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Medicina ayurvédica cura cancro?

2 Jan 2026 - 08:45
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Medicina ayurvédica cura cancro?

“Fui diagnosticada com um cancro metastático aos 28 anos e disseram-me que não havia nada sob o meu controlo que me pudesse curar”, diz uma mulher num vídeo publicado no TikTok. “O meu cirurgião disse que nunca tinha visto tanto cancro nos seus seis anos de atividade”, continua.

“Mas provei que todos estavam errados, curei-me”, garante. Em vários vídeos publicados na mesma página, a autora deste vídeo alega que se curou graças à medicina ayurvédica, um sistema de medicina alternativa baseado em pseudociência, criado na Índia. Mas será possível? Que benefícios existem? Há riscos?

É possível curar cancro com técnicas de medicina ayurvédica?

A Cancer Research UK garante, de forma categórica, que “não existe qualquer evidência científica que prove que a medicina ayurvédica possa tratar ou curar cancro”.

“As terapias complementares podem ajudar a lidar melhor com os sintomas do cancro ou dos tratamentos”, segundo a Cancer Research UK. A instituição sublinha que “um bom terapeuta não irá afirmar que aquela terapia cura o cancro, mas sim encorajar a discussão com um oncologista ou médico de família”, já que não há evidência científica robusta que sustente estas terapias.

A medicina ayurvédica baseia-se num conjunto de tratamentos e técnicas com mais de cinco mil anos que, alegadamente, curam as mais variadas doenças. O facto de ser um “conhecimento milenar” é utilizado como sustentação e suposta prova de validade nos vídeos acima citados. Mas o facto de ser utilizada há muitos anos não valida de forma alguma o dito conhecimento.

Massagens, meditações, yoga, técnicas de relaxamento, dietas e medicamentos naturais feitos de ervas são algumas das “receitas” que um especialista em medicina ayurvédica irá sugerir para curar doenças

Esta terapia alternativa vê todos os problemas de saúde como algo que acontece quando “mente, corpo e espírito estão desequilibrados”, lê-se num texto publicado no Cancer Research UK.

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Se for olhada como “alternativa” a tratamentos oncológicos cientificamente comprovados, a medicina ayurvédica pode ter efeitos nocivos. “Pode prejudicar a sua saúde se interromper o tratamento do cancro por um tratamento não comprovado”, avisa a organização.

Alguns destes métodos podem ser úteis para pacientes com cancro, quando utilizados como complemento a tratamentos comprovados — é o caso do yoga, massagens e técnicas de relaxamento, que podem ajudar a atenuar alguns efeitos secundários dos tratamentos, como a dor.

Mas outras práticas, como “tratamentos com ervas, dietas e limpezas intestinais, podem ser nocivas”. Alguns profissionais dão laxantes ou forçam o vómito do doente para fazer “limpezas intestinais”.

Alguns medicamentos feitos com ervas podem interagir com a quimioterapia, radioterapia ou outros fármacos receitados para tratar cancro. Além disso, “alguns podem conter substâncias nocivas”.

Há várias descrições de casos de envenenamento por medicamentos relacionados com estas práticas (ver aqui, aqui e aqui) porque tinham compostos como chumbo, mercúrio e arsénico.

Em setembro, em entrevista ao Viral, Rita Pinho, médica interna de Oncologia no Hospital de S. João, no Porto, dizia que é importante que os médicos peçam aos doentes que estão a fazer terapias complementares “para trazerem os produtos para a consulta” porque “há substâncias que podem potenciar efeitos adversos ou reduzir a eficácia do tratamento”.

“A medicina ayurvédica utiliza mais de 200 ervas e plantas. Os investigadores analisaram alguns compostos utilizados na medicina ayurvédica em laboratório. Testaram-nos em animais” ou in vitro e, em alguns casos, foi observado um retardamento do crescimento do cancro. 

Mas esses resultados não foram replicados em humanos, pelo que não há evidência de que a medicina ayurvédica possa prevenir, tratar ou curar cancro em seres humanos.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.

A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.

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