Está provado que som na frequência 852Hz “acalma” o cérebro de quem tem PHDA?
Um “bip” contínuo. É este o som que se ouve quando o vídeo do TikTok começa a tocar. Na descrição lê-se que este som, na frequência de 852Hz (Hertz), faz com que as pessoas neurodivergentes, nomeadamente com perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), sintam o cérebro “a ficar calmo”.
Nos comentários, as opiniões dividem-se entre os que sentiram os alegados efeitos do som e os que não suportam ouvir o barulho. Será verdade que esta frequência sonora tem a capacidade de “silenciar” os pensamentos das pessoas com PHDA? O que diz a ciência?
Som contínuo na frequência 852Hz “silencia” o cérebro das pessoas com PHDA?
A médica Joana Ferreira Gomes, professora na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e investigadora na área da hiperatividade e défice de atenção no Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) explica ao Viral que “não existe evidência” de que este som tenha qualquer efeito em pessoas diagnosticadas com PHDA.
“Não há estudos que analisem esta frequência sonora específica”, acrescenta.
Existem, no entanto, estudos em que se analisa o efeito do ruído branco na concentração e na performance cognitiva de crianças com PHDA.
O ruído branco é, explica a investigadora, “uma mistura de sons de várias frequências audíveis” e não apenas uma frequência em contínuo.
Apesar de a evidência ser “limitada”, alguns estudos mostram efeitos positivos deste tipo de ruído em alguns subgrupos da PHDA.
Joana Ferreira Gomes alerta que “é preciso alguma cautela” com estas conclusões: “Não se pode dizer que todos os indivíduos com PHDA beneficiam do ruído branco”.
Num artigo de 2019, em que se analisa a possibilidade de utilizar o ruído branco como terapêutica para crianças com PHDA, conclui-se que este tipo de som demonstra “possíveis benefícios como potencial tratamento adicional para a PHDA”. Os investigadores ressalvam, porém, que nem todas as tarefas são melhoradas através do uso de ruído branco.
Numa revisão sistemática e meta-análise, publicada em 2024, refere-se que os ruídos branco e cor-de-rosa (sobre os quais existe apenas um estudo) “melhoram modestamente a performance das tarefas em crianças, adolescentes e jovens adultos com PHDA e elevados problemas de atenção”.
Outro estudo, também de 2024, concluiu que o ruído branco não apresenta efeitos significativos em todo o espetro da PHDA, mas parece atuar de forma diferente em subgrupos.
“Os [pacientes] que têm traços de maior desatenção responderam positivamente à exposição do ruído, enquanto os que têm traços relativamente mais hiperativos/impulsivos tiveram uma performance pior durante a exposição ao ruído”, escrevem os investigadores.
Ou seja, neste último estudo mostra-se que “as pessoas com défice de atenção e sem hiperatividade beneficiaram do ruído branco”, esclarece Joana Ferreira Gomes. Por outro lado, os pacientes com hiperatividade “obtiveram pior performance cognitiva enquanto ouviam o ruído branco”.
A investigadora lembra que a PHDA é uma condição muito abrangente e que pessoas diferentes podem ter reações diferentes perante estímulos idênticos.
“Nesta perturbação existem muitas alterações além da hiperatividade e do défice de atenção. Tudo isso vai influenciar a forma como o cérebro funciona”, remata.
Esta heterogeneidade pode ter influência nos resultados dos estudos realizados, uma vez que as conclusões obtidas vão depender da população analisada – dependendo dos níveis de défice de atenção, hiperatividade ou desregulação emocional entre os participantes.
Além disso, alguns estudos apresentam limitações metodológicas, uma vez que se baseiam na perceção do indivíduo, em vez de analisarem a capacidade de realizar uma tarefa.
Em suma, não existe qualquer evidência que valide os benefícios de ouvir um som contínuo na frequência 852Hz. Alguns sons podem ajudar os pacientes com PHDA a concentrar-se e a ter melhor performance cognitiva – como o ruído branco – mas os efeitos não são generalizados. A PHDA é uma condição heterogénea e diferentes pessoas podem ter diferentes reações perante o mesmo estímulo.
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