Não se deve tomar ibuprofeno antes de uma cirurgia?
Nos dias que antecedem uma cirurgia, os profissionais de saúde recomendam vários cuidados para minimizar complicações durante e após a intervenção. Entre as dúvidas mais comuns está a toma de medicamentos. Será verdade que o ibuprofeno não deve ser tomado antes de uma cirurgia?
É verdade que não se deve tomar ibuprofeno antes de uma cirurgia?
Sim, segundo as recomendações, regra geral, não se deve tomar ibuprofeno antes de uma cirurgia (ver aqui, aqui, aqui e aqui).
“Os anti-inflamatórios não esteroides [AINEs], como o ibuprofeno, alteram o funcionamento normal das plaquetas, que são responsáveis pela coagulação”, começa por explicar Vítor Lopes, cirurgião e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), em declarações ao Viral.
De forma simples, adianta, “as plaquetas são fragmentos de células que, em condições normais, circulam livremente no sangue sem se colarem às paredes dos vasos”.
Quando ocorre uma lesão, “ativam-se, alteram a sua forma e tornam-se ‘pegajosas’, começando a ligar-se umas às outras através de pontes de proteínas para formar um conjunto sólido”.
Este conjunto chama-se “trombo ou coágulo inicial” e “serve para travar o sangramento enquanto o corpo inicia o processo de cicatrização definitiva”. Para isto acontecer, “as plaquetas libertam uma substância chamada tromboxano A2”, esclarece.
O ibuprofeno, em específico, “inibe de forma reversível a enzima ciclooxigenase-1 (COX-1), o que leva à diminuição da produção deste tromboxano A2”.
Por outras palavras, “tomar ibuprofeno imediatamente antes de uma cirurgia pode aumentar o risco de hemorragia”.
Segundo Vítor Lopes, “com a devida ressalva de que pode haver situações particulares e de que, em última instância, os doentes devem seguir estritamente a recomendação que lhes é transmitida pelo seu médico assistente: a suspensão do ibuprofeno 24 horas antes da cirurgia parece ser segura”.
Contudo, “para a maioria dos outros anti-inflamatórios não esteroides, a normalização da função das plaquetas só acontece ao fim de 3 dias”.
Existem ainda outros medicamentos da mesma família, “como os inibidores seletivos da ciclooxigenase-2 (COX-2)”, que apesar de não terem praticamente efeito na coagulação, “têm outros riscos associados, como o aumento do risco de tromboses ou toxicidade renal” (ver também aqui).
Assim, “por uma questão de prudência clínica generalizada (e para evitar confusão dos doentes com outros anti-inflamatórios), a regra costuma ser a suspensão com 3 dias de antecedência” explica o médico.
Noutro plano, “é preciso ter em conta o risco hemorrágico específico de cada procedimento”.
Vítor Lopes adianta que “cirurgias em que a probabilidade de hemorragia é muito baixa ou, mesmo que aconteça, pode ser mais importante manter a analgesia ou a anti-inflamação do doente do que suspender o medicamento”.
Por exemplo, “pode não ser necessário suspender no caso da cirurgia a uma hérnia ou num pequeno procedimento cirúrgico”.
Por outro lado, “a suspensão pode ser recomendada mesmo em procedimentos de muito baixo risco hemorrágico, caso exista alguma alteração conhecida do funcionamento das plaquetas do doente”.
Em grupos de doentes que já tomam anticoagulantes, “a alteração na coagulação vai ser potenciada, pelo que existe um risco significativamente maior de hemorragia”, refere o especialista.
Como existem vários fatores que podem influenciar as recomendações no que toca à medicação, é importante que o cirurgião conheça o histórico clínico e a medicação habitual do doente. “Só na posse desta informação podem ser dadas orientações sobre a medicação”, lê-se num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
Existem alternativas ao ibuprofeno que se possa tomar antes de uma cirurgia?
Sim, há alternativas eficazes ao ibuprofeno. “Não é muito frequente nem recomendável a toma crónica de anti-inflamatórios como o ibuprofeno de forma indiscriminada, pelo que, assumindo que estamos perante uma dor aguda (por um traumatismo, por exemplo), o paracetamol, que é de venda livre, é uma opção muito eficaz e segura”, adianta Vítor Lopes (ver também aqui).
Em relação a medidas não farmacológicas, “a aplicação de gelo, o repouso ou a imobilização da área afetada, também podem ser fundamentais, dependendo da situação”, sugere o cirurgião.
Caso haja necessidade de outra medicação, “existem muitas alternativas disponíveis, mas que exigem sempre avaliação e prescrição médica”, sublinha.
Categorias:
Etiquetas: