Mulheres precisam de pastas de dentes diferentes das dos homens?
Em alguns vídeos partilhados no TikTok alega-se que “a saliva das mulheres é mais ácida do que a dos homens” e, como uma saliva mais ácida aumenta o risco de cáries e de erosão dentária, “as mulheres precisam de pastas de dentes diferentes das dos homens”. Mas será mesmo assim? O que diz a evidência científica?
É verdade que as mulheres precisam de pastas de dentes diferentes das dos homens?
Não. As recomendações em âmbito de saúde oral “baseiam-se no risco individual” e não no sexo. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Nélio Veiga, dentista e professor da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
De facto, reconhece o especialista, “a eventual diferença de pH salivar entre sexos tem sido usada, por vezes, como argumento comercial para justificar dentífricos ‘específicos para mulheres’”.
No entanto, “nenhuma sociedade científica ou entidade reguladora” – como a American Dental Association (ADA), a Federação Dentária Internacional (FDI) e a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) – “reconhece evidência que sustente essa distinção”, sublinha.
Nesse sentido, “as diretrizes de qualidade da ADA”, por exemplo, “não propõem dentífricos específicos para mulheres”. Os critérios de seleção de uma pasta de dentes devem basear-se sobretudo “no risco individual de doença — cárie, erosão, gengivite ou hipersensibilidade”.
Nélio Veiga explica que “a saliva é um fluido biológico complexo, essencial para a manutenção da homeostasia da cavidade oral”.
As propriedades físico-químicas da saliva, “como o pH e a capacidade tampão (de manter o pH da saliva neutro) desempenham um papel determinante na prevenção da cárie dentária, da erosão do esmalte e de diversas patologias orais”, prossegue o professor.
Por isso, independentemente de se tratar de um homem ou de uma mulher, “ambientes salivares mais ácidos aumentam risco de cárie e erosão”.
Recentemente, “tem sido sugerido que existiriam diferenças relevantes entre homens e mulheres quanto ao pH e à composição salivar, com potenciais implicações clínicas e até comerciais”, aponta.
Contudo, a evidência científica disponível “revela que muitas dessas afirmações carecem de sustentação robusta”, defende o dentista (ver aqui, aqui e aqui).
Alguns estudos “relatam valores médios de pH ligeiramente mais baixos nas mulheres, sobretudo em amostras de saliva estimulada, associando-os a menor fluxo e menor capacidade tampão”.
Outros trabalhos “não encontraram diferenças estatisticamente significativas entre homens e mulheres quanto ao pH, fluxo ou composição iónica”.
Na perspetiva de Nélio Veiga, a evidência contraditória “pode dever-se a fatores metodológicos — como o tipo de saliva recolhida, o momento do dia ou o controlo dietético — mas também à influência de fatores hormonais”.
As “flutuações hormonais femininas” têm, de facto, algum impacto neste contexto. Sabe-se que, “durante o ciclo menstrual, a gravidez ou a menopausa”, pode haver alterações temporárias “do fluxo salivar, do pH e da concentração de proteínas específicas”, sublinha o dentista.
Durante a gravidez, “observa-se frequentemente uma redução do pH e da capacidade tampão, associada a um aumento de náuseas, vómitos e ingestão de alimentos ácidos” (ver também aqui).
Assim, neste cenário, recomenda-se um “reforço de higiene”, “consultas preventivas”, “gestão de náuseas”, através de, por exemplo, “bochechos com solução bicarbonatada” ou ao “evitar lavar dentes imediatamente após o vómito”.
Por outro lado, na menopausa e na fase pós-menopausa, há a tendência para “um fluxo e pH mais baixos em parte das mulheres”, que “pode justificar o foco no controlo de placa” e a “gestão de sintomas de boca seca” (ver aqui).
Estas variações hormonais é que podem justificar “a tendência ocasional para valores de pH mais baixos em mulheres”. Mesmo nestas circunstâncias, não há recomendação para utilizar uma pasta de dentes específica diferenciada.
Em ambos os contextos, “as recomendações fundamentais permanecem: escovagem duas vezes por dia com dentífrico fluoretado, limpeza interdentária diária, redução da ingestão de açúcares e visitas periódicas ao médico dentista”.
A escolha da pasta de dentes deve, portanto, “basear-se na relação entre risco e benefício, e na adequação às necessidades clínicas específicas do paciente”, e não em critérios relativos ao sexo.
Que características deve ter uma pasta de dentes segura e eficaz?
Segundo Nélio Veiga, a evidência clínica mostra que as pastas de dentes com flúor (em quantidades adequadas) têm “um benefício transversal” na higiene oral, especificamente no que toca à “prevenção de cáries” (ver também aqui).
Também é fundamental que as pastas de dentes tenham “comprovativos de qualidade”, pois “garantem quantidade, libertação e absorção de flúor e segurança”, prossegue.
Estes produtos devem, ainda, ter uma “abrasividade controlada” e ter “componentes, como o laurilsulfato de sódio ou o triclosan (antissético e agente antimicrobiano)”.
Além de ser importante escolher uma pasta de dentes adequada, é essencial utilizá-la da melhor forma.
Num texto informativo publicado no site da OMD explica-se que, entre o nascimento do primeiro dente os três anos, é recomendado utilizar uma quantidade de pasta de dentes “equivalente a 1 grão de arroz cru”. Dos três aos seis anos, “a porção deve ser semelhante a uma ervilha” e “a partir dos sete anos o dentífrico deve equivaler ao tamanho de 1 grão- de-bico ou 1 centímetro de pasta”.
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