VITAL
Fazer radioterapia “espalha o cancro”?
Após a publicação de um estudo na revista científica Nature em maio de 2025, começaram a surgir vários vídeos nas redes sociais a garantir que os autores daquele estudo tinham concluído que a radioterapia criava metástases, “espalhava o cancro pelo corpo”.
A narrativa foi ganhando espaço e os vídeos visibilidade. Já este mês, no dia 21 de outubro, os autores dessa investigação publicaram um esclarecimento relativo ao estudo, onde diziam que é falsa a interpretação feita múltiplas vezes e garantiam que a radioterapia não “espalha” o cancro.
Afinal quais foram então as conclusões deste estudo? Como é que se explica a confusão?
A radioterapia promove a metastização do cancro?
De facto, no título deste estudo estão as palavras “radioterapia” e “metástases”, mas na nota de esclarecimento emitida pelos autores lê-se: “As nossas descobertas não sugerem que a radiação cause disseminação metastática. Pelo contrário, mostram que a radiação suprime a disseminação a partir das lesões tratadas”. E acrescentam que o medo levantado após a publicação deste estudo “reflete uma má interpretação da biologia”.
As verdadeiras conclusões do estudo dizem que “lesões tratadas subotimamente podem representar progressão de doença”, esclarece Eduardo Netto, radioncologista e coordenador diretor de serviço do IPO de Lisboa, num parecer enviado ao Viral.
Vamos por partes. Este estudo “trata-se de investigação básica laboratorial em 11 espécimes de tumores metastáticos tratados com SBRT [radioterapia] e pembrolizumab [imunoterapia]”.
Utilizando biópsias desses tumores antes e depois da SBRT, mas antes do pembrolizumab, juntamente com análises pré-clínicas detalhadas, os investigadores confirmaram que, sim, a radioterapia suprime a disseminação de células cancerígenas, o que reduz o número de potenciais metástases.
Mas aperceberam-se de outro mecanismo. Quando um tumor não é completamente destruído pela radiação — ou seja, quando a dose administrada é insuficiente ou a resposta não é total — as células tumorais sobreviventes libertam uma proteína chamada anfirregulina (AREG).
Essa molécula atua sobre determinadas células do sistema imunitário, em particular os monócitos, através de um recetor chamado EGFR. Ao ativar este recetor, a AREG altera o comportamento dos monócitos, tornando-os menos eficazes a reconhecer e atacar células cancerígenas.
O organismo fica menos vigilante face a células tumorais que já se encontravam no corpo, mas estavam “adormecidas”. O que pode acontecer é que essas pequenas metástases dormentes retomem o crescimento.
Importa sublinhar que isto não significa que a radioterapia potencie novas metástases — significa apenas que, quando um tumor não é totalmente removido, podem surgir sinais biológicos que favorecem a progressão de metástases pré-existentes.
Os autores enfatizam que este é um efeito indireto e excecional, dependente da dose e da eficácia local do tratamento.
Eduardo Netto explica que a radioterapia “salva vidas e não existe nenhuma evidência para omitir um tratamento bem indicado por um especialista da área”. Além disso, “é essencial para muitos doentes oncológicos”.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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