Aquecer o “meridiano do pulmão” no braço acaba com a tosse irritativa ou alérgica?
Nas redes sociais, alega-se que aquecer a “zona do meridiano do pulmão (desde a clavícula até ao polegar)” com um secador de cabelo é uma “dica milagrosa” para “reduzir a tosse” e “estimular a imunidade”.
O objetivo é “aquecer a pele” e, para tal, aplica-se o ar quente do secador no braço “durante três minutos”, fazendo “movimentos lentos e contínuos” – mas “sempre a uma distância segura, para evitar queimaduras”.
Mas será verdade que aquecer o braço com um secador de cabelo elimina a tosse irritativa ou alérgica? Existe evidência científica que comprove esta “dica milagrosa”?
Aquecer o “meridiano do pulmão” trata a tosse?
Em declarações ao Viral, Lígia Fernandes, pneumologista na Unidade Local de Saúde (ULS) do Baixo Mondego e ex-coordenadora da comissão de trabalho de asma e alergologia respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP), adianta que a alegação partilhada não tem validade científica.
“Não vejo qualquer razão ou justificação para que isto aconteça, não há nada ao nível fisiopatológico que ligue as duas situações”, afirma a especialista, baseando-se nos estudos que sustentam a medicina ocidental.
Segundo a medicina tradicional chinesa, o “meridiano do pulmão” é o eixo que vai do polegar à clavícula. Neste meridiano existem sete pontos de acupuntura que, segundo páginas sobre o tema, tratam problemas respiratórios, como tosse, asma, aperto no peito, entre muitos outros.
A eficácia da medicina tradicional chinesa não é consensual entre a comunidade médica e científica. Muitos investigadores questionam a metodologia utilizada nos estudos realizados sobre o tema e consideram que os resultados derivam do efeito placebo.
Lígia Fernandes sublinha que “não há justificação” para que esta prática tenha efeitos no tratamento da tosse. Reconhece, contudo, que aplicar o secador perto da zona do nariz pode aumentar a temperatura do ar que é inspirado, e “aliviar temporariamente” a tosse irritativa ou alérgica.
“Sendo uma zona que está relativamente perto da cara, o ar que é respirado torna-se um pouco mais quente”, tenta justificar a pneumologista, alertando que esta possibilidade é “muito rebuscada”.
Outra hipótese colocada pela pneumologista está relacionada com a alteração do foco do paciente. Ao aquecer esta parte do braço, o indivíduo está a “descentralizar” a atenção, o que poderá levar a uma redução momentânea da tosse.
“Se uma pessoa está muito focada num determinado ponto, pode, durante algum tempo, ter menos tosse”, afirma, sublinhando que este fenómeno não é exclusivo do “meridiano do pulmão” e existem várias ações que podem ser feitas para alterar o foco.
Mesmo que se verifique uma redução da tosse, é importante lembrar que se trata de um efeito pontual e transitório, e não constitui um tratamento eficaz para a tosse irritativa ou alérgica.
Dependendo da causa, existem diferentes formas de tratar a tosse. Caso exista um componente alérgico, a solução passa por “remover o agente desencadeador” e, depois, “fazer a medicação adequada, que pode passar por anti-histamínicos e antialérgicos, inaladores ou medicação intranasal (corticoides ou anti-histamínicos)”, aconselha a pneumologista.
Além da componente alérgica, a tosse pode também estar associada a uma infeção, que provoca “irritação e fragilidade da mucosa das vias aéreas, mesmo após a suspensão da infeção”. Pode ainda estar associada a casos de “refluxo gastroesofágico” ou “rinites que, quando não tratadas, desencadeiam quadros de tosse”. Em ambos os casos, é aconselhado falar com o médico especializado para aplicar o tratamento adequado.
Em suma: não há evidência científica de que aplicar calor com um secador de cabelo no braço trate a tosse irritativa ou alérgica. O ar quente ou a mudança de foco podem aliviar temporariamente a tosse, mas não se trata de um tratamento eficaz e validado.