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“Não existe intestino que aceite glúten.” Será mesmo assim?

25 Jul 2024 - 03:28

“Não existe intestino que aceite glúten.” Será mesmo assim?

Num vídeo que circula no Instagram, alega-se que o glúten inflama o organismo e causa alergia em todas as pessoas.

Um dos intervenientes do vídeo refere, aliás, que “não existe intestino que aceite glúten”. De seguida, diz que, se uma pessoa consome glúten e “não sente nada”, é porque o intestino “está adaptado”, ou seja, “está a sofrer mas não está a reclamar”. Mas será mesmo assim?

Glúten causa alergia no intestino e inflama o organismo a todas as pessoas?

Em declarações ao Viral, Ana Célia Caetano, gastroenterologista no Hospital de Braga, professora da Escola de Medicina da Universidade do Minho e investigadora no Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Universidade do Minho, refere que o glúten “não causa alergia nem inflama o intestino de todas as pessoas”.

Cada intestino pode tolerar quantidades diferentes de glúten e não desenvolver sintomas de intolerância a doses menores”, afirma Ana Célia Caetano.

Questionada sobre se o glúten causa alergia a todas as pessoas, a especialista adianta que apenas os doentes com diagnóstico confirmado de doença celíaca – que se consegue através de análise sanguínea e biópsia do intestino delgado – podem ser considerados como tendo uma “resposta imunológica ao glúten”.

Quando uma pessoa com doença celíaca ingere glúten, o organismo produz anticorpos que vão danificar o revestimento interno do intestino delgado.

Nestes casos, a dieta sem glúten tem de ser “cumprida corretamente” sob o risco de futuras complicações relacionadas com inflamação crónica da mucosa e má absorção, alerta a gastroenterologista. Ou seja, um doente celíaco não pode “comer glúten às vezes”. 

Apenas a “eliminação total do glúten” permite que o intestino regenere por completo e o organismo recupere, sublinha a Associação Portuguesa de Celíacos (APC) no seu site.

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Para estas pessoas, há alimentos proibidos: todos os que contêm glúten, como, por exemplo, pão e bolos confecionados com farinhas ou amidos de trigo.

Por outro lado, existe outra situação – a intolerância ao glúten – em que a ingestão de determinadas quantidades de glúten pode originar alguns “sintomas de desconforto e diarreia”, contudo, sem dano intestinal.

Quando alguém suspeita de que poderá ter alguma intolerância ao glúten, é necessário confirmar se é esta substância que está a causar os sintomas ou se estes são provocados por outros componentes dos alimentos, como  gorduras, açúcares, aditivos ou conservantes alimentares. O “exemplo clássico”, aponta a médica, é o caso das bolachas ou massas embaladas.

No caso das pessoas com intolerância ao glúten, não há uma resposta imunológica e não há dano na mucosa intestinal. Por isso, “quantidades menores podem ser perfeitamente toleradas ao longo da vida”, indica Ana Célia Caetano.

Além disso, tal como o Viral já tinha verificado anteriormente, não há evidência que sugira que evitar o glúten seja benéfico para pessoas sem doença celíaca ou sem intolerância a esta substância.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

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Categorias:

Alimentação

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25 Jul 2024 - 03:28

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