PUB

Fact-Checks

Mulheres absorvem o ADN de todos os parceiros sexuais com quem já se envolveram através do útero?

18 Fev 2026 - 08:16
falso

Mulheres absorvem o ADN de todos os parceiros sexuais com quem já se envolveram através do útero?

A alegação é repetida ao longo do vídeo: “A ciência comprovou que o útero da mulher absorve o material genético de todos os parceiros [sexuais]”, afirma a interlocutora, garantindo haver estudos que comprovam esta alegação. 

Declara também que, “se a mulher tiver uma vida sexual muito ativa” e engravidar “sem passar por um processo de limpeza”, os filhos “podem herdar os traços” dos ex-parceiros sexuais.

Não é a primeira vez que alegações semelhantes circulam nas redes sociais. Em 2018, uma publicação de Facebook apresentava a mesma premissa numa imagem: “Mulheres guardam o ADN de todos os homens com quem fazem amor, diz estudo”.

Anos mais tarde, noutra publicação, citava-se um estudo sobre microquimerismo para afirmar que “as mulheres tinham ‘absorvido’ código genético de todos os homens com cujos espermatozoides tinham mantido contacto”.

Serão estas alegações verdadeiras? Confirma-se que as mulheres absorvem o material genético de todos os parceiros sexuais? O que diz a ciência?

Mulheres absorvem o material genético de todos os parceiros sexuais?

Não existe evidência científica que valide as alegações partilhadas no vídeo ou nos posts. Pedro Viana Pinto, assistente de ginecologia na Unidade Local de Saúde (ULS) de São João e professor assistente na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), afirma que o útero “não é uma esponja” e, por isso, “não absorve” o material genético partilhado durante as relações sexuais.

Também Hélder Spínola, professor e investigador de genética humana na Universidade da Madeira, explica que as alegações resultam de uma “interpretação enganadora dos estudos” sobre microquimerismo – termo que define a existência de células no organismo humano com ADN diferente do indivíduo.

O investigador esclarece que a “partilha de gâmetas” (células que contêm material genético do indivíduo) que ocorre durante a relação sexual “não significa que essa informação passe a fazer parte do organismo da mulher”.

PUB

Diversos artigos científicos identificam a gravidez como uma das principais causas de microquimerismo masculino nas mulheres. Durante a gestação, pode existir uma troca bidirecional de material genético, através da placenta, passando “do feto para a mãe e da mãe para o feto”, explica Hélder Spínola

Contudo, não é a única causa. Células de ADN masculino foram também identificadas “em mulheres que nunca engravidaram nem tiveram relações sexuais”, acrescenta o investigador.

Explica ainda que o microquimerismo masculino pode ter sido “herdado da mãe” ou partilhado entre gémeos no útero, mesmo quando um dos zigotos é absorvido durante o processo de gestação (conhecido como síndrome do gémeo desaparecido).

Algumas intervenções médicas – como transfusões de sangue ou transplantes de órgãos – também podem transferir células com ADN diferente para o indivíduo.

De facto, há um estudo (de 2005) que analisa a existência de microquimerismo masculino em mulheres que não tiveram filhos do sexo masculino. Os investigadores encontraram células com ADN masculino no sangue de mais de um quinto das mulheres analisadas

Segundo o artigo, este fenómeno poderá estar relacionado com “perda gestacional não reconhecida”, existência de “gémeo (masculino) desaparecido” durante a gestação ou transferência de material genético de um “irmão mais velho” na gravidez (da mãe para o feto).

Os investigadores levantaram a hipótese – “ainda não investigada” – de que o ADN detetado no sangue feminino poderia ter origem em “relações sexuais sem gravidez”. Não existem, porém, evidências que sustentem essa hipótese, a investigação não valida as causas do microquimerismo e não foi realizada qualquer comparação com os parceiros sexuais das mulheres.

PUB

Anos mais tarde, outro estudo (2012) encontrou células com ADN masculino em “múltiplas regiões do cérebro” feminino. Também neste estudo, os investigadores apontam a gravidez de um feto masculino como a “origem mais provável para microquimerismo masculino no cérebro feminino”. Consideram também que o ADN pode ter sido “adquirido a partir de um aborto ou de uma perda gestacional”.

Lee Nelson, investigador em ambos os estudos, explica, numa entrevista ao Business Insider (2018), que “qualquer sugestão de que o ADN masculino é rotineiramente retido a partir dos parceiros sexuais não tem validação em qualquer estudo científico”.

“Para mim, a maior prova são os dados”, afirma, acrescentando que se essa transmissão fosse, de facto, “rotineira”, iria ser possível identificar microquimerismo masculino “na vasta maioria das mulheres adultas [sem filhos] que analisamos”.

Também William F. N. Chan, investigador do estudo publicado em 2012, diz à Reuters (2024) que é “errado e enganador afirmar que as relações sexuais conduzem a microquimerismo”. O investigador sublinha que se trata de uma hipótese não testada: “Apenas especulamos que o microquimerismo se estabelece através de relações sexuais”.

Estas alegações têm vindo a ser publicadas ao longo dos anos, tendo sido verificadas por fact-checkers internacionais e nacionais, como a Reuters, a AAP ou o Observador.

Bebés podem adquirir traços dos ex-parceiros sexuais das mães?

Nestas publicações, alega-se também que o material genético de antigas relações sexuais da mulher poderá ser herdado pelo feto. Mas também esta afirmação é enganadora e sem validade científica.

PUB

Pedro Viana Pinto lembra que “o espermatozoide é concebido com um objetivo: tentar a fecundação.” Por isso, “não tem cabimento achar que esta célula vai ficar dentro da mulher e ter implicações futuras”. O espermatozoide tem uma viabilidade de até sete dias no sistema reprodutor feminino, acrescenta o ginecologista.

Se a mulher tiver relações sexuais com múltiplos parceiros num curto espaço de tempo, podem existir espermatozoides de diferentes parceiros em simultâneo no sistema reprodutor feminino e todos estão aptos para fecundar o óvulo.

No entanto, afirma Pedro Viana Pinto, essa situação “é expectável” e nada tem que ver com a alegada retenção do ADN pelo útero – não validada pela ciência. O feto terá o material genético correspondente ao espermatozoide que fecundou o óvulo, não havendo mistura de ADN dos múltiplos parceiros – como é alegado.

PUB

Também Hélder Spínola considera que a alegação de que os filhos podem herdar material genético dos ex-parceiros da mãe “não faz sentido”: “O vídeo transparece a ideia de que existe uma espécie de incorporação das características genéticas no feto, e o que existe é uma sobrevivência dos gâmetas durante alguns dias”, afirma.

“Se estivermos a falar de relações sexuais próximas, pode acontecer que a relação sexual que levou à fecundação tenha sido a mais antiga. Mas estamos a falar de uma questão de dias, não é um enquadramento que encaixe nessa ideia de que passado muito tempo ainda pode influenciar o feto”, acrescenta o investigador em genética humana.

Em suma: não existe evidência científica que prove que as mulheres absorvem o material genético dos parceiros sexuais pelo útero. Diversos estudos identificam a gravidez como a principal causa de microquimerismo masculino em mulheres. É também falso que os fetos herdam traços genéticos dos ex-parceiros sexuais da mãe.

falso
18 Fev 2026 - 08:16

Partilhar:

PUB