PUB

Fact-Checks

Mensagens provam que Fauci encobriu taxa de 82% de abortos entre vacinadas contra a COVID-19?

21 Ago 2026 - 08:15
falso

Mensagens provam que Fauci encobriu taxa de 82% de abortos entre vacinadas contra a COVID-19?

As mensagens atribuídas ao antigo conselheiro médico da Casa Branca Anthony Fauci – divulgadas recentemente pelos senadores norte-americanos Ron Johnson e Rand Paul – deram origem a várias narrativas falsas nas redes sociais. Uma das mais difundidas afirma que o imunologista teria encoberto “uma taxa de 82% de abortos espontâneos entre grávidas vacinadas contra a COVID-19 no primeiro trimestre”. No entanto, esta alegação é falsa e resulta de uma interpretação incorreta dos dados de um estudo de 2021.

Mensagens não provam encobrimento de taxa de 82% de abortos espontâneos

As mensagens atribuídas a Anthony Fauci que têm sido utilizadas para sustentar esta narrativa falsa não provam um encobrimento de uma taxa elevada de abortos espontâneos provocados pela vacina contra a Covid-19. Referem-se, antes, a uma preocupação teórica que nunca chegou a ser confirmada por dados científicos.

A troca de mensagens em causa aconteceu a 25 de janeiro de 2021, quando os dados sobre a segurança das vacinas contra a COVID-19 na gravidez ainda eram limitados. Na altura, Fauci escreveu que a febre e a resposta inflamatória provocadas pela segunda dose poderiam, em teoria, estar associadas a um aborto espontâneo no primeiro trimestre. Isto é, o imunologista referia-se a uma possibilidade que deveria ser investigada, e não a um efeito já demonstrado pela ciência.

Aliás, no dia seguinte, a 26 de janeiro, Fauci afirmou, numa nova mensagem, que não tinham surgido problemas entre mais de 10 mil grávidas que já tinham sido vacinadas. Além disso, dizia, os estudos de toxicidade realizados em animais não tinham identificado sinais de alerta. Por outras palavras, os receios teóricos do dia anterior não se confirmavam à luz da evidência científica disponível.

De onde vem a suposta taxa de 82% de abortos?

A suposta taxa de 82% não tem origem nas mensagens de Anthony Fauci e surgiu vários meses depois da troca de mensagens em análise. O valor foi apresentado ao Senado norte-americano por James Thorp, um ginecologista que, tal como explica a AFP, já foi várias vezes desmentido por diferentes órgãos de verificação de factos devido a alegações falsas ou enganadoras sobre as vacinas contra a COVID-19.

PUB

Para fundamentar esta teoria, Thorp baseou-se numa interpretação errada de um estudo publicado a 21 de abril de 2021 no New England Journal of Medicine, que analisou dados preliminares sobre a segurança das vacinas de mRNA durante a gravidez.

O estudo analisou 3958 grávidas vacinadas, mas, no momento da análise, apenas 827 tinham concluído a gravidez. Destas, 104 tiveram um aborto espontâneo. Os investigadores calcularam assim uma taxa de perda de gravidez de 12,6%, um valor semelhante ao observado na população em geral.

Thorp, contudo, refez esse cálculo de outra forma, o que enviesou os resultados e as supostas conclusões. Em vez de considerar as 3958 grávidas incluídas no estudo, Thorp isolou apenas as mulheres com “gravidez concluída” e, dentro desse grupo, excluiu ainda as que tinham sido vacinadas no terceiro trimestre (que correspondiam a 700 das 827 gravidezes concluídas). Assim sendo, sobrou um grupo de apenas 127 mulheres vacinadas no primeiro ou segundo trimestre e cuja gravidez já tinha terminado. Destas, 104 corresponderam a abortos espontâneos, o que resultou na tal taxa de 82%.

O problema deste cálculo é que esse grupo de 127 mulheres não representa todas as grávidas vacinadas no primeiro ou segundo trimestre. Como o estudo durou apenas alguns meses, e uma gravidez dura cerca de nove meses, a maioria das mulheres vacinadas no início da gestação ainda estava grávida quando os dados foram recolhidos, pelo que ficaram de fora da análise de Thorp. Já quem sofreu um aborto espontâneo entrou logo na conta, porque a gravidez tinha terminado dentro do prazo do estudo.

Por isso, o grupo analisado por Thorp estava naturalmente inflacionado com casos de aborto, não porque a vacina cause mais abortos, mas porque esses são os casos que terminam mais depressa. Os próprios autores do estudo original já tinham alertado, na altura, que os dados sobre esse subgrupo eram preliminares e incompletos.

Aliás, meses depois da publicação do estudo, os investigadores reconheceram que mesmo o número de 827 gravidezes concluídas “não é um denominador apropriado para o cálculo de uma estimativa de risco ou taxa”. Isto porque a maioria das mulheres vacinadas no início da gravidez ainda não tinha completado o acompanhamento até às 20 semanas. Por isso, alargaram a amostra para 2456 mulheres vacinadas antes da conceção ou antes das 20 semanas de gestação e recalcularam a taxa de aborto espontâneo com um método estatístico apropriado. O resultado foi uma taxa cumulativa de aborto espontâneo de 14,1% no total, e 12,8% numa análise ajustada por idade, valores que os autores consideram semelhantes aos observados na população em geral.

PUB

Importa lembrar que os estudos realizados posteriormente sobre a segurança das vacinas contra a COVID-19 na gravidez não encontraram um aumento do risco de aborto espontâneo. As taxas observadas foram semelhantes às esperadas na população em geral.

falso
21 Ago 2026 - 08:15

Partilhar:

PUB