VITAL
Glutamato monossódico provoca cancro?
Há muito que o glutamato monossódico (MSG) tem má fama. Várias pessoas relatam os supostos efeitos nocivos deste aditivo alimentar, dizem sentir-se nauseadas, com dores de cabeça, fracas ou com palpitações quando consomem produtos que contêm MSG. Ao Viral, em 2023, o nutricionista e investigador Leandro Oliveira disse que, “de um modo geral, não se conseguiu provar claramente a associação do glutamato monossódico aos malefícios para a saúde apontados”. A causa parecia ser o tipo de alimentos aos quais o MSG é adicionado, processados e com alto teor de sal e açúcar.
Mas as alegações sobre o glutamato monossódico não ficam por aí, em várias publicações nas redes sociais, há quem garanta que o composto promove o aparecimento e a proliferação de cancro. Num vídeo do TikTok com mais de 25 mil visualizações, um homem que se intitula como “biohacker” garante que o MSG “é o alimento mais tóxico do mundo” e descreve-o como “cancerígeno”. Mas será mesmo assim?
O glutamato monossódico provoca cancro?
Não há dados que confirmem qualquer ligação entre o consumo de MSG e um diagnóstico de cancro. Este aditivo é considerado seguro pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e pela homóloga norte-americana, a Food and Drug Administration (FDA), e não faz parte da lista de agentes cancerígenos da Agência Internacional de Investigação do Cancro (IARC, na sigla inglesa) da Organização Mundial da Saúde.
O glutamato é o sal do ácido glutâmico e está presente de forma natural em vários alimentos, como tomate e queijo. Quimicamente, o glutamato que existe naturalmente nos alimentos é indistinguível daquele que é adicionado aos alimentos. Por isso, o organismo “lê” os dois da mesma forma, não há qualquer diferença.
Este composto foi criado através de um caldo de algas no início do século XX por Kikunae Ikeda, um químico japonês que percebeu que o sabor “umami” do prato residia no glutamato. É amplamente utilizado na cozinha asiática como tempero, e hoje é possível comprar MSG em qualquer supermercado português. Para além disso, está presente em alimentos processados como forma de realçar sabores.
Apesar de, inicialmente, o MSG ter sido feito através de algas, o processo foi sofrendo alterações com a massificação da produção e hoje é obtido através da fermentação de amido, beterraba sacarina, cana-de-açúcar ou melaço.
Um estudo de 2024, publicado no jornal científico Science Direct, avaliou se o MSG poderia provocar cancro no intestino. Dividiram-se ratos machos adultos em três grupos: aos primeiros foram administradas doses diárias com concentrações muito elevadas de MSG, o segundo grupo recebeu um composto carcinogénico e o terceiro serviu como controlo. Os autores verificaram que as altas doses de glutamato monossódico atuaram de forma tóxica e potencialmente carcinogénica no cólon dos animais.
Ainda assim, não é possível transpor os resultados deste estudo para seres humanos já que as doses administradas excedem em muito o consumo humano típico — como se uma pessoa consumisse dezenas de gramas de MSG por cada quilograma de peso.
Além de estudos em ratos, já se fizeram também experiências in vitro. Um artigo científico de 2021 dá conta que a exposição de células cancerígenas a MSG levou a um aumento da proliferação dessas células. Segundo os autores, o composto é um potencial facilitador da sobrevivência e progressão do cancro.
Mas, mais uma vez, não é possível fazer uma extrapolação para o consumo humano de MSG — o efeito foi observado em células expostas exclusivamente ao composto (o que não corresponde a um ambiente semelhante ao organismo) em quantidades bastante superiores às ingeridas por um humano.
Ou seja, há literatura publicada sobre o tema, mas nada prova que o consumo de glutamato monossódico provoque cancro no ser humano. Muitos dos estudos citados por quem garante que existe causalidade entre os dois fatores são feitos em ratos e os próprios autores notam que os resultados não podem ser extrapolados, já que são administradas doses excessivas, a exposição ao MSG é feita numa fase neonatal ou há mesmo adição de compostos cancerígenos juntamente com o glutamato monossódico.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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