Não deve guardar latas de alimentos abertas no frigorífico?
Em vários vídeos partilhados no TikTok sugere-se que não se deve guardar latas de comida abertas no frigorífico. Segundo os autores estas publicações, esta prática cria um ambiente perfeito para contaminação cruzada e para a libertação de metais pesados para os alimentos. Mas será mesmo assim?
É verdade que não se deve guardar latas de comida abertas no frigorífico?
Sim. Não é aconselhado guardar latas de alimentos abertas no frigorífico. Quem o diz, em declarações ao Viral, é Isabel Ratão, professora na área da segurança alimentar e subdiretora do Instituto Superior de Engenharia (ISE) da Universidade do Algarve.
Esta ideia também é reforçada em textos de várias instituições alimentares nacionais e internacionais, como a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) e a Agência de Normas Alimentares do Reino Unido (FSA, na sigla inglesa).
Isabel Ratão explica que “a lata é desenhada para contacto alimentar” apenas “quando fechada”. Por isso, “a partir do momento em que está aberta, o alimento começa a sofrer alterações, o que pode interferir na corrosão da lata, podendo torná-la também um problema a longo prazo”.
No imediato, quando se abre uma lata, “o problema está no alimento, que deixa de estar protegido do ambiente externo”, sublinha.
Guardar uma lata aberta “pode permitir a contaminação do alimento com microrganismos presentes no ar”, refere a professora (ver também aqui e aqui).
Segundo um documento do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), intitulado “Segurança Alimentar – Guias de boas práticas do consumidor”, fala-se, sobretudo, de “perigos biológicos”, ou seja, “bactérias, bolores, vírus e parasitas” que podem “alterar o estado de saúde do consumidor” mesmo sem alterarem a “aparência”, o “sabor” ou o “cheiro” de um alimento.
O consumo de alimentos contaminados pode manifestar-se, “essencialmente, em intoxicações alimentares por contaminação microbiana”, esclarece Isabel Ratão.
Os sintomas aparecem um a dois dias “após a ingestão do alimento contaminado” e, dependendo da gravidade da intoxicação, podem traduzir-se em “dores de estômago”, “vómitos”, “diarreia”, “dores de cabeça” e “febre”, realça-se no documento do INSA.
Em casos mais graves, pode ocorrer “fadiga ou mesmo perturbações do sistema nervoso (visão ou fala)”, “dificuldade respiratória”, “septicemia”, “meningite”, “aborto”, “parto prematuro” e, “em situações extremas, morte”, lê-se.
Por outro lado, acrescenta Isabel Ratão, uma lata aberta “também oxida com maior facilidade, permitindo a libertação de componentes tóxicos nos alimentos”.
A oxidação da lata também “pode alterar o sabor do alimento”, realça-se no documento no INSA.
Apesar de a “corrosão da lata, por oxidação”, poder facilitar o processo de libertação de metais pesados, para tal acontecer, “a lata precisaria de ser guardada durante algum tempo”, aponta Isabel Ratão.
Antes de isso acontecer “o alimento degrada-se, por ação microbiana”, sublinha.
Quais os cuidados a ter no armazenamento de alimentos enlatados?
Assim que se abre uma lata deve-se utilizar o seu conteúdo. Caso sobre alimento, é recomendado retirá-lo “imediatamente da lata para um recipiente com fecho hermético (para o proteger do ambiente circundante)”, explica Isabel Ratão.
O recipiente deve ser, “preferencialmente, de vidro”, porque este “material é inerte”, ou seja, não apresenta “risco de migração de elementos químicos para os alimentos”, prossegue a investigadora.
De seguida, regra geral, as sobras devem ser colocadas no frigorífico, “a menos que estejamos a falar de frutos secos ou de outro tipo de alimentos que não necessitem de frio”, sublinha (ver também aqui e aqui).
De facto, “as conservas cozinhadas não precisam de frio quando estão na lata fechada, porque estão esterilizadas”. Contudo, refere Isabel Ratão, “perdem a esterilização no momento de abertura da lata, iniciando o seu período de deterioração, que pode ser retardado através da refrigeração”.
Importa ainda salientar que, “quando se abre a lata (ou qualquer outra embalagem), perde-se o período de validade que está na embalagem, uma vez que as condições se alteraram”.
Apesar de não ser possível determinar um tempo seguro de consumo após abertura, “em princípio, produtos de origem animal têm menor capacidade de resistir do que produtos de origem vegetal, mas o ideal é consumir no dia a seguir ou congelar imediatamente”, conclui.
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