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O cancro é um “problema de saúde causado apenas por químicos da indústria alimentar”?

21 Jan 2026 - 08:15
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O cancro é um “problema de saúde causado apenas por químicos da indústria alimentar”?

Na contracapa de um livro, partilhada num vídeo publicado no TikTok, lê-se que “o cancro é um problema de saúde causado apenas por químicos da indústria alimentar”.

Diz-se ainda que é meramente uma “doença química” provocada por agentes carcinogénicos.

Será assim? O cancro é uma doença provocada apenas por químicos que podem estar presentes na comida?

Os químicos na comida são a causa do desenvolvimento de cancro?

Não. Antes de mais, importa sublinhar que a palavra “cancro” refere-se a mais de 200 doenças, logo seria pouco provável que todas tivessem uma causa comum. E, de facto, não têm. O cancro é complexo e multifatorial (ver aqui e aqui), ou seja, há vários fatores que podem aumentar o risco de ter doença oncológica.

Ana João Pissarra, oncologista, explicava, em declarações anteriores ao Viral, que um cancro resulta de “um conjunto de células anómalas, que sofreram uma alteração genética, e que, por algum motivo, o organismo não foi capaz de as eliminar”.

Além disso, as “células mutadas” têm “uma capacidade de se multiplicarem muito superior à das células normais” e, ao acumularem-se, acabam por formar tumores.

“A maioria dos tumores são esporádicos, ou seja, acontecem por acaso”, e estão associados “a fatores de risco”, como “o tabaco”, “a exposição solar excessiva” e “a obesidade”. 

Mas há outros fatores relevantes, como a “exposição ambiental”, “infeções por determinados vírus, bactérias ou parasitas”, o sedentarismo, o álcool e “uma dieta pobre em frutas e legumes, pouco variada e abundante em gorduras e açúcares”, segundo um texto publicado no site do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Há ainda uma pequena percentagem dos casos que pode ser atribuída a fatores hereditários.

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Quanto à comida, há, de facto, evidência de que certos produtos alimentares podem aumentar o risco de cancro. Por exemplo, a Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro (IARC) classificou a carne processada como carcinogénica e a carne vermelha como provavelmente carcinogénica.

Mas isso não significa que todos os cancros sejam causados por alimentos. O efeito depende da quantidade consumida, da frequência e de outros fatores individuais, como o estilo de vida.

Manter um estilo de vida saudável é uma forma de prevenção de cancro. No sentido oposto, ter uma dieta rica em açúcares, sal e alimentos ultraprocessados pode, eventualmente, levar a desenvolver um quadro de obesidade, um dos fatores de risco para vários tipos de cancro. 

Nenhum dos fatores de risco referidos é sinónimo de causa certa, há muitos fatores que interagem para que a doença se desenvolva.

E os pesticidas usados como medida de saúde pública para matar ou controlar insetos, plantas, roedores ou outras pragas nos alimentos também não parecem ser um problema. Até porque “a maioria das pessoas só têm contacto com quantidades muito pequenas de pesticidas no dia a dia”, de acordo com o Cancer Research UK.

Segundo a mesma instituição, os resíduos de pesticidas que ficam na fruta “não provocam cancro” porque os valores são regulados — os agentes económicos envolvidos na produção e na comercialização de produtos agrícolas obrigados a respeitar os limites máximos de resíduos (LMR).


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

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A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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