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Laticínios são a principal causa alimentar dos cancros do ovário, da mama e da próstata?

6 Jul 2024 - 08:30
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Laticínios são a principal causa alimentar dos cancros do ovário, da mama e da próstata?

Apesar de haver um consenso em relação aos benefícios do consumo de laticínios para a saúde, ainda há quem veja o leite e os seus derivados como “vilões”. Num vídeo partilhado no Instagram alega-se que os laticínios são a “primeira causa alimentar” dos cancros do ovário, da mama e da próstata. Esta alegação tem fundamento? O que diz a evidência científica?

É verdade que os laticínios são a principal causa dos cancros do ovário, da mama e da próstata?

Fátima Vaz, diretora do Serviço de Oncologia Médica do IPO Lisboa, começa por adiantar, em esclarecimentos ao Viral, que “não há uma causa principal” para o cancro.

Segundo a oncologista, “existem múltiplos fatores que podem contribuir para a ocorrência do cancro da próstata, da mama ou do ovário, nomeadamente genéticos, familiares e ambientais” (em que se inclui a alimentação).

Além disso, nestes três cancros em concreto, “se houver uma causa genética, este fator muito provavelmente suplanta todos os outros”, acrescenta.

Em relação à influência do consumo de laticínios no cancro do ovário, da mama e da próstata, a evidência científica não é clara. Contudo, frisa, não existe nenhum estudo que indique causalidade, ou seja, não há nada que prove que ingerir laticínios, por si só, causa algum destes três cancros.

No que diz respeito ao cancro da próstata, em específico, “há vários estudos que sugerem que pode haver uma associação” com o consumo de laticínios. Mas, lembra, “associação não significa causa”, mas sim que este fator “poderá contribuir conjuntamente com outros”.

Ainda assim, mesmo os trabalhos que sugerem esta associação “são muito heterogéneos” e “nenhum estudo é verdadeiramente bom”, defende Fátima Vaz.

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Por exemplo, uma revisão sistemática e meta-análise recente, publicada no British Journal of Nutrition, concluiu “que o consumo elevado de produtos lácteos pode estar associado a um risco acrescido de cancro da próstata”.

Uma das razões desta possível associação é o facto de os laticínios aumentarem os níveis circulantes de uma hormona conhecida por promover o crescimento do cancro da próstata.

No entanto, destacam os autores do estudo, “uma vez que muitos dos estudos foram afetados pelo viés do rastreio do antigénio específico da próstata (PSA), são necessários estudos adicionais com um ajustamento”. 

Os resultados de outra revisão sistemática e meta-análise foram semelhantes (ver aqui). Os investigadores concluíram que, “embora existam alguns dados que indicam que um maior consumo de produtos lácteos pode aumentar o risco de cancro da próstata, as provas não são consistentes”.

No que toca ao cancro da mama e do ovário (ver aqui e aqui), “há mais estudos a dizer que não há associação do que estudos a dizer que há”, salienta Fátima Vaz.

No site do Cancer Research UK e num texto informativo do MD Anderson, o Instituto do Cancro em Houston, nos Estados Unidos, refere-se, inclusive, a existência de evidência que sugere que o consumo de laticínios pode diminuir o risco de cancro da mama.

Apesar de ainda não haver certezas quanto à influência dos produtos lácteos na diminuição do risco do desenvolvimento de cancro da mama, segundo Fátima Vaz, já existem muitos estudos que indicam que estes alimentos reduzem o risco do cancro colorretal (ver também aqui, aqui e aqui).

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Em suma, não há evidência científica robusta que prove que os laticínios são a principal causa alimentar dos cancros do ovário, da mama e da próstata.

Deixar de consumir laticínios pode contribuir para défices nutricionais

Do ponto de vista de Fátima Vaz “é preciso haver um equilíbrio”, ou seja, nem ingerir laticínios de forma exagerada, nem restringir o seu consumo.

Isto porque “uma pessoa que faça uma redução do consumo de produtos de leite e derivados corre o risco de ficar com défices nutricionais importantes”, defende.

Mesmo no caso do cancro da próstata, “em que a associação com os laticínios é menos discutível, recomenda-se ter muito cuidado com o défice nutricional, inclusive de vitamina D e de cálcio”, reforça a oncologista.

Fátima Vaz tem a perceção de que, muitas vezes, algumas pessoas acreditam que tudo se resolve com suplementos. Contudo, frisa, “sabe-se que os nutrientes, como o cálcio e as vitaminas, são absorvidos de forma mais eficiente através dos alimentos”.

Por isso, para a população em geral, a recomendação não é, de todo, deixar de consumir laticínios.

Até porque “uma restrição pode também acabar por desproteger em relação ao risco do cancro colorretal, um cancro muito mortal que está a aumentar muito na população em geral”, realça a especialista.

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Se, por exemplo, “um homem tiver um risco alto de cancro de próstata, por vários motivos, pode-se aconselhar a reduzir a ingestão de leite e derivados”, mas isso tem de ser feito com muito cuidado, para se conseguir “repor os nutrientes em falta”.

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6 Jul 2024 - 08:30

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