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Dia Mundial da Menopausa: 7 mitos e verdades sobre a terapêutica hormonal

18 Out 2024 - 09:52

Dia Mundial da Menopausa: 7 mitos e verdades sobre a terapêutica hormonal

A terapêutica hormonal da menopausa é um dos tratamentos mais eficazes e recomendados na gestão dos sintomas associados a esta fase da vida. Ainda assim, há mulheres que ainda têm dúvidas sobre este tratamento. Só as mulheres com sintomas devem fazer a terapêutica hormonal? O tratamento causa ganho de peso?

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No Dia Mundial da Menopausa, assinalado todos os anos a 18 de outubro, Ana Rosa Costa, médica especialista em ginecologia e obstetrícia e professora na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), esclarece sete mitos e verdades sobre a terapêutica hormonal.

A terapêutica hormonal melhora a qualidade de vida das mulheres em menopausa?

Sim. Aliás, segundo Ana Rosa Costa, “a terapêutica hormonal é o tratamento de primeira linha mais eficaz e apropriado para mulheres saudáveis com sintomatologia vasomotora”.

Tal como explica a médica, esta terapêutica “consiste em dar às mulheres que têm sintomas de menopausa hormonas idênticas às que eram produzidas no ovário” antes desta fase (ver também aqui e aqui). 

Como “o principal estrogénio do ovário é o estradiol” é desta hormona que as mulheres em menopausa “precisam para tratar esses sintomas”.

O hipoestrogenismo, ou seja, “a diminuição da produção do estradiol a nível dos ovários” caraterística da menopausa, “leva a alterações do sono, irritabilidade, dificuldades na concentração, alterações da memória, desconforto articular e muscular”, adianta a especialista.

Nesta fase, as mulheres também podem ter uma sensação repentina e frequente de calor (afrontamentos) e “suores noturnos”.

Além disso, é comum sentir uma “atrofia ao nível urogenital”, também designada por “síndrome urogenital da menopausa”.

Este tipo de desconforto “vulvar, vaginal e urológico” tem “tendência a progredir, se não for realizado qualquer tipo de tratamento”, e também afeta “a função sexual”, aponta Ana Rosa Costa.

É importante assinalar que, de facto, “nem todas as mulheres têm sintomas e nem todas as mulheres precisam de fazer terapêutica hormonal”. 

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Contudo, as que beneficiam da terapia hormonal, fazer este tratamento “melhora muito a qualidade de vida” destas mulheres. 

As mulheres “que não têm útero têm um perfil risco-benefício mais favorável, porque não têm de associar a progesterona, que muitas vezes se opõe a algum dos efeitos benéficos do estradiol”, realça. 

Além do alívio dos sintomas, as mulheres que fazem a terapêutica hormonal têm outros benefícios acrescidos. Por exemplo, este tratamento “diminui o risco de osteoporose e de fraturas osteoporóticas”, salienta a professora da FMUP.

Só existe um tipo de terapêutica hormonal?

Segundo Ana Rosa Costa, existem vários tipos de terapêutica hormonal e, realça, “o tratamento deve ser individualizado” e vai depender de fatores como “a idade” e “os fatores de risco”.

Por exemplo, refere, para “uma mulher que seja fumadora, tenha hipertensão, diabetes e obesidade”, além de ser necessário “recomendar um estilo de vida saudável”, deve-se receitar estradiol por “via transdérmica (pode ser um selo, um gel ou um spray)”.

Noutras mulheres, sem esses fatores associados, e tendo em conta a preferência individual, pode-se “optar pela via oral, através de um comprimido que se tem de tomar todos os dias”, sugere. 

As mulheres que têm útero, “além do estradiol, têm de tomar progesterona ou um progestativo (uma hormona sintética semelhante à progesterona), que vai proteger do cancro do endométrio”, explica a ginecologista.

Na perspetiva de Ana Rosa Costa, é fundamental que a terapêutica hormonal “seja iniciada o mais precocemente possível, ou seja, antes de fazer 10 anos desde a última menstruação e antes dos 60 anos”.

Existem “muitos produtos com estradiol ou compostos de estradiol com progesterona/progestativo disponíveis”, pelo que se deve fazer uma avaliação inicial individualizada e um acompanhamento “periódico de riscos e benefícios”.

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Só as mulheres sintomáticas são aconselhadas a fazer terapêutica hormonal?

Não. As mulheres “que têm menopausa precoce ou uma insuficiência ovárica prematura” são aconselhadas a fazer a terapêutica hormonal. 

Quando a menopausa ocorre “entre os 40 e os 45 anos é considerada precoce” e quando ocorre “antes dos 40” trata-se de “uma insuficiência ovárica prematura”, explica Ana Rosa Costa.

