Fazer a cama ao acordar “prejudica as vias respiratórias” e é um gatilho para asma e rinite?
No TikTok, alega-se que, quando acordamos, a cama ainda está húmida e quente, e, por isso, fazê-la de imediato cria um ambiente favorável à proliferação de ácaros. Isto, supostamente, “prejudica as vias respiratórias”, dando origem a “rinite, sinusite, bronquite, asma e muitas outras doenças respiratórias”. Mas será mesmo assim?
Fazer a cama ao acordar faz mal à saúde respiratória? E desencadeia asma ou rinite?
Em declarações ao Viral, Bruno Mendes, pneumologista na clínica Sleeplab, adianta que os vídeos partilhados no TikTok “não têm qualquer validade do ponto de vista científico”, porque “não existem estudos robustos que digam que doentes com doenças respiratórias não devam fazer logo a cama de manhã”.
Na Medicina, “nunca podemos afirmar que determinado comportamento provoca ‘isto ou aquilo’ se não houver estudos científicos robustos que o provem”, explica o especialista. Logo, não se pode tirar as conclusões expostas nos vídeos.
Apesar disso, algumas das afirmações presentes nos vídeos “têm lógica” e “podem fazer algum sentido”. De facto, sabe-se que “ambientes húmidos e quentes podem aumentar a acumulação de ácaros”, sublinha.
Os ácaros, “por si só, não causam doença, mas desencadeiam crises em pessoas que já têm uma predisposição”, esclarece o médico.
Logo, assume-se que “as pessoas com maior sensibilidade a ácaros podem beneficiar em deixar arejar a cama antes de a fazer”.
No entanto, reforça Bruno Mendes, “não podemos assumir como verdade universal, pois não temos estudos” que apoiem essa ideia.
Caso uma pessoa com asma, rinite ou alguma alergia respiratória sinta realmente diferença na sua qualidade de vida em adotar este comportamento pode fazê-lo sem prejuízo.
Mais uma vez, “não há evidência científica em relação ao tempo necessário que a pessoa tem de esperar” antes de fazer a cama, mas “uma hora, mais ou menos”, deve ser suficiente “para ‘secar’ a cama”, sugere o pneumologista.
Bruno Mendes considera ainda importante referir que “mesmo as pessoas com maior sensibilidade aos ácaros devem ter as suas doenças respiratórias controladas”.
Por isso, “se o simples facto de fazerem a cama de manhã poder ser motivo para espoletar sintomas, então provavelmente a doença não está suficientemente controlada e é necessário procurar um médico”, defende.
Assim, “mais do que estarem preocupadas em não fazer logo a cama, é fundamental perceber que, se pequenas atividades espoletam sintomas, algo não está bem”, salienta.
Pessoas com asma ou alergias devem ter cuidados específicos no quarto?
Sim. Apesar de nenhuma estratégia impedir totalmente uma crise de asma ou de alergia, há algumas medidas preventivas que podem ajudar.
Segundo Bruno Mendes, “o básico é evitar ao máximo carpetes, cortinas, peluches ou qualquer objeto que possa acumular pó” (ver também aqui, aqui e aqui).
Além disso, recomenda-se “ventilar o quarto diariamente e tentar expor a cama e os lençóis o máximo possível ao sol”, prossegue.
Num texto do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24), refere-se que o ideal é “manter a humidade da casa a 45-50%”. Nesse sentido, para quem tem possibilidade, “os desumidificadores podem ser úteis”, lê-se.
É igualmente importante “lavar com frequência a roupa das camas (semanalmente, de preferência) e acima dos 60 graus (uma temperatura que permite eliminar ácaros)”, aponta Bruno Mendes.
Em relação aos materiais da roupa de cama, importa destacar que “existem capas antiácaros que se utilizam no colchão ou na almofada”.
Deve-se “evitar lã e penas” e “utilizar sobretudo almofadas e edredões que sejam sintéticos e laváveis”, recomenda o pneumologista.
Por último, sublinha-se no texto do SNS 24, em pessoas em que os pólenes têm o potencial de desencadear uma crise alérgica ou de asma, aconselha-se “tomar banho antes de deitar para remover pólenes do cabelo e pele e evitar contaminar a roupa da cama”.