Mistura de óleo de girassol, bicarbonato e mel trata sinusite e nariz entupido? Especialista responde
Uma mistura de óleo de girassol, bicarbonato de sódio e mel seria capaz de aliviar a sinusite e desentupir rapidamente o nariz? A alegação tem circulado no Facebook. Mas haverá fundamento científico para esta receita caseira?
Há evidência científica de que este remédio caseiro funciona?
Segundo a otorrinolaringologista Carla Pinto de Moura, “até ao momento, não existe evidência clínica robusta, publicada em revistas científicas indexadas e com revisão por pares, que demonstre eficácia dessa mistura específica no tratamento da sinusite ou congestão nasal”.
A especialista explica que não foram encontrados ensaios clínicos controlados que avaliem a combinação de óleo de girassol, bicarbonato e mel, quer através de aplicação nasal, quer por ingestão. “Qualquer alegação de eficácia dessa mistura é, atualmente, não validada cientificamente”, relata ao Viral.
O que diz a ciência sobre sinusite?
De acordo com a professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, os tratamentos com eficácia comprovada passam, por exemplo, por: irrigação nasal com solução salina, corticosteroides intranasais, controlo de alergias e, em alguns casos, antibióticos e tratamentos anti-inflamatórios.
Esta posição é corroborada pelo European Position Paper on Rhinosinusitis and Nasal Polyps 2020 (EPOS 2020), considerado uma das principais referências europeias sobre rinossinusite. O documento sustenta que a irrigação nasal salina e os corticosteroides intranasais continuam a ser a base do tratamento.
As orientações europeias também não incluem qualquer recomendação de misturas caseiras com óleo vegetal, mel ou bicarbonato no tratamento da sinusite.
O mel pode ajudar?
O mel possui propriedades antimicrobianas, anti-inflamatórias, antioxidantes e cicatrizantes, reconhece Carla Pinto de Moura. A especialista refere que existem alguns estudos laboratoriais e pequenos estudos clínicos que sugerem atividade antibacteriana do mel contra certos microrganismos respiratórios.
Contudo, a médica alerta: “Isso não significa que trate sinusite”. Além disso, “os estudos não sustentam o uso doméstico de mel dentro do nariz” e “não há consenso clínico para recomendá-lo como terapia padrão”.
A literatura científica disponível confirma essa prudência. O próprio EPOS 2020 menciona que trabalhos experimentais sobre mel de Manuka identificaram atividade antibacteriana contra bactérias resistentes, incluindo Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA). No entanto, a entidade não comprova que é possível recomendar o uso doméstico de mel para tratar sinusite.
E o bicarbonato?
O bicarbonato de sódio surge ocasionalmente em formulações de irrigação nasal porque pode ajudar a ajustar o pH e a fluidificar secreções, tornando a lavagem nasal mais confortável.
Mas o benefício descrito na literatura científica “está associado à lavagem nasal salina adequada, não ao bicarbonato isoladamente”, esclarece a especialista.
As orientações EPOS referem precisamente que a evidência científica mais fiável está associada à irrigação salina nasal devidamente preparada e administrada, não a soluções caseiras sem validação clínica.
O óleo de girassol funciona?
“Não existem evidências clínicas relevantes demonstrando eficácia do óleo de girassol no tratamento da sinusite”, remata Carla Pinto de Moura.
A médica adverte que, embora alguns óleos vegetais apresentem propriedades emolientes ou ligeiramente anti-inflamatórias em modelos experimentais, “não há validação para uso intranasal em sinusite” e a aplicação de óleos nas vias respiratórias “pode trazer riscos”.
Existem mecanismos plausíveis?
A especialista admite que há alguns mecanismos fisiológicos teoricamente plausíveis para explicar a razão para certas pessoas acreditarem sentir alívio.
O mel poderia reduzir o crescimento bacteriano local, diminuir mediadores inflamatórios ou atuar como barreira osmótica. O bicarbonato poderia alterar o pH do muco e reduzir a viscosidade das secreções. Já o óleo poderia lubrificar temporariamente a mucosa e aliviar a sensação de secura.
Mas há um problema essencial, identificado pela docente: “Plausibilidade biológica isolada não é suficiente para recomendar um tratamento”.
Segundo Carla Pinto de Moura, não existem provas de que esta mistura consiga atingir os seios perinasais em concentrações eficazes, nem provas de redução da inflamação sinusal ou melhoria sustentada dos sintomas.
Os riscos não são negligenciáveis
Ao contrário da ideia frequentemente difundida nas redes sociais de que “por ser natural não faz mal”, a médica alerta para vários riscos potenciais desta mezinha.
O principal está relacionado com a aplicação nasal de óleo vegetal, uma vez que “pode ocorrer pneumonia lipídica exógena”, explica. Isto acontece quando pequenas quantidades de óleo são aspiradas repetidamente para os pulmões.
“Óleos vegetais aplicados no nariz ou inalados não são considerados seguros para uso frequente”, reforça.
Além disso, o bicarbonato em concentrações inadequadas pode provocar ardor, irritação nasal e alterações da mucosa.
Há ainda o risco de contaminação microbiológica. Carla Pinto de Moura descreve que “misturas caseiras podem não ser estéreis, introduzir fungos ou bactérias e piorar infeções existentes”.
O mel também não está isento de problemas, podendo desencadear alergias ou irritação em pessoas sensíveis a pólen ou produtos apícolas.
Outro perigo importante é o atraso no tratamento adequado. “Pode mascarar sintomas, atrasar o diagnóstico e permitir progressão de sinusite bacteriana, pólipos nasais ou outras doenças”, alerta a especialista.
Porque razão estas receitas se tornam virais?
Segundo Carla Pinto de Moura, existem várias razões psicológicas e sociais que explicam o sucesso destes conteúdos nas plataformas digitais.
Por um lado, misturas “naturais” parecem acessíveis, seguras e fáceis de reproduzir, criando forte apelo emocional. Depois, há o chamado “viés de confirmação”: muitas infeções virais melhoram espontaneamente e as pessoas acabam por atribuir a recuperação ao remédio utilizado.
A docente denota que os testemunhos pessoais também têm enorme peso. Frases como “funcionou comigo” ou “melhorei em apenas um dia” tendem a ser mais persuasivas do que dados científicos.
Além disso, “as redes sociais tendem a amplificar conteúdo surpreendente, soluções rápidas, ‘segredos escondidos’ e oposição à medicina convencional”, explica a médica.
Quais são os tratamentos recomendados?
A especialista recorda que o tratamento depende da causa da sinusite (viral, bacteriana, alérgica ou crónica), mas existem medidas com melhor suporte científico.
Entre elas estão:
- irrigação nasal com solução salina (para aliviar a congestão, fluidificar secreções e melhorar a função mucociliar);
- corticosteroides intranasais (especialmente úteis em rinossinusite crónica, alergias, polipose nasal, e reduzem inflamação da mucosa nasal);
- hidratação e analgésicos (alívio da dor facial, pressão e mal-estar);
- tratamento da rinite alérgica quando necessário (anti-histamínicos, controlo ambiental, corticosteroides nasais);
- antibióticos apenas em situações específicas (quando os sintomas perduram por mais de 10 dias ou quando há febres elevadas);
- cirurgia endoscópica em casos selecionados.
Contudo, “a maioria das sinusites agudas é viral e melhora sem antibióticos”, destaca.
As orientações europeias EPOS reforçam precisamente que os antibióticos devem ser reservados para casos selecionados, sobretudo porque grande parte das rinossinusites agudas tem origem viral e resolução espontânea.