VITAL
O melanoma só afeta a pele?
O melanoma é um dos mais conhecidos tipos de cancro de pele e, segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, é o “mais grave”.
Mas será que este tumor apenas se desenvolve na pele? E pode disseminar-se para outros órgãos? Daniela Cunha, diretora da unidade de dermatologia da Fundação Champalimaud, e Cecília Moura, diretora do serviço de dermatologia do IPO Lisboa, explicam as características deste tipo de cancro.
Melanoma afeta apenas a pele ou pode atingir outros órgãos?
O melanoma é “um tumor maligno com capacidade de invadir outros órgãos e causar a morte do paciente”, afirma Cecília Moura. Também Daniela Cunha explica que o melanoma “é um tumor tipicamente primário da pele, mas pode também ocorrer em algumas mucosas”.
O termo melanoma é utilizado quando ocorre uma proliferação maligna de melanócitos (também conhecido como células névicas). A maioria dos melanócitos está localizada na camada mais profunda da epiderme, sendo responsável pela produção de melanina – um pigmento que dá cor à pele, ao cabelo e contribui para a cor dos olhos.
Cecília Moura afirma que o “melanoma mais frequente é o cutâneo”, contudo, em casos raros, este tipo de tumor pode desenvolver-se “no epitélio de revestimento das mucosas, nos nevos melanocíticos/congénitos, nos melanócitos em vísceras [sistema digestivo] e no olho”.
A Liga Portuguesa Contra o Cancro esclarece que o melanoma cutâneo é o mais comum porque “a maioria das células pigmentares encontra-se na pele”. No entanto, este tipo de tumor pode, também, ocorrer nos olhos (melanoma ocular ou melanoma intra-ocular)” e, em casos raros, pode surgir “nas meninges, no aparelho digestivo, nos gânglios linfáticos ou noutras áreas onde há melanócitos”.
À semelhança de outros cancros, também o melanoma tem a capacidade de originar metástases. Este tumor pode atingir gânglios linfáticos que estejam próximos ou distantes da área em que se desenvolveu o tumor, mas também pode “metastizar-se e disseminar-se para outros órgãos, tais como o pulmão, o fígado, o osso, o sistema nervoso central”, afirma Daniela Cunha.
Quais os sinais e tratamentos para o melanoma?
O melanoma cutâneo apresenta-se como uma lesão na pele que, na maior parte dos casos, é “fortemente pigmentada (negra ou de cor heterogénea), assimétrica e tem irregularidades nos bordos”, explica Daniela Cunha. Esta lesão “destaca-se dos demais sinais” e pode “modificar-se” com o passar do tempo.
Caso seja um melanoma amelanótico (uma variante do tumor), a lesão pode apresentar-se sem pigmentação, o que a torna mais difícil de identificar. Manchas acastanhadas e irregulares nas mucosas ou uma risca negra na unha podem também ser sinal de melanoma.
“O principal fator de risco para o melanoma é o escaldão”, afirma a diretora da unidade de dermatologia da Champalimaud. As pessoas que têm pele mais clara – ou seja, com menor quantidade de melanina – têm “um escudo menor” contra as radiações ultravioletas (UV) e, por isso, “as células estão mais vulneráveis a lesões carcinogénicas resultantes da radiação UV”.
Além disso, a presença de muitos sinais atípicos (síndrome dos nevos displásicos) e casos de imunossupressão podem também aumentar o risco de melanoma.
Cecília Moura lembra que o “risco global de um indivíduo desenvolver melanoma cutâneo ao longo da vida foi calculado em 2%”. Em Portugal, a incidência é de oito a dez casos por cada 100 mil habitantes.
Quando identificado em fases iniciais, o melanoma “é um tumor maligno curável numa percentagem muito elevada dos casos”, acrescenta a diretora do serviço de dermatologia do IPO Lisboa. Após o diagnóstico, a lesão é removida cirurgicamente – com margem cirúrgica adequada – e é feita uma biópsia (exame que permite saber se é um tumor maligno).
Pode ser necessário realizar tratamentos complementares, como imunoterapia ou administração de fármacos biotecnológicos que inibem a progressão do tumor.
Ambas as especialistas admitem que, nos últimos anos, registou-se uma maior sobrevida em pessoas com melanoma. Este aumento da sobrevida está relacionado com dois fatores: por um lado, uma maior literacia da população sobre os fatores de risco para o melanoma; por outro, a evolução tecnológica que permitiu melhores tratamentos para este tipo de tumor.
Segundo dados do Observatório Global para o Cancro, referentes a 2022, foram diagnosticados 1.215 novos casos de melanoma em Portugal, 308 pacientes morreram devido a este tipo de cancro (que corresponde a menos de 1%) e 4.477 sobreviveram mais de cinco anos após o diagnóstico.
Daniela Cunha alerta que é preciso “alguma cautela” ao analisar os dados referentes à incidência e mortalidade por melanoma, uma vez que poderá existir alguma “subnotificação de casos mais simples”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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