45

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O cancro provoca infertilidade? O que dizem os especialistas

Receber um diagnóstico de cancro levanta muitas questões: quais os tratamentos? Qual a taxa de sobrevivência a cinco anos? É possível ter filhos depois dos tratamentos? O impacto da doença oncológica na fertilidade é mais um fator de preocupação para os pacientes.

Será verdade que o cancro provoca infertilidade? Teresa Bruno, oncologista do IPO Lisboa, e Paulo Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), explicam quais são os fatores que podem comprometer a capacidade fértil dos pacientes e como é possível preservar o potencial reprodutivo.

Ter cancro causa infertilidade? E os tratamentos?

Nem todos os tipos de cancro provocam infertilidade”, afirma Teresa Bruno. No entanto, é verdade que alguns tipos de tumor “podem afetar a capacidade de ter filhos, direta ou indiretamente”.

A infertilidade associada à doença oncológica pode “resultar do próprio cancro”, principalmente quando o tumor “atinge órgãos do sistema reprodutivo”; ou pode ser uma consequência “dos tratamentos utilizados para combater a doença”, nomeadamente “quimioterapia, tratamento hormonal, radioterapia ou cirurgia”.

Quando o tumor se desenvolve num órgão do sistema reprodutor, a probabilidade de comprometer a fertilidade é maior, “tanto pela localização como pelos tratamentos habitualmente necessários [ao tratamento da doença]”, prossegue a oncologista.

Também Paulo Santos afirma que “a maioria dos cancros não interfere com a infertilidade”, mas alguns tratamentos podem ter impacto “na capacidade de produção de espermatozoides e no armazenamento de ovócitos”.

A cirurgia de remoção dos órgãos reprodutores – nomeadamente do útero, dos ovários, dos testículos ou da próstata – “compromete diretamente a fertilidade do paciente”, afirma Teresa Bruno. Por outro lado, também a quimioterapia, a radioterapia e as terapias hormonais podem danificar o funcionamento de alguns órgãos reprodutores.

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Por exemplo, se uma mulher for diagnosticada com cancro do colo do útero e necessitar de tratamento à base de radioterapia pélvica, este poderá danificar os ovários. No caso de um homem com cancro do testículo, o tratamento com quimioterapia poderá comprometer a produção de espermatozoides

Mesmo quando o tumor não atinge os órgãos reprodutores, alguns tratamentos poderão afetar a fertilidade da pessoa em tratamento oncológico. A quimioterapia (principalmente a que envolve medicamentos alquilantes) “pode ser tóxica para os ovários ou testículos, diminuindo ou anulando a produção de ovócitos ou espermatozoides”, sublinha a oncologista.

A radioterapia “pode causar danos permanentes nas gónadas” quando dirigida “à região pélvica ou ao cérebro” (na zona do hipotálamo ou da hipófise). Também as terapêuticas hormonais, usadas em alguns tipos de cancro da mama ou da próstata, “podem inibir de um modo temporário ou permanente a função reprodutiva”, acrescenta Teresa Bruno.

“O impacto varia de pessoa para pessoa e nem sempre a infertilidade ou subfertilidade são situações permanentes, mas é fundamental conhecer o risco inerente ao tratamento proposto, discutindo estes temas antecipadamente com a equipa médica”, remata.

Também Paulo Santos refere que a informação sobre os riscos faz parte do protocolo de tratamento que é apresentado ao paciente. Nessa altura, os pacientes poderão decidir se querem “fazer uma recolha de gâmetas” antes de iniciar os tratamentos, para “acautelar possíveis problemas de fertilidade futuros”. 

O Serviço Nacional de Saúde (SNS) explica que “a infertilidade pode ser uma consequência dos tratamentos para o cancro”. Para destruir as células cancerígenas, “alguns tratamentos podem afetar também células saudáveis de outros órgãos, como os ovários (na mulher) e os testículos (nos homens)” ou “alguns tecidos endócrinos”, o que poderá afetar a “capacidade reprodutora de uma forma temporária ou permanente

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Na página oficial do IPO Lisboa, informa-se que “o SNS oferece a possibilidade de homens e mulheres poderem preservar a sua fertilidade antes de iniciarem os tratamentos”. Este processo de preservação depende da idade, sexo, maturação física e sexual do paciente e também da sua vontade individual.

Também o Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA) refere que as “pessoas com indicação para tratamento citotóxico (quimio/raditerapia) para situações oncológicas ou outras doenças graves” podem beneficiar da preservação do potencial reprodutivo, ou seja, conservar os ovócitos e espermatozoides ou os tecidos reprodutivos para que os possam usar no futuro.

O Relatório de Atividades Desenvolvidas pelos Centros de PMA, realizado pelo CNPMA, mostra que a doença oncológica corresponde a 34,4% dos atos de preservação de gâmetas/tecido gonadal realizados em Portugal no ano de 2021 (dados mais recentes). 

Nos homens, a doença oncológica é a principal razão para a criopreservação (21,3% dos casos), enquanto nas mulheres surge em segundo lugar (12,2%) – nos últimos anos, a criopreservação de ovócitos na “ausência de doença” cresceu substancialmente.

Nas instituições do SNS, a doença oncológica é a justificação para 67,5% dos atos de criopreservação de gâmetas/tecido gonadal registados em 2021. Destes, 41,2% foram criopreservações de espermatozoides “por doença oncológica” e 24,4% correspondem a atos de “criopreservação de ovócitos por doença oncológica”.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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