Luís Represas morreu de cancro do pulmão, não devido à vacina contra a Covid-19
O músico Luís Represas morreu esta quarta-feira, aos 69 anos, vítima de cancro do pulmão em estadio avançado. O vocalista dos Trovante preparava-se para integrar um ensaio clínico com um tratamento inovador, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, avançou a Blitz.
Apesar de a causa da morte já ser conhecida, começaram a circular publicações nas redes sociais, sobretudo no Facebook, que associam, sem fundamento, a morte de Luís Represas à vacina contra a Covid-19.
“‘Em novembro de 2021, o músico português Luís Represas participou numa campanha oficial da Direção-Geral da Saúde (DGS) para incentivar a população a tomar a dose de reforço da vacina contra a COVID-19 e a vacina contra a gripe’. Durou 5 anos depois disto”, lê-se numa das publicações.
A vacinação contra a Covid-19 influenciou o estado de saúde de Luís Represas?
A alegação de que a vacinação contra a Covid-19 foi a causa da morte de Luís Represas não tem qualquer fundamento. O músico lutava contra um cancro do pulmão em estadio avançado e com metástases.
Não existe uma única causa para este ou qualquer tipo de cancro, mas há vários fatores de risco associados ao cancro do pulmão. Segundo um texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS), os principais são o tabaco, a história familiar e predisposição genética, a exposição a ambientes nocivos (como a poluição, amianto e substâncias radioativas) e as doenças respiratórias (como a tuberculose, a silicose e a fibrose pulmonar).
O surgimento – e consequente avanço – da doença oncológica de Luís Represas não está relacionado com a vacinação, até porque, sublinha-se num texto informativo publicado no site do National Cancer Institute (NCI), “não há evidências de que as vacinas contra a Covid-19 causem cancro, provoquem recidivas ou conduzam à progressão da doença”.
Também não há provas de que “quaisquer vacinas, incluindo as vacinas contra a Covid-19, tornem o tratamento do cancro menos eficaz”, acrescenta-se.
No mesmo sentido, Miguel Prudêncio, investigador na área das vacinas do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM), já tinha esclarecido ao Viral, em declarações anteriores, que as publicações das redes sociais em que se defende que as vacinas deixam as pessoas magnéticas, com tremores ou levam ao desenvolvimento de supostos “cancros turbo” (que se desenvolvem muito rapidamente) “não têm nenhuma base científica”.
Muitas destas ideias erradas e teorias da conspiração assentam na confusão entre correlação e causalidade. Ou seja, o facto de um evento suceder ao outro (correlação) não significa que o primeiro tenha provocado o segundo (causalidade).
“Por exemplo, se uma pessoa morrer, seja por que razão for, nos dias a seguir a ter tomado a vacina, tem de se perceber se há uma coincidência temporal ou se há uma relação causal”, referia Miguel Prudêncio.
É comum os movimentos antivacinação aproveitarem “os casos em que uma pessoa desenvolve algum problema ou morre nas semanas seguintes à vacinação para dizer: ‘Ah, isto aconteceu porque tomou a vacina há duas semanas, três semanas ou um mês’”, alertava o investigador.
A verdade é que, durante a pandemia, a vacinação contra a Covid-19 era recomendada para a maioria da população, sendo especialmente aconselhada a grupos de risco, como doentes com o sistema imunitário enfraquecido, incluindo pessoas com cancro. Isto porque estes doentes, se estiverem em contacto com o vírus, correm um maior risco de ter uma infeção grave (ver aqui e aqui).
As vacinas contra a Covid-19 são seguras
Segundo Miguel Prudêncio, a segurança das vacinas contra a Covid-19 está cabalmente demonstrada. As organizações e autoridades de saúde nacionais e internacionais também asseguram que os benefícios da vacinação compensam largamente os riscos, nos casos em que estas são administradas de acordo com as indicações aprovadas, incluindo a idade recomendada, o estado de saúde do indivíduo e os intervalos de doses definidos.
O investigador explicava ainda que, antes de uma vacina ser licenciada e comercializada, tem de passar por “um processo que está muito bem definido, muito bem delineado, com diferentes etapas (fases) e que obedece a regras rigorosas”, para avaliar a eficácia e segurança da substância/tecnologia.
Mesmo quando os fármacos já foram testados, aprovados e colocados no mercado, “continua-se a monitorizar quaisquer efeitos inesperados”, porque podem surgir questões “que não se ‘apanharam’ nos ensaios clínicos”, explicava Miguel Prudêncio, noutro artigo do Viral.
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