PUB

Fact-Checks

Banana, pão e bolos. Há alimentos proibidos para quem tem diabetes?

23 Nov 2025 - 08:45

Banana, pão e bolos. Há alimentos proibidos para quem tem diabetes?

Em vários vídeos partilhados no TikTok, recomenda-se que as pessoas com diabetes deixem de comer certos alimentos. Numa das publicações, diz-se para comer maçã em vez de banana, sugere-se substituir o pão pela tapioca e recomenda-se não comer bolos com açúcar. Mas há alimentos “proibidos” para pessoas com diabetes? Quais os cuidados a ter com a alimentação neste contexto?

PUB

O que significa ter uma alimentação adequada na diabetes?

A diabetes “é uma doença caracterizada pelo excesso de açúcar no sangue” (glicose), explica-se num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24). 

Para a glicose – a principal fonte de energia do corpo – ser utilizada pelo organismo está dependente da insulina, uma hormona produzida pelo pâncreas.

Quando uma pessoa tem diabetes, o corpo produz pouca ou nenhuma insulina (no caso da diabetes tipo 1), ou pode ser capaz de produzir insulina, mas as células não conseguem absorver facilmente glicose suficiente do sangue (na diabetes tipo 2).

Tal como explica Paula Freitas, endocrinologista e professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), “a alimentação tem um impacto direto e decisivo no controlo da glicemia [níveis de açúcar no sangue] em pessoas com diabetes, pois o tipo, a quantidade e a qualidade dos alimentos consumidos interferem na velocidade e na quantidade de glicose que chega ao sangue”.

Tipo de alimentação

“A alimentação da pessoa com diabetes é a alimentação que todos nós deveríamos praticar para ter uma boa saúde”, defende a médica. 

De forma geral, inclui:

– “Priorizar alimentos frescos e minimamente processados, como frutas (com conta, peso e medida), vegetais, cereais integrais e leguminosas (feijão, grão-de-bico, lentilhas) – que fornecem fibras que ajudam no controle da glicemia e promovem saciedade”;

Limitar alimentos ricos em açúcares simples e adicionados (como doces, refrigerantes e produtos industrializados com açúcar) e “preferir hidratos de carbono com baixo índice glicémico”, para “evitar elevações bruscas da glicemia”;

PUB

– Evitar “comidas industrializadas, gorduras saturadas e trans e os produtos processados”, sendo preferível “optar por gorduras saudáveis como azeite, oleaginosas e peixes ricos em ómega 3”;

– “Reduzir o consumo de sal para controlar a pressão arterial”, uma vez que “a hipertensão é outro fator de risco cardiovascular comum nas pessoas com diabetes” (ver também aqui);

– Procurar fazer as refeições em casa, com “métodos de confeção saudável, como cozidos, assados sem gordura, caldeiradas, ensopados ou grelhados e evitar os fritos e molhos gordurosos”. 

Horário e número de refeições

O horário e a regularidade das refeições podem ter um grande impacto no controlo da diabetes. Por esse motivo, “manter uma rotina alimentar consistente ajuda a evitar picos de hiperglicemia e quedas bruscas na glicemia (hipoglicemia)”, esclarece Paula Freitas.

A gestão do horário e do número de refeições deve ser sempre individualizada, “de acordo com o tipo de diabetes, a terapêutica farmacológica que a pessoa está a fazer, o estilo de vida, etc.”.

Contudo, de modo geral, pode-se “considerar que fazer três refeições principais (pequeno-almoço, almoço e jantar) e dois lanches (a meio da manhã e da tarde), e evitar grandes refeições à noite ou jantar muito tarde”, é adequado.

Quantidades

As pessoas com diabetes também devem ter atenção “às porções e à quantidade de alimentos ingeridos em cada refeição para evitar excessos que possam elevar a glicemia”, explica a endocrinologista.

