Mulheres com enxaqueca podem ter mais dificuldade em engravidar? Médica explica
Num vídeo do TikTok sugere-se que as mulheres com enxaqueca podem ter mais dificuldade em engravidar. Segundo o autor do vídeo, “a enxaqueca está associada a alguns processos inflamatórios e hormonais que podem atrapalhar a ovulação, a implantação do embrião e aumentar o risco de complicações”. Será mesmo assim?
É verdade que as mulheres com enxaqueca podem ter mais dificuldade em engravidar?
Em declarações ao Viral, Daniela Sobral, ginecologista, obstetra e subespecialista em medicina da reprodução no Hospital Lusíadas Lisboa, adianta que “não há evidências científicas robustas” de que ter enxaqueca, por si só, dificulta a gravidez.
Têm surgido “algumas preocupações” sobre o possível impacto da enxaqueca na fertilidade. Pensa-se que “a base genética associada à endometriose possa estar associada a outras comorbilidades com dor, como a enxaqueca”, adianta a especialista. Mas “não existem dados robustos” que comprovem essa associação.
Há, também, “alguma associação entre a síndrome do ovário poliquístico e a enxaqueca, mas é um mecanismo bastante complexo que não está esclarecido”, aponta a médica.
É importante não esquecer que “tanto a enxaqueca, como a síndrome do ovário poliquístico, como a endometriose são bastante frequentes em mulheres em idade reprodutiva”. Por isso “pode ser só uma coincidência estarem presentes”, explica.
Noutro plano, sublinha, “a enxaqueca pode influenciar o projeto de família de uma mulher”.
Para já, a enxaqueca pode ser uma doença difícil de lidar, já que, na maioria dos casos, as crises são incapacitantes. Nesse sentido, pode ter um impacto relevante nas relações sociais: a mulher pode “sair menos” e “até ter menos relações sexuais”.
Por outro lado, as crises de enxaqueca estão muitas vezes associadas a oscilações hormonais. Algumas mulheres podem ter algum receio de engravidar porque temem que “a gravidez possa causar um agravamento das enxaquecas”, refere a ginecologista.
Além disso, “há alguma medicação preventiva, com uma eficácia bastante razoável”, que não deve ser feita durante a gravidez “pelos eventuais efeitos estrogénicos”. Algumas mulheres podem ter algum receio de engravidar por não poderem continuar a tomar essa medicação.
Apesar disso, o mais comum até é que a enxaqueca melhore na gravidez, porque “há um equilíbrio hormonal”, sublinha Daniela Sobral.
Aliás, na secção de perguntas e respostas da Sociedade Portuguesa de Cefaleias (SPC) refere-se que a grande maioria das mulheres com a doença reporta “uma melhoria da enxaqueca” durante a gravidez, que “está relacionada com o aumento de estrogénios” (ver também aqui).
Assim, nestes casos, “os medicamentos quer para aliviar, quer para prevenir as crises podem não ser necessários”, lê-se.
Contudo, sempre que é necessário, para tratar crises, “existem fármacos que podem ser utilizados de forma segura” (ver também aqui e aqui). Já a terapêutica preventiva “fica reservada aos casos mais graves”.
Por norma, “as crises de enxaqueca voltam a ser mais frequentes no período pós-parto, o que é justificado pelas alterações hormonais, stress e privação do sono”.
Na perspetiva de Daniela Sobral, “o que é fundamental é a mulher com enxaqueca ir a uma consulta de neurologia para perceber que tipo de enxaqueca tem e o que pode fazer profilaticamente para reduzir a sua intensidade”.
Se “tiver com a doença controlada, a probabilidade de conseguir engravidar e de a gravidez ir avante de maneira saudável será maior”, defende.
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