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Intoxicação alimentar pode ser um gatilho para uma doença autoimune?

28 Mar 2025 - 08:30
verdade-mas

Intoxicação alimentar pode ser um gatilho para uma doença autoimune?

As intoxicações alimentares são condições comuns que, habitualmente, duram alguns dias e podem causar sintomas gastrointestinais (como diarreia e vómitos) e até febre. No entanto, nas redes sociais, alerta-se para a possibilidade de uma intoxicação alimentar poder ser um gatilho para uma doença autoimune. Mas será mesmo assim?

É verdade que uma intoxicação alimentar pode ser um gatilho para uma doença autoimune?

Sim, uma intoxicação alimentar pode ser um gatilho para o desenvolvimento de uma doença autoimune. Mas este desfecho não se aplica a todas as pessoas, nem a todas as doenças autoimunes. Quem o adianta, ao Viral, é Fernando Salvador, diretor do serviço de Medicina Interna da Unidade Local de Saúde (ULS) de Trás-os-Montes e Alto Douro.

O médico começa por esclarecer que “não se sabe exatamente o mecanismo que leva ao aparecimento e ao desenvolvimento das doenças autoimunes”.

Num texto do MedlinePlus (um site de informação sobre saúde que pertence aos Institutos Nacionais da Saúde dos Estados Unidos), explica-se que o sistema imunitário protege o organismo “de doenças e infeções atacando os germes que entram no corpo, como vírus e bactérias”.

Normalmente, o sistema imunitário “consegue perceber que os germes” não pertencem ao organismo, “por isso, destrói-os”. No entanto, quando se tem uma doença autoimune, o sistema imunitário “ataca as células saudáveis dos órgãos e tecidos por engano”, acrescenta-se.

Segundo Fernando Salvador, sabe-se que “há dois fatores que, em conjunto, contribuem para o aparecimento” de doenças autoimunes: “a predisposição genética” e “a exposição ambiental”.

É no contexto da exposição ambiental que se insere a intoxicação alimentar. A ingestão de alimentos contaminados por microorganismos que causam uma infeção (como bactérias, e vírus, por exemplo) “podem levar ao desencadeamento de algumas doenças autoimunes”, sublinha o membro do Núcleo de Estudos de Doenças Autoimunes da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI).

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Contudo, existem mais de 80 tipos de doenças autoimunes (ver aqui) e só em algumas é que uma intoxicação alimentar pode, de facto, ter um impacto relevante, em termos de desencadeamento.

Por exemplo, se houver uma predisposição para tal, “uma gastroenterite causada pela bactéria Campylobacter jejuni” pode contribuir para o “desenvolvimento da síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica autoimune” (ver também aqui).

Além disso, “uma gastroenterite causada por bactérias como Salmonella, Yersinia enterocolitica ou Shigella disenteriae, por exemplo”, podem levar a “uma artrite reativa”, avança Fernando Salvador.

Isto pode acontecer porque, nestas circunstâncias, a infeção origina um fenómeno chamado “mimetismo molecular”, ou seja, “o organismo identifica a bactéria e começa a produzir anticorpos semelhantes a anticorpos que podem atingir as nossas células”, levando a uma doença autoimune.

Por outro lado, há outras doenças autoimunes, “como o lúpus eritematoso, a artrite reumatoide e as vasculites, em que o efeito de intoxicação alimentar não está tão bem definido”, salienta o médico.

Em suma, é verdade que uma intoxicação alimentar causada por um microorganismo pode ser um fator desencadeante para doenças autoimunes específicas, como a síndrome de Guillain-Barré ou a artrite reativa. Contudo, isso só acontece se já houver uma predisposição genética para se desenvolver uma doença autoimune.

Como prevenir uma intoxicação alimentar causada por microorganismos?

Não é possível evitar, por completo, uma intoxicação alimentar. Contudo, algumas medidas, como fazer a lavagem adequada das mãos, limpar todas as superfícies e utensílios que podem estar infetados com germes (ou que podem ser um veículo de transmissão) e confecionar os alimentos de forma segura, podem ajudar na prevenção de intoxicações alimentares (ver aqui e aqui).

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Quando se vai viajar, sobretudo, “é importante consumirmos água que sabemos que é potável e alimentos bem confecionados”, sublinha Fernando Salvador.

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