PUB

Esta gestão deve ser individual. Para cada pessoa, deve-se “ajustar as quantidades de cada alimento às necessidades energéticas e às comorbilidades e prestar atenção ao perfil dos hidratos de carbono presentes em cada refeição, preferindo os de absorção lenta (como as leguminosas e cereais integrais)”.​ 

Ao mesmo tempo, “é muito importante manter a variedade e o prazer em comer”, sublinha a especialista. “A alimentação não precisa de ser monótona, mas sim adaptada ao gosto, respeitando orientações e equilibrando exceções com escolhas saudáveis”, acrescenta. ​ 

No fundo, “uma alimentação adequada para a diabetes não é apenas evitar o açúcar, é construir hábitos saudáveis, adaptados às necessidades individuais, e procurar uma evolução e equilíbrio contínuos nas escolhas alimentares, com orientação profissional de um médico e de um nutricionista, sempre que possível”, defende Paula Freitas (ver também aqui, aqui, aqui e aqui).

A alimentação adequada da diabetes tipo 1 é diferente da diabetes tipo 2?

Podem existir algumas diferenças entre a alimentação adequada para uma pessoa com diabetes tipo 1 e para uma pessoa com diabetes tipo 2, “mas os princípios de uma dieta saudável são bastante semelhantes para ambos” os casos. 

Isto é, nos dois tipos de diabetes, “recomendam-se alimentos frescos, ricos em fibras, com baixo teor de açúcares simples, gorduras saturadas e sal, priorizando frutas, legumes, leguminosas e cereais integrais, tudo com conta, peso e medida”, adianta Paula Freitas. 

Na diabetes tipo 1, “o foco é conhecer e compreender o que se está a comer, em especial, a quantidade de hidratos de carbono, para depois calcular a dose de insulina rápida a ser administrada”, refere a professora da FMUP.

PUB

Esta contagem de hidratos de carbono “pode ser fundamental para manter um bom equilíbrio glicémico e evitar episódios de hipoglicemia ou hiperglicemia”. 

Esta técnica “também permite flexibilidade no horário das refeições, já que a insulina de ação rápida é administrada cerca de 5 minutos antes da refeição”.​

Por outro lado, na diabetes tipo 2, “muitas vezes, o foco da dieta é uma estratégia para controlar o peso ou promover perda de peso e consequentemente reduzir a resistência à insulina e controlar a glicemia”, bem como “o perfil lipídico e a pressão arterial”. 

Há alimentos “proibidos” para pessoas com diabetes?

Há, de facto, “alimentos que prejudicam a estabilização da glicemia e outros que ajudam a mantê-la mais estável”, adianta Paula Freitas.​

São exemplos de alimentos que aumentam a glicemia: “o açúcar refinado, mel, geleias e doces em geral, refrigerantes, sumos industrializados e bebidas açucaradas, pães brancos, arroz branco, massas e cereais feitos com farinha refinada, bolos, biscoitos, sobremesas açucaradas, frutas em calda e frutas secas”.

Por outro lado, “fritos, salgadinhos, fast-food, alimentos processados e bebidas alcoólicas em excesso contribuem também para alterações do perfil lipídico (colesterol e/ou triglicerídeos aumentados)”, o que também prejudica a gestão da diabetes.

PUB

Já “os alimentos ricos em fibras, como, por exemplo, cereais integrais, legumes e leguminosas atrasam a absorção de glicose e auxiliam no controlo da glicemia pós-refeição”, prossegue a médica.

Apesar de tudo, “não existe propriamente o conceito de ‘alimentos proibidos’ para pessoas com diabetes”. Aliás, na perspetiva da endocrinologista, “é proibido proibir”.

Há, no entanto, “um grupo de alimentos (com açúcar adicionado) que deve ser evitado ou consumido com muita moderação, pois prejudica o controlo da glicemia e aumenta o risco de complicações da doença”.​ 

Esses alimentos não só causam picos de glicose, “mas também, geralmente, são pobres em nutrientes e ricos em calorias vazias, o que pode agravar o estado metabólico e aumentar o risco de complicações cardiovasculares”. Embora não seja necessário excluir totalmente, “o consumo deve ser restrito, moderado e apenas em dias festivos”, defende.

Categorias:

Diabetes

Etiquetas:

Alimentação | Diabetes

23 Nov 2025 - 08:45

Partilhar:

PUB