Mulheres “precisam de pelo menos um abraço por dia” para serem saudáveis? O que diz a ciência
“Sabiam que as mulheres precisam de pelo menos um abraço por dia para manter a sua saúde?” Esta pergunta surge como o mote para vários vídeos “inspiracionais” que estão a ser partilhados nas redes sociais.
Nestes vídeos, alega-se que existem “estudos científicos que mostram que as mulheres devem ser abraçadas sempre que possível”. Diz-se ainda que estas manifestações de carinho “reduzem a tensão arterial, melhoram a saúde cardíaca e podem reforçar o sistema imunitário”.
Será verdade que as mulheres “precisam de pelo menos um abraço por dia” para evitar doenças e manterem-se saudáveis? O que diz a ciência sobre esta alegação?
Um abraço por dia faz com que as mulheres se mantenham saudáveis?
Não existe evidência de que as mulheres precisem de um abraço por dia para se manterem saudáveis. Dar abraços diariamente não previne o aparecimento de qualquer doença.
No entanto, é verdade que o contacto físico entre amigos, familiares ou parceiros românticos pode promover bem-estar e motivar a produção das “hormonas da felicidade” – tanto em homens, como em mulheres.
Miguel Ricou, presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses, explica ao Viral que “o contacto físico está ligado à produção de oxitocina”, conhecida como “hormona do amor” e com efeitos conhecidos na redução do stress.
“Não existem motivos que justifiquem um efeito diferente entre homens e mulheres”, acrescenta o psicólogo.
Quando o contacto físico proporciona prazer, os intervenientes poderão sentir-se bem após darem um abraço. Contudo, as pessoas são todas diferentes e há quem reaja “de forma diferente ao toque”, podendo não atingir a mesma sensação de bem-estar.
“Na dimensão social do abraço, os homens tendem a sentir mais desconforto perante o toque, o que faz com que tenham um resultado diferente no que toca à sensação de prazer”, esclarece Miguel Ricou.
O psicólogo lembra que, socialmente, “as mulheres têm maior apetência ao toque e ao contacto físico e são mais encorajadas a fazê-lo”. Este contacto é “sentido como positivo e não como algo que causa embaraço”.
Por outro lado, por norma, os homens manifestam “mais desconforto” no abraço com os seus pares, recorrendo a “pancadas nas costas como forma de aliviar a tensão”. Por essa razão, um abraço entre homens poderá, em alguns casos, “não ter o mesmo resultado, do ponto de vista da sensação de prazer”.
A intimidade entre os intervenientes também tem impacto na sensação de bem-estar: “O toque com alguém estranho não é algo que tenha de dar prazer”, sublinha o especialista, acrescentando que “dar abraços às pessoas de quem gostamos é bom, independentemente de ser um abraço a um homem ou a uma mulher”.
O psicólogo lembra que o contacto físico “é importante para o ser humano”, uma vez que se trata de uma “manifestação de carinho” e permite “construir no amor, no carinho e na aprovação”.
Estar com amigos, ter uma relação amorosa ou um animal de estimação são também atividades que potenciam a produção das “hormonas da felicidade”.
Num artigo publicado anteriormente pelo Viral, o endocrinologista Francisco Sousa Santos, autor da página Hormonas em Bom Português, afirma que quando existe “uma interação social, um toque ou um abraço”, o organismo tende a “recompensar-se” com a libertação de oxitocina.
Os impactos do contacto físico e do carinho na produção das “hormonas da felicidade” têm sido estudados.
Num estudo (2004) identificou-se uma relação entre a frequência de abraços e a subida dos níveis de oxitocina em 59 mulheres pré-menopausa.
Além disso, os investigadores identificaram também que as mulheres que abraçaram mais vezes os maridos manifestaram níveis mais baixos de tensão arterial.
Mais recentemente, um estudo (2022) analisou o impacto que dar um abraço ao parceiro romântico tem na gestão dos níveis de cortisol associados ao stress. No artigo, conclui-se que dar um abraço reduz os níveis de cortisol nas mulheres, porém esse efeito não foi observado nos homens.
“As mulheres que abraçam o seu parceiro antes de estarem stressadas manifestam uma resposta de redução de cortisol, comparada com o grupo de controlo onde não ocorreu o abraço”, afirmam os investigadores
Em suma, dar um abraço pode proporcionar uma sensação de bem-estar e levar a um aumento da produção de oxitocina (conhecida como “hormona do amor”). A oxitocina pode ter efeitos positivos nos níveis de stress, mas não previne nem trata qualquer doença.