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Frutose é mais viciante do que as drogas e o álcool? 

15 Out 2024 - 10:10
falso

Frutose é mais viciante do que as drogas e o álcool? 

Num vídeo partilhado no TikTok apresenta-se a frutose como sendo uma substância “superaditiva”, mais viciante do que “as drogas e o álcool”. O autor do vídeo afirma ainda que este composto “legal” está presente “em quase todos os refrigerantes e alimentos processados”.

O autor da publicação enumera um conjunto de problemas de saúde que, alegadamente, estão associados ao consumo de frutose em refrigerantes e produtos processados, nomeadamente hipertensão, gordura no fígado, obesidade, triglicerídeos, gota, problemas cardíacos e cancro.

O que é, na verdade, a frutose? Será uma substância viciante e perigosa para a saúde? Margarida Beja, nutricionista no Reino Unido (equivalente a registered dietitian), explica ao Viral o que dizem os estudos e como se deve interpretar as suas conclusões.

Frutose é uma substância “superaditiva”?

É falso que a frutose seja uma substância “superaditiva” mais viciante do que “as drogas e o álcool”. Na verdade, a frutose “é um açúcar simples” que está “naturalmente presente nos alimentos (especialmente frutas e vegetais)”, esclarece Margarida Beja.

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Não falamos em vício quando falamos em alimentos, porque não é esse o mecanismo em causa”, prossegue. Os efeitos que a alimentação tem no organismo “não são sequer comparáveis” aos que ocorrem ao consumir substâncias aditivas, tais como drogas ou álcool.

A teoria de que o açúcar – no qual se inclui a frutose – é mais viciante do que drogas repete-se muitas vezes nas redes sociais. Mas é uma extrapolação enganadora da evidência existência.

Num texto publicado anteriormente no Viral, Davide Carvalho, coordenador do departamento de Endocrinologia do Hospital São João e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, explicava que estudos experimentais observaram que “os mesmos centros de recompensa e prazer do cérebro que são acionados por drogas viciantes, como cocaína e heroína, também são ativados por alimentos, especialmente alimentos altamente palatáveis”, ou seja, “alimentos ricos em açúcar, gordura e sal”.

Nesse sentido, a ingestão de alimentos doces está relacionada com a “produção de substâncias químicas cerebrais que causam a sensação de bem-estar”, entre as quais a “dopamina”.

Por essa razão, o indivíduo sente “prazer associado ao aumento da transmissão de dopamina” e faz com que tenha necessidade de voltar a ingerir aquele produto – ignorando até sinais de saciedade e de enfartamento.

Ainda assim, isso não significa que a frutose (ou outro tipo de açúcar) seja mais “viciante” do que as drogas e os seus efeitos não são comparáveis aos destas substâncias que causam mudanças estruturais no cérebro e são comprovadamente nefastas para a saúde.

Recorde-se que, em Janeiro de 2023, a Organização Mundial de Saúde publicou uma declaração na revista The Lancet Public Health em que afirma que, “no que diz respeito ao consumo de álcool, não existe uma quantidade segura que não afete a saúde”. Nenhuma declaração deste género foi feita sobre a frutose ou qualquer outro tipo de açúcar.

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Além disso, não existe evidência científica robusta ou estudos realizados em humanos em que se valide que a frutose seja mais viciante do que as drogas ou do que o álcool.

Consumo de frutose está associado a doenças?

Voltando à frutose: além de ser um açúcar simples, que confere “um sabor doce” aos alimentos nos quais está naturalmente presente ou aos quais é adicionada, também é utilizada pela indústria alimentar para  “aumentar o tempo de prateleira em alguns produtos”. 

Além de existir naturalmente na fruta e nos legumes, a frutose pode também ser adicionada durante a produção de alimentos, por via de um produto sintético chamado xarope de milho rico em frutose. Este composto resulta do processamento enzimático do xarope natural de milho e tem entre 42% e 55% de frutose, glucose e vários polissacarídeos (hidratos de carbono).

Vários estudos procuram analisar o impacto da frutose na saúde humana, contudo não existe concordância na comunidade científica sobre os efeitos. Margarida Beja alerta que a evidência existente é pouco robusta e sublinha que “são precisos mais estudos” e “de melhor qualidade” para chegar a conclusões claras.

As questões levantam-se por vários motivos: primeiro, porque não é possível isolar a frutose na alimentação dos participantes e estudar apenas os seus efeitos; segundo, porque a metodologia seguida em alguns artigos apresenta incongruências; e, terceiro, porque os hábitos da população estudada também pode interferir nas conclusões.

Um artigo chamado “Frutose em perspetiva” analisa vários estudos publicados e respetivas metodologias e conclusões. O grupo de investigadores teve em conta que este açúcar simples é, muitas vezes, parte de um composto que inclui também glucose e que, ao mesmo tempo, faz parte do grupo dos hidratos de carbono.

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Tendo isso em conta, concluíram que “a frutose é melhor compreendida como parte das vias gerais do metabolismo dos hidratos de carbono” e que “quaisquer efeitos únicos da frutose são mediados por interações com a glucose” ou por “uma conversão significativa de frutose em glucose”.

Ou seja, não é claro se os efeitos identificados na maioria dos estudos dizem respeito à frutose por si só ou se, por outro lado, têm origem no processamento de hidratos de carbono ou na ingestão exagerada de sacarose (açúcar composto por glucose e frutose).

“Ninguém está a sugerir que o consumo continuado de elevadas quantidades de açúcar é bom, mas existe um problema lógico e um problema prático. Logicamente, não podemos dizer que iremos analisar o efeito da frutose, mas não o efeito dos hidratos de carbono. Não faz sentido”, escrevem os investigadores.

Alguns artigos associam a frutose ao consumo de refrigerantes (que incluem xarope de milho rico em frutose na sua composição), mas estes estudos focam-se principalmente na população dos Estados Unidos, onde o consumo de refrigerantes é muito superior aos restantes países.

Nestes estudos refere-se a associação entre o consumo de refrigerantes e doença cardíaca, obesidade, síndrome metabólica. No entanto, não é verificado se os participantes no estudo têm outros comportamentos que possam ser fator de risco para o desenvolvimento de doenças – como sedentarismo ou boa práticas alimentares.

Contudo, uma revisão, publicada em 2010, lembra que as investigações sobre o assunto são transversais (usam dados de diferentes indivíduos numa determinada altura da vida) ou baseados na “observação passiva e impressiva” – o que pode enviesar os resultados.

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Na altura, a autora do artigo referia que não existem “dados relevantes” para provar “uma ligação direta entre a inclusão de frutose na dieta e os marcadores para o risco de doença como obesidade, triglicerídeos ou acumulação e resistência à insulina em humanos”.

Concluindo: a frutose não é uma substância mais viciante do que as drogas, como se alega na publicação. Além disso, não existe evidência robusta de que o consumo de frutose seja causa para as diferentes doenças enumeradas nas publicações das redes sociais. Os estudos existentes têm falhas de metodologia e muitos deles focam-se na população norte-americana que consome mais refrigerantes.

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Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.

The sole responsibility for any content supported by the European Media and Information Fund lies with the author(s) and it may not necessarily reflect the positions of the EMIF and the Fund Partners, the Calouste Gulbenkian Foundation and the European University Institute.

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Alimentação

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