VITAL
Meditação cura o cancro?
Nas redes sociais, circulam vários vídeos com testemunhos de pessoas que garantem ter curado cancro apenas através de um programa de meditação. Em todos, há um nome comum: Joe Dispenza, o criador e dinamizador desses programas.
Dispenza apresenta-se como neurocientista, mas a verdade é que a formação que tem é em quiropraxia. Tem vários livros sobre o cérebro — três publicados em Portugal — e garante que a meditação pode curar não só cancro, mas muitas outras doenças.
Em 2014, Joe Dispenza vendeu bilhetes a 450 euros para um seminário num hotel em Lisboa. “Criar um novo eu – Quebre o hábito de ser como é” era o título e mote dos workshops e palestras que decorreram durante três dias.
No mesmo dia, do outro lado da rua, um grupo de cientistas organizou uma conversa de café, de entrada livre, para que “a população pudesse falar com verdadeiros neurocientistas e saber um pouco mais sobre o trabalho que desenvolvem e a diferença entre ciência e pseudociência”, lê-se no site da COMCEPT (Comunidade Cética Portuguesa), que apoiou o evento.
Dispenza diz que uma das suas missões é “curar”. “A evidência que reunimos através da nossa investigação científica e das histórias de transformação demonstram que é possível curar todos os tipos de condições – por vezes, com uma única intervenção”, lê-se no site oficial. Mas que evidência é essa?
Será possível curar cancro com meditação?
Não. O que a meditação pode fazer é aliviar alguns sintomas ou efeitos secundários de tratamentos e melhorar a qualidade de vida, assinala o Cancer Research UK.
No site de Joe Dispenza e em algumas das intervenções que vai fazendo em palestras, o quiroprata sublinha que a evidência científica é muito importante. Mas uma pesquisa pelo nome de Dispenza na PubMed, a maior base de dados de artigos científicos da área da saúde, entrega apenas cinco resultados — alguns de artigos sem revisão de pares e nenhum sobre o impacto da meditação na cura de cancro.
A “evidência” que Dispenza sugere que pode ser prova para aquilo que alega são os vídeos com testemunhos que publica. Um dos casos é o de uma mulher com cancro da mama e metástases no fígado que fez quimioterapia. Depois disso, comprou um programa de meditação do alegado neurocientista, com o título “You Are The Placebo” [Tu És O Placebo], começou a meditar e acabou por recuperar.
Uma história clínica contada em três parágrafos e muito simplificada não prova que a meditação pode curar cancro. Não existe qualquer artigo científico que descreva este ou outros casos clínicos semelhantes.
E a ideia de que o placebo pode também ser uma cura é falsa. O que alguns estudos mostram é que o placebo pode ter efeitos em sintomas como dor, fadiga ou náuseas, mas não provoca regressão tumoral clinicamente relevante nem cura o cancro.
Uma revisão publicada no Journal of the National Cancer Institute analisou dezenas de ensaios e concluiu que os únicos impactos de placebo são em sintomas secundários, na regressão de tumores existe um registo pontual mas que não é considerado relevante.
A meditação não cura o cancro. Pode ser utilizada como terapia complementar em alguns casos, é “geralmente muito segura e os efeitos secundários são raros”, de acordo com o Cancer Research UK.
Mas a organização alerta para a necessidade de falar com o médico que acompanha os tratamentos oncológicos para que o profissional de saúde esteja a par do cenário geral do doente.
“Pessoas com qualquer doença mental devem consultar o seu médico e um instrutor de meditação qualificado antes de começarem a meditar. Isso porque concentrar a atenção no momento presente pode agravar sintomas de depressão, ansiedade ou mente acelerada (mania) e delírios (psicose)”, alerta o Cancer Research UK.
A cura do cancro é feita com recurso a tratamentos comprovados, como a cirurgia, quimioterapia, radioterapia, entre outros, e adiar esses tratamentos para testar outros sem evidência científica robusta pode ser nocivo para a saúde.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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