Em ambos os casos, “independentemente de as mulheres terem sintomas ou não, têm indicação para fazer terapêutica hormonal até à idade em que ocorreria a menopausa natural, por volta dos 51 anos” (ver também aqui).

Há mulheres que não podem fazer este tratamento?

Sim. Tal como se refere num artigo de revisão recente, liderado pelo comité de doenças cardiovasculares nas mulheres do Colégio Americano de Cardiologia, “existem contraindicações relativas ou absolutas para o uso” da terapêutica hormonal.

Por exemplo, assinala Ana Rosa Costa, “uma mulher que tenha cancro da mama com recetores hormonais positivos para estrogénios tem contraindicação absoluta para fazer a terapêutica hormonal da menopausa”.

Por outro lado, se uma mulher “tiver alterações da coagulação com antecedentes de trombose ou enfarte, a terapêutica hormonal, por via oral, aumenta o risco trombótico”, exemplifica. Neste caso, “deve-se aconselhar a terapêutica hormonal, mas por via transdérmica”.

Cada caso é um caso. Por isso, na perspetiva da médica, o acompanhamento e o tratamento individualizado é fundamental.

Numa primeira fase, “deve-se fazer uma história clínica, ver se há alguma contraindicação” e depois prescrever “uma terapêutica de acordo com os sintomas, o perfil e as comorbilidades da mulher”, prossegue.

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Caso não seja reportado nenhum efeito secundário, “ao fim de três meses”, marca-se outra consulta e, a partir daí, “há uma revisão e um ajuste anual da terapêutica de acordo com as necessidades e os objetivos da mulher”.

A terapêutica hormonal causa ganho de peso?

Esta ideia “é um mito”, defende Ana Rosa Costa. De facto, com a idade, “tanto as mulheres como os homens ficam com o metabolismo mais lento e ficam com tendência para ganhar peso”. 

A menopausa, em específico, “faz com que haja uma deposição mais visceral da gordura”, ou seja, a massa gorda acumula-se mais na barriga.

Isto “não significa que a terapêutica hormonal engorda”. O que acontece é que a terapêutica “impede a deposição central da gordura, mas não engorda nem emagrece”, esclarece.

Para a ginecologista, é importante não esquecer que, nesta fase, é fundamental “ter uma dieta equilibrada” e praticar exercício físico regular.

Este tratamento provoca doença cardiovascular?

Não é bem assim. Ana Rosa Costa explica que, “depois da menopausa, as mulheres deixam de ter o efeito protetor do estradiol e têm mais risco de doença cardiovascular”.

Este risco é potenciado pela “deposição mais visceral da gordura”, já que este tipo de gordura “é um dos fatores de risco para a doença cardiovascular”.

Além disso, “sabe-se que quanto mais intensos os sintomas da menopausa, maior o risco do cardiovascular”, acrescenta.

Por isso, como a terapêutica hormonal alivia os sintomas da menopausa e impede a deposição central da gordura, acaba por “diminuir o risco de doença cardiovascular” (ver aqui e aqui).

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No entanto, pessoas com doença cardiovascular não tratada devem ter algum cuidado. Pode haver uma contraindicação relativa para a terapêutica hormonal enquanto a doença não estiver estabilizada (ver aqui, aqui e aqui).

A toma de hormonas bioidênticas é uma boa alternativa à terapêutica hormonal convencional?

Ana Rosa Costa partilha alguma preocupação em relação “às chamadas hormonas bioidênticas manipuladas” que têm sido publicitadas como boas alternativas à terapêutica hormonal convencional.

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A especialista alerta para “os perigos” destes produtos que não são aconselhados, porque “não existem estudos que comprovem a sua eficácia e a sua segurança”.

Além disso, são “mais caros” do que os tratamentos convencionais, e, muitas vezes, são recomendados por pessoas que não são especialistas em ginecologia.

No Consenso Nacional sobre Menopausa de 2021 também se reforça a ideia de que a toma de hormonas bioidênticas não é recomendada.

No documento explica-se que estas substâncias, apesar de serem “sintetizadas em laboratórios”, “não estão validadas pela medicina baseada na evidência” em termos de “eficácia e segurança”.

Além disso, defende-se, “os conteúdos promocionais destes produtos não contêm informação adequada e não alertam as mulheres dos potenciais riscos da sua utilização”.

Por isso, salienta-se, “o conhecimento científico atual, clínico e regulamentar relativo à saúde da mulher desaconselha o uso destes produtos e a sua prescrição pode incorrer em problemas médico-legais”.

18 Out 2024 - 09:52

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