Comer meia maçã por dia leva ao aumento de gordura visceral?
No Instagram sugere-se que comer “metade de uma maçã por dia” leva ao “aumento de gordura visceral”. Segundo a autora do vídeo partilhado, isto acontece, porque, supostamente, “não precisamos de tanta glicose”, ou seja, “o nosso corpo não foi concebido para utilizar uma quantidade tão grande de glicose”, como a fornecida pela fruta. Mas será mesmo assim?
É verdade que comer metade de uma maçã por dia leva ao aumento de gordura visceral?
Não, “esta ideia não tem fundamento”. Quem o diz, em esclarecimentos ao Viral, é Gabriela Ribeiro, nutricionista especializada em nutrição clínica e professora NOVA Medical School (NMS).
A nutricionista começa por explicar que “a gordura visceral é um tipo de gordura que, ao contrário da subcutânea (que se encontra debaixo da pele), acumula-se na cavidade abdominal, envolvendo órgãos como o fígado, pâncreas e o intestino”.
A gordura visceral “é considerada perigosa para a saúde porque é metabolicamente ativa”, ou seja, “produz fatores pró-inflamatórios, interfere com o metabolismo da glicose e pode mesmo acumular-se no fígado, prejudicando a sua função”, esclarece.
Por esses motivos, refere-se num texto da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), o excesso de gordura visceral está associado “a um aumento do risco de doenças metabólicas” (como a diabetes) e “de doenças cardiovasculares” (como acidentes vasculares cerebrais ou enfartes do miocárdio), “com consequente aumento do risco de mortalidade”.
No entanto, o aumento deste tipo de gordura não se deve apenas a um fator, à ingestão de um alimento específico e, muito menos, à ingestão de meia maçã por dia.
Para se perceber o impacto da alimentação na formação de gordura visceral, é preciso entender o que é a glicose, mencionada no vídeo em análise como a potenciadora deste tipo de gordura.
“A glicose é um monossacarídeo (um açúcar simples) que constitui a principal fonte de energia das células, sendo fundamental para vários processos fisiológicos, incluindo a função cerebral”, começa por explicar Gabriela Ribeiro (ver também aqui).
O organismo obtém a glicose, sobretudo, “através da ingestão de alimentos com hidratos de carbono, que depois são degradados durante o processo de digestão até se obter glicose”, prossegue.
De seguida, a glicose é “absorvida na corrente sanguínea e distribuída pelos tecidos para a produção de energia”.
Quando a glicose não está disponível, ou seja, quando se fica sem comer hidratos de carbono durante algum tempo, “a solução que o nosso organismo tem a curto-prazo é sintetizar glicose através das reservas de glicogénio armazenadas no fígado e no músculo”.
Em períodos prolongados de jejum ou de baixa ingestão de hidratos de carbono, “o fígado pode produzir glicose a partir de outras fontes, tais como proteínas e lípidos”, esclarece.
Posto isto, de facto, “o consumo excessivo de açúcar [incluindo de frutose, o açúcar encontrado naturalmente na fruta] pode contribuir para aumento da gordura visceral”, aponta.
Mas comer metade de uma maçã por dia não é considerado “consumo excessivo” de açúcar. Claro que “a maçã sendo constituída, em parte, por hidratos de carbono, aumenta os níveis de glicose no sangue”, informa a professora da NMS.
No entanto, “meia maçã contém, em média, entre 6 a 16 g de hidratos de carbono, consoante o tamanho da peça de fruta”.
Na prática, “este valor corresponde a menos de 10% da quantidade de hidratos de carbono recomendada para a população adulta saudável”, salienta Gabriela Ribeiro.
Além disso, sublinha a nutricionista, no contexto da alimentação, “o consumo calórico global excessivo” (não só de açúcar) contribui para o aumento da gordura visceral.
Para mais, a alimentação não é o único fator com um papel importante neste contexto. A quantidade de gordura visceral que uma pessoa tem vai depender não só do que come, mas também da sua “suscetibilidade genética”, de “fatores hormonais” e da “atividade física” que pratica.
Em suma, comer metade de uma maçã por dia, por si só, não leva ao aumento de gordura visceral. A gordura visceral é influenciada por outros fatores além do consumo de açúcar e da própria alimentação, como fatores genéticos e a prática de exercício físico.
Que hábitos podem ajudar a diminuir a gordura visceral?
Segundo Gabriela Ribeiro, “manter um peso adequado para a altura, praticar atividade física regular e ter uma “alimentação completa, variada e equilibrada” são medidas que contribuem para a redução da gordura visceral.
Ao contrário do que se dá a entender no vídeo partilhado, o consumo de frutas, tal como a maçã, é aconselhado e faz parte de um estilo de vida saudável.
“Recomenda-se que a ingestão de fruta seja entre 3 a 5 peças de fruta por dia, sendo que, idealment,e as frutas devem ser variadas e consumidas de acordo com a sua sazonalidade”, explica a nutricionista (ver aqui).
No entanto, no que toca ao exercício físico, é importante destacar que “é impossível reduzir a gordura numa área específica exercitando apenas essa parte do corpo”, esclarece-se num texto da Fundação Britânica do Coração.
O mesmo se aplica à gordura visceral. Portanto, praticar exercício físico, de uma forma geral, enquanto se tem uma alimentação equilibrada, “é a melhor forma de perder gordura abdominal [visceral] e gordura corporal em geral”.
Esta prática “vai ajudar a criar um défice calórico (gasta-se mais calorias do que as que consome), o que promove a perda de gordura ao longo do tempo”, lê-se no mesmo texto.