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Mel Gibson insinua que a ivermectina e o fenbendazol curam o cancro. Há provas?

22 Jan 2025 - 09:43

Mel Gibson insinua que a ivermectina e o fenbendazol curam o cancro. Há provas?

Num episódio recente do famoso podcast do norte-americano Joe Rogan, que conta com mais de 19 milhões de subscritores no YouTube, o ator Mel Gibson alega que tem três amigos que curaram cancros de estadio 4 com a toma de ivermectina e de fenbendazol. 

Na sequência da publicação da entrevista, começaram a surgir vários posts nas redes sociais, em que se partilha o excerto em que Mel Gibson fala sobre o assunto.

“Muitas pessoas estão a curar-se de cancro com tratamentos que não dão lucro para a indústria farmacêutica”, afirma-se num post de Facebook.

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Na rede social X, a autora de uma das publicações transcreve parte do episódio em questão e deixa um incentivo: “tomem ivermectina”. Mas há evidência científica que prove que é possível curar o cancro com a toma de ivermectina e de fenbendazol, como insinua Mel Gibson?

Está provado que a ivermectina e o fenbendazol curam o cancro?

Não há evidências científicas robustas que permitam afirmar que a ivermectina e o fenbendazol curam o cancro e recorrer a esses tratamentos pode pôr em risco a saúde dos doentes oncológicos.

Aliás, na sequência da divulgação do episódio do podcast de Joe Rogan em que Mel Gibson participou, a Sociedade do Cancro do Canadá fez uma publicação na rede social X a criticar as alegações do ator e a explicar a gravidade das mesmas.

“Mel Gibson promoveu medicamentos que não são tratamentos cientificamente comprovados contra o cancro. A desinformação sobre o tratamento do cancro é perigosa, cruel, irresponsável e dá falsas esperanças às pessoas com cancro e aos seus entes queridos”, lê-se no post.

A Sociedade do Cancro do Canadá considera ainda importante salientar que “a cirurgia, a radioterapia e os medicamentos aprovados para o cancro, como a quimioterapia, são seguros e impedem comprovadamente o crescimento e a propagação das células cancerígenas”.

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Por outro lado, “optar por uma terapia alternativa pode ter efeitos graves para a saúde, como a propagação ou o agravamento do cancro”, acrescenta.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) explica, num texto publicado no seu site, que “a ivermectina é um agente antiparasitário de largo espetro, incluído na lista de medicamentos essenciais da OMS para várias doenças parasitárias”.

Esta substância “é utilizada no tratamento da oncocercose (cegueira dos rios)”, “da estrongiloidíase”, “de outras doenças causadas por helmintíases [vermes] transmitidas pelo solo” e “da sarna”, refere-se no mesmo texto.

Tal como a oncologista Daniela Macedo e a pneumologista Margarida Dias já tinham esclarecido, em declarações anteriores ao Viral, não existe evidência robusta de que a ivermectina tenha propriedades antineoplásicas [que diminuem o desenvolvimento de “células anormais”] ou que cure o cancro. 

Alguns estudos referem potenciais efeitos deste fármaco na inibição de células cancerígenas. Contudo, são estudos preliminares realizados in vitro, ou seja, feitos em células.

Isto significa que são necessários estudos em animais e em humanos para que seja possível “trasladar as observações pré-clínicas em terapêuticas benéficas para os humanos”, concluem os investigadores de um artigo publicado em 2024 sobre efeitos potenciais deste fármaco.

No que diz respeito ao fenbendazol, de acordo com a informação disponível na base de dados de química PubChem, este também é antiparasitário, utilizado contra vários vermes gastrointestinais, como giárdia e lombrigas.

Contudo, ao contrário da ivermectina, o fenbendazol só está aprovado para utilização em animais (como, por exemplo, ovinos, bovinos e cães). Até à data, a FDA (autoridade reguladora do medicamento dos Estados Unidos) e a EMA (Autoridade Europeia do Medicamento) não aprovaram o uso desta substância em humanos (ver aqui e aqui).

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O Cancer Research UK esclarece, no fórum alojado no seu site, que “não existem provas científicas que demonstrem que o fenbendazol (comprimidos para a desparasitação) funciona em pessoas e os comprimidos utilizados em animais podem ser perigosos” para humanos.

Existem alguns estudos que abordam os potenciais efeitos anti-cancro do fenbendazol, mas estas investigações foram feitas “em células e ratos e não em pessoas”, acrescenta-se. 

Esta ideia também é defendida no site do BreastCancer.org. A organização explica que, como os estudos disponíveis não foram realizados em pessoas, “não é claro quais os efeitos secundários” que o fenbendazol “pode causar” em humanos, nem é possível determinar “a dose ideal”.

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