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Leggings com PFAS “estão a destruir as hormonas das mulheres”? O que diz a ciência

20 Abr 2025 - 08:00

Leggings com PFAS “estão a destruir as hormonas das mulheres”? O que diz a ciência

Um partilhado online vídeo mostra uma mulher a despir umas leggings (calças justas e elásticas) e a deitá-las fora, alegando que estas peças de roupa estão “a destruir as hormonas das mulheres”.

Na descrição da publicação, pode ler-se que algumas leggings contêm PFAS, substâncias químicas que, supostamente, “estão associadas a disrupções hormonais, problemas na tiroide e problemas de fertilidade”. 

As PFAS – substâncias per e polifluoroalquil – são “uma grande família de milhares de substâncias químicas sintéticas amplamente utilizadas em toda a sociedade e encontradas no ambiente”, explica a Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA, na sigla inglesa). Esta “família” aglomera mais de 4700 tipos de químicos sintéticos.

Conhecidos como “químicos eternos”, as PFAS “podem ficar na água e no solo durante séculos” devido às ligações carbono-flúor (das mais resistentes na química). Podem também entrar no organismo humano através da ingestão de água e alimentos contaminados, e têm vindo a ser associadas a riscos para a saúde.

É verdade que estas substâncias químicas podem ser encontrados em peças de vestuário, mas não apenas em leggings. Os PFAS são utilizados para produzir tecidos com propriedades impermeáveis e anti nódoas. Estão também presentes nos revestimentos antiaderentes das frigideiras e panelas, na espuma anti-fogo.

Mas será que usar leggings pode “destruir as hormonas das mulheres”? A endocrinologista Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), explica o que a ciência sabe sobre os PFAS e o que falta descobrir sobre estes “químicos eternos”.

A pele absorve os PFAS existentes nas roupas e tecidos?

De facto, os PFAS são químicos sintéticos que atuam como “disruptores endócrinos” (substâncias que interferem com as hormonas) e podem ser encontrados em diversas peças de roupa, afirma Paula Freitas. No entanto, a endocrinologista salienta que a absorção destes químicos pela pele ainda “é pouco compreendida devido à falta de estudos”.

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Ou seja, tendo em conta o que se sabe até hoje, não é possível afirmar categoricamente que as leggings que contêm estas substâncias “estão a destruir as hormonas das mulheres” ou a prejudicar a sua saúde hormonal.

“Estudos preliminares sugerem que a absorção dérmica pode contribuir para a carga corporal total destes compostos, mas os dados são ainda limitados”, esclarece a especialista, sublinhando a necessidade de realizar “estudos mais detalhados” para “compreender melhor os riscos”.

Num artigo, publicado em 2024, analisa-se a absorção dérmica de 17 tipos de PFAS, usando um modelo 3D in vitro equivalente à pele humana. Os investigadores avançam que alguns tipos de PFAS (principalmente os que têm ligações de carbono mais curtas) poderão constituir “uma fonte significativa de exposição” quando em contacto com a pele.

O relatório sobre as substâncias PFAS (junho de 2022) identifica a absorção dérmica como “rota de exposição minoritária” e os têxteis são identificados no ciclo de exposição como “resíduos” – depois de descartados para o ambiente, podem contaminar solos e água.

Por outro lado, a via oral – através da ingestão de comida e água contaminadas – é a “rota principal de exposição” a estes químicos. Também a inalação e a transmissão pela placenta ou leite materno são consideradas “rotas de exposição minoritária”, podendo ser “rotas principais em grupos específicos”.

No mesmo sentido, a Agência norte-americana para a Proteção Ambiental (EPA, na sigla inglesa) destaca a existência de estudos em que se mostra “que apenas uma pequena quantidade de PFAS pode entrar no organismo através da pele” e, por isso, é “improvável” que a utilização de água contaminada para tomar banho ou lavar loiça aumente significativamente o risco.

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Na página dos Centros norte-americanos para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla inglesa) afirma-se que a exposição aos PFAS “acontece quando a pessoa respira, come, bebe ou toca no químico”

O risco é maior quando a pessoa vive perto de zonas contaminadas (ar, solo ou água), ingere alimentos produzidos em áreas com PFAS, come peixe/caça contaminada ou consome produtos alimentares embalados em materiais com estes químicos. 

A ingestão acidental de solo ou poeiras contaminadas, bem como a inalação de substâncias químicas (durante a produção industrial ou no uso de espuma anti-fogo) ou a utilização de têxteis resistentes às nódoas e/ou impermeáveis, pode também ser uma forma de exposição, segundo o CDC.

A exposição a PFAS afeta as hormonas? Quais os riscos?

Ainda há muito por descobrir sobre os efeitos dos PFAS, mas já existe evidência científica robusta que mostra uma associação entre a exposição aos “químicos eternos” com problemas para a saúde humana.

“Cada vez mais há evidência de que as PFAS podem ter um papel no aumento do risco de obesidade e no aparecimento de determinados tipos de cancro”, esclarece Paula Freitas. 

Estas substâncias são consideradas “disruptores endócrinos”, o que significa que podem interferir “na síntese e na sinalização das hormonas”, levando à “ativação das vias de proliferação de gordura ou células tumorais” no indivíduo.

A exposição a PFAS durante a gravidez poderá originar “modificações genéticas” no feto, o que aumenta o risco de “desenvolver cancro ou obesidade em idade adulta”, acrescenta a endocrinologista.

Segundo a Agência Europeia do Ambiente (EEA, na sigla inglesa), os PFAS estão associados a problemas de tiroide, aumento do colesterol, danos no fígado, cancro nos rins e nos testículos

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Durante a gravidez, estes químicos podem atrasar o desenvolvimento da glândula mamária, reduzir a resposta imunitária do feto perante as vacinas e diminuir o peso à nascença.

Há ainda “suspeitas” de que estas substâncias possam estar relacionadas com o aparecimento de cancro da mama, doença inflamatória do intestino, diminuição da contagem e mobilidade dos espermatozoides, assim como com diversos problemas associados à gravidez.

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Devido aos riscos associados aos PFAS, a Europa listou dois tipos de substâncias desta “família” – PFOS e PFOA – como poluentes orgânicos persistentes e, ao abrigo da Convenção de Estocolmo, “a produção e uso” destes químicos deverá ser eliminada.

Alguns países europeus decretaram um limite máximo para os PFAS na água e nos solos (Dinamarca, Alemanha, Países Baixos e Suécia), nos têxteis (Noruega) e nos materiais que estão em contacto com a comida (Dinamarca), avança a EEA. Também os Estados Unidos estão a retirar progressivamente o químico PFOA do processo de produção de utensílios.

20 Abr 2025 - 08:00

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