Mulheres em relações “seguras” engordam por causa das hormonas?
“Por que razão as mulheres ganham peso nas relações?”. É esta a questão levantada num vídeo partilhado nas redes sociais. Na mesma publicação, alega-se que as hormonas são as principais responsáveis pelo aumento de peso corporal em mulheres que estejam em relações amorosas “seguras”.
“Quando uma mulher se sente segura com o seu parceiro, os níveis de cortisol, a hormona do stress, diminuem, enquanto a produção de oxitocina e serotonina, pelo contrário, aumentam. Isto é um sinal para o corpo de que é altura de relaxar, armazenar energia e preparar-se para uma possível gravidez”, pode ouvir-se no vídeo.
Neste conteúdo, afirma-se ainda que, “se as mulheres em relações [amorosas] forem excessivamente magras”, é sinal de que existe “muito stress nestas relações” e, por isso, o nível de cortisol “permanece elevado, o que pode causar flutuações bruscas de peso”.
Mas será verdade que as mulheres em relações “seguras” têm maior tendência a engordar? É “culpa” das hormonas? Qual o papel do cortisol, da oxitocina e da serotonina no ganho de peso? Selma Souto, endocrinologista e Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), explica ao Viral o que diz a ciência sobre estas alegações.
Relações amorosas “seguras” fazem com que as mulheres engordem?
Não é verdade que as relações amorosas “seguras” sejam a causa para o aumento de peso nas mulheres. Selma Souto explica que as mulheres podem ganhar peso por “inúmeras causas” e que a tendência a engordar não está “exclusivamente” associada às hormonas.
“Ao longo da vida podem ocorrer diferentes eventos que contribuem para sucessivos balanços energéticos positivos (consumo de calorias superior ao gasto de calorias) e, por isso, ganho de peso. Muitas vezes, vemos ganho ponderal após o casamento ou após o divórcio”, declara a especialista.
Selma Souto reconhece que uma “maior segurança afetiva ao longo do relacionamento” pode contribuir para “uma menor preocupação com a aparência”, mas esta situação não está relacionada exclusivamente com as hormonas femininas.
Na maioria dos casos, as alterações de peso são atribuídas a “mudanças no estilo de vida” – como alterações nos hábitos alimentares e redução da prática de atividade física -, que podem estar associadas a um “menor foco na manutenção da forma física”.
O aumento de peso pode ainda estar associado a predisposição genética, causas fisiológicas (gravidez ou menopausa), toma de medicamentos (como antidepressivos, antiepilépticos, corticoides, entre outros), alterações dos hábitos de sono, cessação tabágica, doenças endócrinas, entre outras causas.
“Não é o estado civil da mulher que determina o seu metabolismo, a produção ou ação das hormonas do apetite e da saciedade”, afirma Selma Souto. Para manter o peso saudável, a endocrinologista recomenda “seguir um estilo de vida adequado em termos de alimentação saudável, variada e equilibrada, realizar atividade física regularmente, ter uma boa qualidade de sono e uma boa ingestão hídrica”.
Baixos níveis de cortisol promovem o aumento de peso?
A premissa que sustenta esta alegação é falsa. A diminuição dos níveis de cortisol e o aumento de oxitocina e serotonina não promovem o aumento do peso nas mulheres. Pelo contrário: níveis elevados de cortisol e níveis baixos de serotonina podem interferir na acumulação de gordura e na sensação de fome, respetivamente.
Os níveis de cortisol “persistentemente elevados podem promover a acumulação de gordura, sobretudo na região abdominal”, afirma Selma Souto. Esta hormona, conhecida como a “hormona do stress”, pode também “aumentar a fome e levar ao consumo excessivo de alimentos mais calóricos”, o que contribui para o ganho de peso.
Além das situações de stress, também alterações na qualidade do sono podem interferir na produção de cortisol, o que contribui “para uma maior dificuldade na gestão do peso corporal”, acrescenta a especialista.
“O equilíbrio hormonal, o controlo do stress e um sono reparador são fatores importantes para a manutenção de um peso saudável”, sublinha Selma Souto.
No que toca à serotonina, níveis baixos deste neurotransmissor estão associados a “aumento da fome, especialmente por alimentos ricos em hidratos de carbono, o que pode levar ao ganho de peso”.
Sobre a oxitocina, os estudos são ainda preliminares (feitos em animais), mas sugerem que a chamada “hormona do amor” está “envolvida na regulação do comportamento alimentar, gasto energético, metabolismo lipídico e homeostase da glicose”, explica a endocrinologista.
É também falso que a diminuição dos níveis de cortisol e o aumento de oxitocina e serotonina sejam uma preparação do corpo para uma potencial gravidez. Contudo, essas alterações hormonais “podem, indiretamente, criar um ambiente fisiológico mais propício para engravidar”.
“A diminuição de cortisol está geralmente associada a estados de relaxamento, menos stress e melhor função imunológica”, lembra a endocrinologista. Níveis mais baixos desta hormona podem ainda “favorecer a fertilidade”, uma vez que “o stress pode inibir a ovulação”.
Por outro lado, elevados níveis de oxitocina “podem promover comportamentos de maior proximidade e intimidade, o que pode aumentar a probabilidade de conceção”; e o aumento de serotonina “pode melhorar a função hormonal reprodutiva indiretamente”.
Em suma, é falso que estar numa relação amorosa “segura” seja a causa para o aumento de peso nas mulheres. É também falso que níveis baixos de cortisol e elevados de serotonina e oxitocina potenciem a subida de peso. Na verdade, os efeitos ocorrem ao contrário: níveis elevados de cortisol potenciam a acumulação de gordura e níveis baixos de serotonina aumentam a sensação de fome. É também falso que esta combinação hormonal seja uma preparação do corpo para receber uma gravidez.