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O cancro é uma doença recente?

1 Set 2025 - 09:00
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O cancro é uma doença recente?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que em 2050 sejam diagnosticados 35 milhões de novos casos de cancro — um aumento de 77% relativamente a 2022 — e que, ao longo da vida, uma em cada cinco pessoas irão desenvolver doença oncológica. 

O número de pessoas com diagnóstico de cancro tende a aumentar e em vários vídeos e publicações nas redes sociais diz-se que, por isso, é uma “doença moderna”, que existe há poucos anos, ou uma “doença do ocidente”, provocada exclusivamente por estilos de vida. Mas será verdade? A doença oncológica existe há pouco tempo?

O cancro é uma “doença moderna”?

Não, há registos de tumores malignos com milhares (e até milhões) de anos. 

O caso mais antigo tem entre 1,6 e 1,8 milhões de anos e pertence a um hominídeo que terá vivido na África do Sul. 

Em 2016, uma equipa de arqueólogos descobriu, na caverna de Swartkrans, localizada no “Berço da Humanidade”, um fóssil do osso de um dedo do pé com um tumor — perceberam que se tratava de cancro ao comparar uma Tomografia Computadorizada (TAC) do fóssil com uma mais recente de um osteosarcoma, um tipo de cancro dos ossos agressivo, mais comum em jovens.

“Não há razão para suspeitar que os tumores ósseos primários fossem menos frequentes em amostras antigas. Estes tumores não estão relacionados com o estilo de vida e ocorrem frequentemente em indivíduos mais jovens. Como tal, a malignidade tem uma antiguidade considerável no registo fóssil, como evidenciado por esta amostra”, concluem os investigadores.

Mas desde aí até ao primeiro registo escrito passou muito tempo. Só no ano 3000 a.C surgiu a primeira prova escrita, um documento conhecido como Edward Smith Papyrus, escrito por Imhotep, um matemático, físico e arquiteto egípcio. 

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Nesse texto, detalham-se dezenas de casos, incluindo vários estudos sobre cancro da mama, que se descrevia como “um massa na mama” fria, dura e densa que se espalha debaixo da pele. Imhotep escreveu sobre como tratar várias condições, mas sobre o cancro da mama escreveu: “Não há tratamento”.

Em 2011, um grupo de investigadores, incluindo três portugueses, identificou um cancro da próstata numa múmia com cerca de 2300 anos que fazia parte da coleção do Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa. Os resultados foram obtidos após exames de tomografia que permitiram reconstituir o corpo em três dimensões. 

“É o primeiro caso de cancro na próstata achado numa múmia egípcia que se encontra enfaixada, e sem terem sido usados métodos destrutivos”, disse então à Lusa o radioncologista Carlos Prates, coordenador da equipa clínica.

Como estes há outros casos, não só de deteção de cancro em humanos, mas também em animais. Ainda antes dos dinossauros, num Dinichthys, um vertebrado semelhante a um peixe que viveu há 340 milhões de anos, foi identificada uma cavitação interna da mandíbula, resultado de um potencial processo oncológico.

Então porque é que a incidência tem aumentado?

três fatores importantes que contribuem para o aumento do número de pessoas com cancro: a falta de dados antigos, a idade e os estilos de vida.

O primeiro ponto é óbvio: é natural que não se saiba quantas pessoas tinham cancro há mil anos porque os sistemas eram muito diferentes e não havia a mesma monitorização. 

Para além disso, há 200 anos, a esperança média de vida global à nascença não chegava aos 30 anos, o que não permitia que as pessoas chegassem a envelhecer como acontece hoje. 

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A idade é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de cancro: “O envelhecimento das células origina o desenvolvimento do cancro”, lê-se no site do Serviço Nacional de Saúde (SNS). “Cerca de um quarto dos novos casos de cancro são diagnosticados em pessoas com idade entre os 65 e 74 anos. Assim, recomenda-se uma vigilância reforçada a partir dos 50 anos”.

Mas mesmo abaixo dos 50 anos há cada vez mais diagnósticos de cancro. Um exemplo claro é o do cancro colorretal: na última década, o número de pessoas com menos de 50 anos diagnosticadas com a doença duplicou, passando de 5% para 10% de todos os casos.

Em declarações anteriores ao Viral e ao Polígrafo, Paulo Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar, afirmava que uma parte desse aumento estava relacionado com a “melhoria da capacidade de diagnóstico”. Ou seja, não se trata apenas de um aumento de incidência, mas de uma “transferência do diagnóstico de idades mais tardias para idades mais precoces” graças aos avanços tecnológicos.

Os estilos de vida também têm um papel. A “alimentação, obesidade, sedentarismo, consumo de álcool, tabaco, alterações no sono e stress crónico” têm um “impacto no aparecimento de doenças e na ausência de saúde”. 

Na altura, o médico destacava a obesidade como principal preocupação. “Há muitos anos que se decretou que seria a pandemia do século XXI e estamos muito longe de conseguir controlá-la”.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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1 Set 2025 - 09:00

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