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A culpa da embriaguez e da ressaca é das misturas de bebidas?

17 Ago 2024 - 08:25
falso

A culpa da embriaguez e da ressaca é das misturas de bebidas?

A culpa foi das misturas”. É possível que já tenha ouvido esta frase da boca de um amigo como forma de justificar uma noite de copos que fugiu do controlo. Esta ideia tem por base a crença comum de que a mistura de diferentes tipos de bebidas alcoólicas é o principal fator responsável pelos estados de embriaguez acelerados e pelas ressacas mais fortes. Verdade ou mito?

É verdade que misturar bebidas acelera a intoxicação alcoólica?

É um mito”. Quem o diz, em declarações ao Viral, é João Marques, vice-presidente da secção de Psiquiatria da Adição da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM).

Segundo o especialista, a ideia de que, “se fizermos misturas ficamos alcoolizados mais rapidamente, não tem qualquer tipo de justificação ou comprovação científica”, explica João Marques. 

A embriaguez depende de dois fatores essenciais: “a quantidade de álcool ingerida” e “o tempo no qual ingerimos essas bebidas” (ver também aqui).

Assim, prossegue, “quanto maior é a quantidade e quanto mais curto é o tempo, maior é a probabilidade de ficarmos alcoolizados”.

Isto porque tanto a quantidade de álcool ingerido como a rapidez com que o fazemos têm influência na metabolização desta substância.

Quando se ingere álcool, “ele vai ter de ser metabolizado e eliminado pelo organismo”. Essa função é, sobretudo, do fígado.   

No entanto, clarifica o especialista, “se eu ingerir uma grande quantidade num curto espaço de tempo, vou manter níveis de álcool mais altos no sangue” e “o fígado não vai ter tempo para fazer a metabolização.

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Isto acontece porque “o fígado só consegue processar pequenas quantidades de álcool”, assinala-se num texto informativo publicado no site dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa). 

“O resto do álcool pode prejudicar o fígado e outros órgãos à medida que se desloca pelo corpo”, acrescenta-se.

Além disso, existe um conjunto de outros fatores que também podem influenciar a velocidade da intoxicação alcoólica.

Por um lado, ingerir bebidas alcoólicas de estômago cheio é diferente de fazê-lo de estômago vazio

“Se eu tiver o estômago cheio, a absorção vai sendo mais lenta e vai dando mais tempo para o meu fígado metabolizar o álcool”, por isso, “não teremos tanto efeito tóxico do álcool”, avança João Marques. 

Também é importante referir que “a intoxicação depende muito da capacidade de metabolização do fígado”. Isto é, “fígados saudáveis têm uma maior facilidade em metabolizar e fígados doentes ou com doenças são menos capazes de metabolizar”, esclarece.

Por isso, “quem tem doenças hepáticas pode ficar embriagado com mais facilidade porque aquele fígado não é capaz de metabolizar” tão bem o álcool.

Outro fator que pode influenciar esta questão é a regularidade da ingestão de bebidas alcoólicas. “Quem bebe regularmente acaba por induzir uma maior quantidade de enzimas hepáticas dedicadas à metabolização do álcool”, adianta o especialista.

Estas pessoas acabam por “ganhar alguma tolerância”, no sentido em que não sentem os efeitos do álcool tão rapidamente como uma pessoa que bebe pontualmente.

Posto isto, “a questão da intoxicação nada tem que ver com as misturas”, realça o psiquiatra.

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João Marques põe a hipótese de este mito derivar do facto de, ao misturarmos bebidas e irmos variando, podermos, potencialmente, ingerir uma maior quantidade de álcool sem nos apercebermos.

“O sabor muda, o conceito da bebida muda e muitas vezes bebemos bebidas adocicadas, em cocktails, em que há mistura com sumos ou bebidas energéticas, que quebram um pouco a sensação do efeito do álcool”, esclarece.

O contexto pode fazer com que se beba “mais rápido, e com mais facilidade, maiores quantidades de álcool”, destaca. 

Por exemplo, “quando nos dedicamos a fazer misturas de bebidas, se calhar, estamos muito mais propensos a socializar com as bebidas e não tanto sentados à mesa a comer e a beber”.

Mais, acrescenta, quando fazemos misturas, “temos sempre uma tentação para beber bebidas com o maior teor de álcool”.

Misturar bebidas alcoólicas também não piora a ressaca

Tal como a embriaguez, a ressaca também depende, sobretudo, “da quantidade total de álcool ingerida”, adianta o psiquiatra.

Numa entrevista publicada no The Naked Scientists, um site que pertence à Universidade de Cambridge, também se desconstrói o mito de que misturar bebidas piora a ressaca (ver aqui).

Segundo João Marques, não se sabe ao certo que leva exatamente à ressaca, “mas julga-se que há três ou quatro fatores que intensificam o mal-estar no dia seguinte ao consumo de álcool”.

O ponto principal é “a quantidade de álcool ingerida”, reforça.

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A “desidratação” também parece ser um fator importante. As bebidas alcoólicas desidratam e essa desidratação contribui para “o mal-estar, náuseas, vómitos e cefaleias” (dores de cabeça).

Além disso, prossegue, existem substâncias tóxicas presentes nas bebidas alcoólicas, chamadas “congéneres”, que também favorecem a toxicidade do álcool.

“Essas substâncias não são alcoólicas, mas são tóxicas para o nosso sistema nervoso central” e dão-nos “uma sensação de mal-estar no dia seguinte”, explica.

As bebidas com “piores processos de produção”, as chamadas bebidas “de má qualidade”, têm “maior teor dessas substâncias – como acetato, acetaldeído e metanol”, exemplifica.

Ao que tudo indica, em específico, “as bebidas com cor terão maior quantidade desses congéneres do que as sem cor”.

João Marques cita um estudo que tentou comprovar esta ideia (ver aqui). Segundo o especialista, no decorrer desta investigação, estudaram-se três grupos de estudantes universitários.

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Um dos grupos bebeu uma determinada quantidade de vodka branca, outro bebeu Bourbon e o terceiro grupo era placebo (não bebeu bebidas com álcool).

“Claro que os que não beberam álcool não tinham ressaca, mas, quando se comparou os outros dois grupos, com a mesma quantidade de álcool ingerido, os que tinham bebido Bourbon tinham uma maior sensação de ressaca do que os que beberam vodka”, conta.

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17 Ago 2024 - 08:25

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