Limão e bicarbonato para o mau hálito: Receita pode danificar o esmalte e não elimina a causa do problema
Num vídeo partilhado no TikTok alega-se que bochechar com uma mistura de água, bicarbonato, limão e sal integral “acaba” com o mau hálito. Nas palavras do autor do post, esta receita é “100% natural e segura” e elimina o mau hálito no momento. Será mesmo assim?
Bochechar com uma mistura de água, bicarbonato, limão e sal acaba com o mau hálito?
Em declarações ao Viral, a higienista oral Rita Cruz de Sousa começa por adiantar que “a combinação destes diferentes ingredientes não tem evidência científica” no tratamento do mau hálito (ou halitose).
Não há nada que prove que “estes componentes possam reduzir de uma forma eficaz as bactérias que vão levar à formação destes compostos que dão origem ao mau hálito”.
Segundo a especialista, “o máximo que pode acontecer” é esta solução “dar uma sensação temporária de frescura e uma perceção de melhoria do hálito”.
Contudo, bochechar com água, bicarbonato, limão e sal “não vai eliminar a causa do mau hálito”. Até porque “há várias possíveis causas” para a halitose e, por isso, existem “soluções diferentes”, consoante a causa.
De forma isolada, “a água só ajuda na questão da hidratação” e em relação ao sal, “não há evidência sugestiva que controle a halitose” nem que tenha “impacto nos compostos que causam o mau hálito”, refere Rita Cruz de Sousa.
O bicarbonato até “pode ter uma ligeira ação antimicrobiana, mas, por si só, não é capaz de eliminar os compostos” responsáveis pelo mau hálito.
Na perspetiva da higienista oral, “o grande perigo está no uso do limão”. O sumo de limão, além de “neutralizar o efeito do bicarbonato, vai ser erosivo para o esmalte dentário”.
Isto deve-se ao facto de o limão ter um pH muito ácido. Utilizar o sumo de limão como solução para bochecho frequente “pode ‘dissolver’ o esmalte”, uma “ação irreversível”, alerta.
Se a pessoa escovar os dentes depois de bochechar com o limão “pior, porque ainda vai desgastar mais o esmalte”.
A recomendação geral é que se consuma bebidas ácidas com moderação e, se possível, com uma palhinha (ver também aqui).
Quais as possíveis causas do mau hálito?
Tal como se explica num documento da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), o mau hálito pode ser causado por alterações na cavidade oral ou por doenças que afetem outros órgãos (ver também aqui).
“Na maioria dos casos, a origem da halitose é intraoral”, sublinha Rita Cruz de Sousa. Pode dever-se, por exemplo, “a uma higiene oral insuficiente”, à presença de “doença periodontal (gengivite ou periodontite)” ou à “presença de lesões por cárie com cavitação”.
Pessoas com xerostomia (sensação de boca seca) não têm “saliva suficiente na boca”, o que também “dá origem a mau hálito”, refere a higienista oral.
“Restaurações dentárias” ou “próteses dentárias mal adaptadas” também podem “levar à acumulação de bactérias e isso faz com que exista mau hálito”.
Ainda no âmbito da saúde oral,“ter “saburra lingual”, “uma camada de bactérias na língua”, pode ser uma das causas de mau hálito.
Por outro lado, existem situações raras, não relacionadas com a cavidade oral, que podem estar a causar mau hálito, como “diabetes descompensada, insuficiência renal, insuficiência hepática, refluxo gastroesofágico, cáseo amigdaliano e sinusite”, refere Rita Cruz de Sousa.
“Alguns medicamentos também podem favorecer a boca seca e levar ao mau hálito”. Segundo um texto American Dental Association (ADA), fumar, além de manchar os dentes, também “causa mau hálito” e aumenta o risco de outros problemas de saúde oral (como doenças nas gengivas).
O tratamento do mau hálito vai depender da causa. Para perceber o que está a causar a halitose, é importante “procurar ajuda de um médico dentista ou de um higienista”, defende Rita Cruz de Sousa.
Enquanto se aguarda por consulta, deve-se manter bons hábitos de higiene oral, tais como: “escovar os dentes pelo menos duas vezes por dia”; fazer “a higienização entre os entes com escovilhão, fio dentário ou irrigador pelo menos antes de deitar”; “usar um raspador lingual, sobretudo de manhã ao acordar”; e manter a hidratação adequada.
Segundo a higienista oral, “não se deve utilizar colutórios de forma espontânea”. Estes produtos, apesar de serem de venda livre, não são isentos de risco. Devem ser utilizados sempre sob orientação de um dentista ou de um higienista oral.