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Jejum de três dias elimina toxinas, reduz inflamações e regenera os órgãos?

22 Set 2025 - 08:45
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Jejum de três dias elimina toxinas, reduz inflamações e regenera os órgãos?

Numa publicação partilhada no Instagram sugere-se que fazer um jejum de três diaselimina toxinas”, “reduzindo inflamações e regenerando órgãos”. Será mesmo assim?

Fazer um jejum de três dias elimina toxinas, reduz inflamações e regenera os órgãos?

Em declarações ao Viral, Elisabete Pinto, professora e coordenadora da Licenciatura em Ciências da Nutrição da Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da Universidade Católica Portuguesa (UCP), adianta que não há evidência científica robusta que permita afirmar que fazer um jejum de três dia elimina toxinas, reduz inflamações e regenera os órgãos.

Apesar de ser uma prática antiga e comum, ainda existem algumas dúvidas sobre o impacto do jejum na saúde. Em março de 2024, foi publicado um estudo “na conceituada revista nature metabolism, descrevendo uma intervenção num grupo de 12 indivíduos que foram sujeitos a jejum durante 7 dias”, refere Elisabete Pinto.

A investigação “mostrou que ao final de 3 dias surgem alterações evidentes de natureza metabólica, inflamatória ou relacionada a marcadores cardiovasculares e do metabolismo da glicose e que ao final de 7 dias as perdas de peso corporal são evidentes”. 

No seguimento deste estudo, começou-se a partilhar a ideia de que um jejum de três dias é milagroso para a saúde. No entanto, defende a professora, “não existem estudos que suportem a eficácia deste período de jejum especificamente na eliminação de toxinas”.

Aliás, sublinha, a noção de que o corpo precisa de ajuda extra para desintoxicaré um mito”. Tal como esclarece a nutricionista, o organismo, tendo as condições adequadas, faz a sua própria desintoxicação, ou seja, os “vários órgãos – fígado, rins, pulmões, intestino e pele – trabalham diariamente para eliminar essas substâncias tóxicas” (ver também aqui).

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De facto, “estes órgãos também estão envolvidos noutras atividades fisiológicas, nomeadamente a digestão”, mas “o jejum já ocorre de forma natural quando estamos a dormir”.

Isto significa que não é necessário “forçar” um jejum para permitir que o organismo elimine toxinas, uma vez que estar em jejum durante a noite “permitirá ao organismo ativar estes mecanismos de forma natural”, explica.

Para clarificar a questão, Elisabete Pinto refere como a professora Conceição Calhau aborda o assunto no seu livro “Deixemo-nos de tretas”, “em que compara o organismo humano a um prédio de escritórios: durante o dia há trabalho e movimento e à noite entra a equipa de limpeza que limpa, recicla, organiza e prepara tudo para o dia seguinte”.

Em relação à redução de inflamações, não há provas de que o jejum de três dias, em específico, tenha impacto neste sentido. No que diz respeito ao jejum em si, “ainda persistem resultados contraditórios na evidência científica”, aponta. 

Por exemplo, no estudo publicado na nature metabolism, “os investigadores avaliaram o comportamento de cerca de 3000 proteínas plasmáticas, diariamente, e verificaram que, a partir do terceiro dia, a concentração de algumas das proteínas envolvidas na inflamação diminuía”.

Outros estudos “mostram uma redução de certos marcadores inflamatórios, sobretudo quando o jejum é seguido por uma reintrodução alimentar adequada ou quando se trata de jejuns intermitentes de várias semanas”, avança a nutricionista.

No entanto, há trabalhos que “registam um aumento transitório de marcadores inflamatórios durante o jejum, o que parece ser uma resposta adaptativa do organismo ao stress metabólico”.

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Quanto à regeneração de órgãos, “a evidência direta é muito limitada”, salienta Elisabete Pinto. Em estudos feitos em modelos animais, “há indícios de que jejuns prolongados podem estimular a regeneração de células estaminais em tecidos como o fígado, o intestino ou até o pâncreas”, refere. 

Contudo, “em humanos, o que se observa são sinais de autofagia e renovação celular, ou seja, processos de manutenção e reparação, mas não uma regeneração estrutural de órgãos”.

Assim, conclui, “falar em ‘desinflamar’ e ‘regenerar órgãos’, nos seres humanos, será uma extrapolação” dos resultados.

Existem riscos para a saúde associados a um jejum de três dias?

Em primeiro lugar, defende Elisabete Pinto, “independentemente da modalidade de jejum que se adote, é fundamental que esta seja supervisionada por um profissional de saúde” e “nem todas as pessoas poderão praticar jejum, sobretudo quando falamos de vários dias”.

A nutricionista explica que “grávidas, mulheres a amamentar, crianças, pessoas com diabetes, idosos, indivíduos com perturbações alimentares, indivíduos com doenças cardíacas, renais ou do fígado graves, não devem praticar jejuns prolongados”.

Também é importante salientar que “a ação de alguns medicamentos pode alterar durante o jejum prolongado e, por isso, tem de haver muita cautela” em casos de pessoas que tomem “antidiabéticos, anti-hipertensores, diuréticos, anticoagulantes, corticoides ou imunossupressores”.

Apesar de o jejum prolongado ter alterações “mais intensas e rápidas”, “em termos de tolerância, o jejum intermitente é mais exequível, fácil de incorporar num estilo de vida a longo prazo”. 

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Por norma, “o jejum de vários dias é aconselhado apenas em algumas situações muito específicas, como, por exemplo, preparação de algumas abordagens médicas ou em estudos científicos”. Além disso, este tipo de jejum “implica uma vigilância muito mais apertada”, até pelos possíveis efeitos secundários associados a esta prática.

Segundo Elisabete Pinto, “os efeitos mais descritos em jejuns prolongados são: hipoglicemia (diminuição acentuada dos níveis de glicose no sangue), desidratação e desequilíbrio eletrolítico (sobretudo se não houver uma correta hidratação), hipotensão e tonturas, fadiga, irritabilidade e dificuldade de concentração (devido ao baixo fornecimento de energia ao cérebro)” (ver também aqui).

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Alguns sintomas são considerados sinais de alerta e devem levar a pessoa a interromper o jejum e a “procurar observação médica”, defende a professora da UCP.

Alguns desses sinais de alerta são: “tonturas intensas ou desmaio, cansaço extremo, palpitações ou ritmo cardíaco irregular, náuseas, vómitos ou dor abdominal, confusão mental, dificuldade de concentração, alteração do humor, boca seca e baixo débito urinário”.

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22 Set 2025 - 08:45

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