Está provado que medicamentos para o refluxo aumentam risco de demência?
Em vários vídeos partilhados no TikTok sugere-se que os medicamentos utilizados, por exemplo, para tratar o refluxo – como o omeprazol, o pantoprazol e o lansoprazol – aumentam o risco de demência. Segundo o autor de um dos posts, “o uso desse tipo de medicamento está associado ao aumento significativo de desenvolver demência”. Mas será mesmo assim? Há evidência científica que comprove que os medicamentos para o refluxo aumentam o risco de demência?
Medicamentos para o refluxo aumentam risco de demência?
Em declarações ao Viral, Rui Araújo, neurologista e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Neurologia (SPN), adianta que “não existe qualquer associação robusta conhecida” entre o uso de medicamentos para o refluxo e o risco de demência.
Os medicamentos mencionados nas publicações em análise são “inibidores da bomba de protões” (IBP).
Segundo um documento do Infarmed, a Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde, os IBP – como o “omeprazol”, o “lansoprazol” e o “pantoprazol” – “atuam essencialmente como supressores de acidez gástrica”.
Por norma, os IBP são utilizados para “aliviar os sintomas” da doença do refluxo gastroesofágico, para “tratar uma úlcera duodenal ou estomacal (gástrica)” ou para “tratar lesões na parte inferior do esófago causadas pelo refluxo ácido”, lê-se num texto do MedlinePlus (um site de informação sobre saúde que pertence aos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos).
Segundo Rui Araújo, o receio em relação aos medicamentos para o refluxo, como o omeprazol, já não é recente, mas os estudos mais recentes e de maior qualidade revelam que não há uma associação comprovada entre a toma destes fármacos e o aumento de risco de demência.
Tal como se explica num texto publicado no site da Yale Medicine (Clínica da Escola de Medicina de Yale), até à data, todos os estudos que associam os IBP ao aumento de risco de demência foram observacionais, ou seja, não provam uma causa-efeito.
Muitos dos trabalhos “não se concentraram” na toma destes medicamentos, mas, sim, “noutros problemas com pacientes que por acaso estavam a tomar IBP”.
Por isso, salienta-se, são estudos que sugerem que a aparente associação entre o desenvolvimento de demência e a toma de IBP “foi provavelmente uma coincidência e não uma relação causal”.
Por outro lado, as investigações de qualidade que estudaram especificamente os possíveis efeitos da toma deste tipo de medicamentos para o refluxo não demonstraram uma ligação entre os IBP e o aumento de risco de demência.
Por exemplo, um estudo de coorte prospetivo de 2023 que acompanhou mais de 18 mil adultos com mais de 65 anos concluiu que, no grupo estudado, a toma de IBP não foi associada a demência ou “declínio da cognição ao longo do tempo” (ver aqui e aqui).
Segundo os investigadores, “estes dados fornecem garantias sobre a segurança da utilização a longo prazo de IBP em adultos mais velhos”.
Os estudos de coorte têm particular interesse neste âmbito, porque são trabalhos que incluem grupos de pessoas seguidas ao longo do tempo com o intuito de se determinar as características de uma doença específica e os fatores de risco, por exemplo. (ver aqui).
Quando estes estudos de coorte são prospetivos, os investigadores definem a amostra e medem as variáveis antes dos resultados.
No mesmo sentido, os resultados de um estudo randomizado mendeliano (um método que tem como objetivo investigar efeitos causais de potenciais fatores de risco) de 2024, sobre o mesmo tema, “não mostraram uma relação causal significativa entre a utilização de cinco IBP comuns (omeprazol, lansoprazol, esomeprazol, rabeprazol e pantoprazol) e seis tipos de demência”.
Em suma, até à data, não está provado que a toma de IBP (medicamentos para o refluxo) aumenta o risco de desenvolver demência. Os estudos robustos recentes não encontraram uma relação entre a toma de IBP e o aumento de risco de demência.
Segundo Rui Araújo, “é recorrente” a partilha de informações sobre associações incorretas entre a toma de determinados medicamentos e o risco de demência.
Aliás, o médico já tinha esclarecido, a propósito de outro artigo do Viral, que também não existe evidência científica de que as estatinas – medicamentos para baixar o colesterol – causam demência.
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