Não está provado que o glúten “piora o melasma”. E cortá-lo da dieta não cura o problema
Depois de ter sido apontado (muitas vezes, injustamente) como culpado de problemas digestivos, fadiga e aumento de peso, o glúten voltou a ser o centro das atenções nas redes sociais. A mais recente acusação está relacionada com o melasma. Em vários vídeos partilhados no TikTok, sugere-se que o glúten piora o melasma. Numa das publicações, defende-se que esta proteína provoca um “aumento da inflamação geral sistémica do organismo”, que se reflete na pele. Será mesmo assim?
O glúten piora o melasma?
“A alegação de que o glúten aumenta a inflamação sistémica e, por essa razão, piora o melasma não está comprovada cientificamente”, adianta Marta Ribeiro Teixeira, dermatologista na Clínica Bellage, em declarações ao Viral.
O melasma “é uma doença de pele que provoca manchas e marcas, geralmente no rosto, mais escuras do que o tom natural da pele”, explica-se num texto da Academia Americana de Dermatologia (AAD).
Embora “o stress oxidativo participe na fisiopatologia do melasma, isso não permite concluir que qualquer alimento alegadamente ‘inflamatório’, como o glúten, agrave a doença”, adianta Marta Ribeiro Teixeira.
Para fazer essa afirmação “seriam necessários ensaios clínicos específicos, que atualmente não existem”, sublinha.
Além disso, importa referir que “o glúten não provoca inflamação sistémica em todas as pessoas”.
Só em pessoas com doença celíaca, alergia ao trigo ou sensibilidade ao glúten não celíaca é que o glúten “desencadeia uma resposta autoimune e inflamatória”.
Na perspetiva da dermatologista, “isso não permite concluir que tenha o mesmo efeito na população geral ou que agrave especificamente o melasma”.
Existem “relatos isolados” de alguns doentes sobre um possível efeito do glúten no melasma, mas “faltam estudos científicos sobre a matéria”.
Importa sublinhar que o agravamento do melasma referido nesses relatos pode coincidir com fatores que têm um efeito comprovado no melasma, “como a maior exposição solar, calor, alterações hormonais, irritação da pele ou interrupção do tratamento”, explica.
Mesmo em contexto de doença celíaca, não há evidência científica que comprove que “o glúten agrave especificamente o melasma nesses pacientes, nem que uma dieta sem glúten faça desaparecer as manchas”.
De facto, “uma pessoa com doença celíaca deve excluir completamente o glúten, porque este desencadeia inflamação intestinal, podendo provocar várias manifestações sistémicas e cutâneas”, aponta. Mas, “o melasma não é considerado uma manifestação cutânea típica da doença celíaca”.
Que fatores podem desencadear ou agravar o melasma?
Os principais fatores que podem desencadear ou agravar as manifestações do melasma são: “a exposição à radiação ultravioleta (sobretudo UVA) e à luz visível”; “a predisposição genética”; “a gravidez e as alterações hormonais”; “os contracetivos ou outros tratamentos hormonais”; “o calor”; “a inflamação ou a irritação da pele”; “alguns cosméticos, medicamentos e procedimentos dermatológicos irritativos”, refere Marta Ribeiro Teixeira.
A radiação solar continua a ser “o fator de agravamento mais importante e mais consistentemente demonstrado”, sublinha a médica.
Assim, as medidas com maior impacto comprovado na prevenção de manifestações do melasma são “a fotoproteção rigorosa e o tratamento dermatológico adequado” (ver também aqui e aqui).
A alimentação tem um papel comprovado no melasma?
Apesar de a alimentação ser “uma área de investigação muito interessante no melasma”, ainda existem poucas respostas definitivas. Segundo Marta Ribeiro Teixeira, “até ao momento, não foi demonstrado que exista uma dieta capaz de prevenir, provocar ou tratar o melasma”.
Também não há evidência que permita “recomendar a exclusão de alimentos como o glúten, os laticínios ou o açúcar especificamente por causa desta doença, salvo se existir uma doença diagnosticada que o justifique”, acrescenta.
Contudo, “alguns estudos sugerem que nutrientes com ação antioxidante podem desempenhar um papel complementar”.
Na perspetiva da dermatologista, “isto faz sentido do ponto de vista biológico porque o melasma está associado a aumento do stress oxidativo e da inflamação local na pele induzidos pela radiação ultravioleta”.
Alguns ensaios clínicos sobre a vitamina C e E, o licopeno (presente no tomate), a silimarina, a glutationa e o extrato de Polypodium leucotomos, por exemplo, mostram melhorias no melasma “quando estes compostos são utilizados como complemento dos tratamentos convencionais” (ver aqui e aqui).
Importa, no entanto, salientar que os resultados são “variáveis” e a qualidade da evidência é “moderada a baixa”.
Na prática clínica, o que está recomendado é “uma alimentação equilibrada, rica em fruta, legumes e outros alimentos naturalmente ricos em antioxidantes, porque contribui para a saúde global e pode ajudar a reduzir o stress oxidativo”, sublinha a médica.