Mascar pastilhas elásticas “acaba com a saúde”? E “aumenta o risco de ganho de peso”?
No TikTok, alega-se que mascar pastilha elástica “acaba com a saúde” e “aumenta o risco de ganho de peso”. Ao longo do vídeo, o autor sugere que cada vez que quando se mastiga uma pastilha elástica ingere-se “mais de 100 mil partículas de microplásticos”. Além disso, refere, estes produtos têm adoçantes (como o aspartame e a sucralose) que “destroem as bactérias boas do intestino”, “desregulam as hormonas” e “aumentam o risco de ganho de peso”. Mas será mesmo assim?
É verdade que as pastilhas elásticas fazem mal à saúde e aumentam o risco de ganho de peso?
As pastilhas elásticas, quando consumidas em excesso e em conjunto com outros fatores, podem ter algum impacto no organismo, mas não se pode afirmar que “acabam com a saúde” e “aumentam o risco de ganho de peso”. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Paula Freitas, professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) e presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM).
De facto, tal como é dito no vídeo em análise, segundo a evidência científica recente, “tanto as pastilhas derivadas de produtos naturais como as derivadas do petróleo libertam microplásticos”, avança Paula Freitas.
Num estudo-piloto, os investigadores da Sociedade Americana de Química (ACS, na sigla inglesa) reportaram que uma pastilha elástica “pode libertar centenas a milhares de microplásticos na saliva e estes serem potencialmente ingeridos”.
Até à data, não se sabe em concreto o que isso significa para a saúde, sabe-se apenas que “os microplásticos ingeridos, inalados” ou absorvidos pela pele “têm repercussões na saúde”, salienta Paula Freitas.
A endocrinologista explica que os microplásticos “estão associados a stress oxidativo, a inflamação e a interações com componentes celulares”, daí o seu potencial impacto negativo “do ponto de vista cardiovascular” e a possível sua associação “ao excesso de peso e à obesidade” (ver também aqui, aqui e aqui).
A grande questão, salienta a médica, é que “os microplásticos estão em tudo”, “no ar, na água, na terra, nas plantas, nos animais que comemos”, exemplifica.
Portanto, sublinha, “os microplásticos não existem só nas pastilhas elásticas”. Além dos microplásticos, existem “muitos outros poluentes do ar, pesticidas e metais pesados que também são disruptores endócrinos”.
No fundo, a pastilha elástica é apenas um pequeno meio de exposição a microplásticos no meio de tantos outros.
No que diz respeito aos adoçantes artificiais mencionados no vídeo é importante salientar que, tal como já tinha explicado o nutricionista Pedro Carvalho, em esclarecimentos anteriores ao Viral, o aspartame e a sucralose “são seguros” e “não há risco nenhum no seu consumo”, dentro das doses máximas recomendadas.
Aliás, tanto o aspartame como a sucralose fazem parte da lista de adoçantes aprovados pela Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA, na sigla inglesa).
Até à data, não foram levantadas preocupações de segurança no que toca à ingestão de sucralose, dentro dos limites recomendados (ver aqui).
Em relação ao aspartame, em 2023, tal como foi esclarecido anteriormente pelo Viral, a Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC, na sigla inglesa) da Organização Mundial de Saúde (OMS) anunciou que este adoçante passa a ser classificado como “possivelmente cancerígeno para os seres humanos”.
Isto significa, explica-se num texto do Cancer Research UK, que o aspartame “é possivelmente carcinogénico, mas não existem provas suficientes em humanos para ter a certeza”, sendo necessários mais estudos.
No que diz respeito ao impacto que estes adoçantes têm na microbiota intestinal e no peso, Paula Freitas começa por explicar que existem inúmeros fatores que influenciam a microbiota.
Alguns exemplos são “a dieta”, “os antibióticos a que somos expostos ao longo da vida” e “a contaminação ambiental”, refere.
Dentro da exposição ambiental, sabe-se que “alguns adoçantes interagem com as bactérias intestinais e fazem com que determinadas bactérias cresçam em detrimento de outras”, explica a professora da FMUP.
No fundo, podem contribuir para “uma disbiose”, ou seja, um desequilíbrio na microbiota intestinal, que “está relacionado com algumas doenças”, como, por exemplo, “a diabetes, a resistência à insulina, a obesidade, a doença de Crohn e a doença celíaca”.
Mas, mais uma vez, “o consumo de adoçantes é apenas mais uma coisa dentro de uma série de alterações que estão associadas à disbiose intestinal” que, por sua vez, pode estar associada, de alguma forma, ao excesso de peso e à obesidade.
Por outro lado, aponta-se num texto do Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), os adoçantes podem ser uma alternativa útil para as pessoas que querem reduzir a sua ingestão de açúcar e estão a tentar perder peso (ver também aqui).
Em última análise, Paula Freitas salienta a importância de se perceber que o ganho de peso, a obesidade e a própria microbiota intestinal são questões complexas que nunca seriam diretamente influenciadas por um fator específico como as pastilhas elásticas.
A obesidade, por exemplo, “é uma doença muito complexa” e “hoje sabe-se que 60% do nosso peso é determinado pelos nossos genes”. Além dos fatores genéticos (que têm o maior impacto), “fatores ligados à exposição ambiental”, a dieta e “o sedentarismo” também têm impacto na obesidade.
Por isso, defende, “não podemos ser redutores ao ponto de dizer ‘isto causa isto’, porque, se fosse assim tão fácil, haveria uma solução rápida para muitas doenças”.
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