VITAL
Limpar a casa aumenta tanto o risco de cancro como fumar 20 cigarros por dia?
“Sempre me perguntei como era possível que tantas pessoas não fumadoras fossem diagnosticadas com cancro… Agora percebo porquê”, alega-se num vídeo com mais de três milhões de visualizações no Instagram.
Depois surge a explicação: há um estudo que, supostamente, diz que limpar a casa uma vez por semana é equivalente a fumar 20 cigarros por dia e, por isso, aumenta, na mesma medida, o risco de desenvolver cancro do pulmão. Mas será mesmo assim? Os produtos de limpeza são cancerígenos? E aumentam tanto o risco de cancro do pulmão como fumar?
Limpar a casa uma vez por semana e fumar 20 cigarros por dia aumentam, na mesma medida, o risco de cancro?
Existe, de facto, um estudo de 2018 que conclui que limpar a casa uma vez por semana e fumar 20 cigarros por dia tem efeitos negativos semelhantes para os pulmões. Mas nessa investigação não foi feita nenhuma avaliação de risco de cancro, ou seja, não é possível afirmar que haja algum impacto sobre esse fator.
Inês Sucena, pneumologista e membro da Comissão de Trabalho de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, diz que o estudo, “apesar de ter em conta uma amostra alargada”, não permite “ter respostas concretas” devido à metodologia utilizada.
Os dados utilizados são de um questionário feito a nível europeu, que foi respondido por mais de seis mil pessoas, que voltam a responder e fazer exames à função pulmonar 20 anos depois.
Esse método está sujeito a alguns vieses, diz a médica, porque é possível que os relatos não sejam fieis à realidade e não foram tidos em conta alguns fatores que poderiam ser relevantes, como condições habitacionais, exposições a outros químicos, entre outros.
Vale a pena apontar que estes resultados só existiram para a população feminina. No caso dos homens, não se encontrou associação significativa — os autores afirmam que isso pode ter acontecido por haver menos homens a limpar profissionalmente.
A pneumologista diz que quando certos produtos de limpeza “são aerossóis, provocam hiper-reatividade brônquica e podem causar, ou pelo menos exacerbar, a asma, por exemplo”.
“Neste estudo mostrou-se que realmente há uma diminuição da função respiratória, o que pode ser um fator de risco para bronquite crónica, Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica ou asma”.
Mas isso não chega para ser possível afirmar, de forma sustentada e robusta, que limpar a casa uma vez por semana e fumar 20 cigarros por dia ao longo de 20 anos é mesmo equivalente. Até porque, na amostra do estudo, existem pessoas que trabalham diariamente com produtos de limpeza. Muito menos se pode dizer que o risco de cancro é afetado pelos produtos de limpeza já que não foi avaliado.
“Não está estabelecido, de todo, que os produtos de limpeza que usamos, que têm certificações, estejam associados a cancro do pulmão”, diz a médica. Esses produtos não são cancerígenos, ao contrário do tabaco, assim classificado pela Agência Internacional para a Investigação do Cancro.
O que os produtos de limpeza podem causar é alguma “hiper-reatividade brônquica”. Inês Sucena sugere algumas alternativas para amenizar esses efeitos: “às vezes não é preciso usar produtos químicos, podemos limpar só com água e um pano húmido ou com sabão”.
“Não usar tantos sprays” é outra das hipóteses porque “quanto mais pequenas as partículas, maior a probabilidade de a inalação poder ser irritativa e provocar danos nas nossas células pulmonares”.
A pneumologista refere que é preciso “ter cuidado com a junção de diferentes compostos, porque às vezes podem gerar reações químicas” potencialmente “mais tóxicas” do que os produtos em si. “[Utilizar] máscara poderá ser uma alternativa” e, ao utilizar estes compostos, convém ter “a casa arejada”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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