O café não é proibido para quem tem endometriose, apesar do que se diz no TikTok
Em vários vídeos partilhados no TikTok, alega-se que quem tem endometriose não deve beber café. Segundo o autor de um dos posts, “estudos indicam uma possível ligação entre o alto consumo de cafeína e a modulação do estrogénio” e “as lesões de endometriose” são extremamente sensíveis a esta hormona. Além disso, acrescenta, “a cafeína tem uma ação vasoconstritora, o que pode intensificar a perceção de dor na região pélvica”. Estas alegações têm fundamento? E significam que o café é proibido para quem tem endometriose?
É verdade que quem tem endometriose não deve beber café?
Em declarações ao Viral, o ginecologista e obstetra João Sequeira Alves adianta que “não existe evidência forte de que o consumo de café esteja associado” ao agravamento da endometriose “ou a piores resultados do tratamento” da doença. Por isso, não há uma recomendação no sentido de proibir o consumo de café neste contexto.
Tal como se explica num texto publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a endometriose “é uma doença complexa que afeta muitas mulheres em todo o mundo, desde o início da primeira menstruação (menarca) até à menopausa”.
Nas mulheres com a doença, “um tecido semelhante ao endométrio (normalmente encontrado apenas no revestimento do útero) cresce fora do útero, causando inflamação e formação de tecido cicatricial”.
Isto traduz-se, sobretudo, em “dor pélvica incapacitante que assume diferentes formas: a dor cíclica incapacitante que coincide com a menstruação (dismenorreia), a dor com a relação sexual (dispareunia), e também a dor pélvica crónica não relacionada com a menstruação”, esclarece-se num texto da Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG).
Segundo a OMS, “atualmente, não existe cura conhecida, mas os sintomas da endometriose podem ser tratados com medicamentos ou, em algumas mulheres, com cirurgia”.
Em relação ao suposto impacto do café nas manifestações da endometriose, suspeita-se apenas que consumos excessivos de bebidas com cafeína possam piorar os sintomas.
Numa metanálise de 2021, por exemplo, refere-se que “talvez as doses elevadas estejam associadas” ao agravamento da endometriose, “mas a evidência é fraca”, explica João Sequeira Alves.
A alegação de que a cafeína tem “uma ação vasoconstritora” e que isso “pode intensificar a perceção de dor na região pélvica” é imprecisa.
De facto, a cafeína atua como um vasoconstritor ligeiro e temporário. Contudo, este estreitamento dos vasos sanguíneos causado por doses moderadas de cafeína, especialmente no cérebro, ajuda a reduzir o fluxo sanguíneo e pode aliviar a dor de cabeça (ver aqui e aqui).
No mesmo sentido, sublinha João Sequeira Alves, “a cafeína, sobretudo associada a analgésicos, pode ajudar a reduzir as queixas de dores de muitas mulheres, mesmo no pós-operatório”.
Noutro plano, “a cafeína pode ter um efeito irritativo na síndrome do intestino irritável e em quem tem bexiga hiperativa com dor pélvica sobreposta, mas isso não terá a ver com a vasoconstrição”, acrescenta o médico.
De modo geral, sublinha o ginecologista, “o consumo moderado de café, cerca de um a dois por dia, não é prejudicial para quem tem endometriose”.
Qual o impacto da alimentação na endometriose?
A endometriose “pode influenciar as necessidades do corpo, desde as hormonas até à pele, dos níveis de energia à saúde mental, dos hábitos alimentares à forma como o corpo digere, absorve e utiliza os alimentos”, lê-se num texto da The Endometriosis Foundation.
A principal prioridade das mulheres com endometriose “deve ser garantir que a alimentação satisfaz todas as necessidades nutricionais, incluindo energia, gorduras, proteínas, vitaminas e minerais”, refere-se.
Contudo, não existem “dietas ou alimentos conhecidos que possam tratar ou controlar a endometriose”.
Segundo João Sequeira Alves, existe, sim, “evidência forte de que a dieta deve ser adaptada a cada doente”.
Por exemplo, “muitas doentes reportam redução da dor e da distensão abdominal, bem como de melhoria do trânsito intestinal com dieta baixa em FODMAP” (ver também aqui). Apesar disso, não é aconselhado seguir dietas específicas ou eliminar alimentos (ou grupos alimentares) da alimentação sem aconselhamento de um profissional de saúde.
O que dizem as recomendações gerais é que, em contexto de endometriose, deve-se “reduzir o consumo de um conjunto de alimentos mais pró-inflamatórios, como carnes vermelhas e processadas, fritos e fast food, gorduras e óleos refinados, açúcares e bebidas açucaradas”. Deve-se, ainda, “evitar o álcool e a cafeína em excesso”, aponta o especialista.