Falta de amizades de longa data é uma “red flag”? Psicólogas explicam
A ideia de que não ter amigos de infância pode ser um sinal de alerta tem-se difundido nas redes sociais, especialmente em vídeos que associam essa ausência a traços negativos de personalidade.
O Viral contactou duas psicólogas para perceber se a falta de amizades antigas é, por si só, motivo de preocupação.
Falta de amizades antigas é uma ‘red flag’?
O termo “red flag” é, muitas vezes, utilizado para descrever comportamentos que podem indicar um possível sinal de alerta. No entanto, quando aplicado à amizade, o significado pode ser mais complexo e não pode ser interpretado isoladamente, explicam, ao Viral, as psicólogas Ângela Rodrigues e Isa Silvestre.
Para a psicóloga clínica Isa Silvestre, a ausência de amizades de longa data “não é automaticamente uma ‘red flag’”. Até porque, como reforça Ângela Rodrigues, “a mobilidade geográfica, as mudanças de fase de vida, ou até transformações pessoais e profissionais podem fazer com que as redes de amizade se renovem”.
Porque é que algumas pessoas consideram a falta de amizades antigas uma ‘red flag’?
A perceção de que a ausência de amizades antigas pode ser um sinal de alerta está ligada a crenças culturais ou sociais, explicam as psicólogas.
Ângela Rodrigues diz que há uma “valorização significativa da lealdade e da estabilidade nas relações de amizade”, transformando “quase num ideal cultural” a ideia de “ter amigos para a vida toda”.
Nesse contexto, a falta de laços duradouros pode ser interpretada como “indício de instabilidade emocional, conflitos frequentes ou até ausência de empatia”.
Isa Silvestre concorda e acrescenta que esta ideia de estabilidade relacional é vista como um “sinal de maturidade emocional”. Assim, quem não mantém amizades antigas pode ser visto como alguém que tem dificuldades em confiar, lidar com conflitos ou manter compromissos.
No entanto, ambas as psicólogas alertam que esta visão pode ser redutora e injusta se descontextualizar a história de vida e a personalidade da pessoa, uma vez que, “na prática, muitos renovam as suas amizades de forma saudável, sem que isso signifique qualquer problema psicológico”, salienta Ângela Rodrigues.
Porque é que algumas pessoas têm dificuldade em manter amizades?
As razões que explicam a dificuldade em manter amizades duradouras são diversas e nem todas são motivo de preocupação.
Mudanças de cidade, de trabalho ou de estilo de vida são fatores comuns que podem afastar pessoas ao longo do tempo.
Além disso, o crescimento individual pode levar a divergências de valores ou interesses, o que faz com que “algumas amizades cumpram o seu ciclo e se transformem ou terminem sem que isso indique falha pessoal”, destaca Ângela Rodrigues.
No entanto, há casos em que fatores internos podem interferir na capacidade de manter laços mais duradouros.
Para a mesma psicóloga, “dificuldades de comunicação, medo de intimidade emocional, baixa confiança interpessoal ou padrões de conflito que se repetem” podem comprometer as relações.
Isa Silvestre detalha, ainda, outras possíveis causas, como “baixa tolerância à frustração, comunicação agressiva ou passiva”.
Traços de personalidade, como impulsividade, evitamento social ou hipersensibilidade à rejeição, também podem ter um impacto negativo, acrescenta.
Segundo a psicóloga clínica, “histórico de traumas relacionais, que geram medo de intimidade ou abandono”, bem como condições de saúde mental, como ansiedade social, depressão ou transtornos de personalidade, podem dificultar as amizades a longo prazo.
Além disso, Isa Silvestre chama a atenção para “expectativas irreais sobre amizade, por exemplo, o perfecionismo relacional ou uma exigência emocional excessiva” e lembra que pessoas com um perfil mais introvertido ou reservado tendem a “priorizar poucas relações, não necessariamente de longa duração, mas significativas”.
Que comportamentos podem ser preocupantes?
Determinados comportamentos podem indicar dificuldades emocionais ou relacionais mais profundas, sobretudo quando são persistentes e têm impacto negativo na vida da pessoa.
Para Ângela Rodrigues, “podem ser motivo de atenção comportamentos como isolamento social extremo, dificuldade constante em confiar nos outros, sucessivos conflitos que levam ao afastamento de amigos ou ausência de investimento na manutenção de laços”.
Isa Silvestre aponta sinais semelhantes, destacando situações como “padrões de conflito frequente ou ruturas abruptas de relações, evitamento persistente de intimidade ou vulnerabilidade, isolamento social prolongado não desejado, sentimentos de desvalorização ou desconfiança constantes nas relações e incapacidade de reconhecer erros ou fazer reparações em relacionamentos”.
Quando esses padrões se repetem e afetam a vida social, profissional ou familiar, as psicólogas consideram que é um sinal de que pode existir uma dificuldade relacional mais profunda, que merece ser acompanhada por um profissional.
Amizades duradouras são fundamentais para o bem-estar emocional e saúde mental?
Isa Silvestre destaca que as amizades, especialmente as de qualidade e com vínculos de confiança, são fundamentais para o bem-estar emocional e saúde mental.
Segundo a mesma, a literatura científica revela que amizades estáveis “reduzem o risco de depressão e ansiedade”, e que a presença de apoio social está ligada a “maior resiliência emocional”.
Além disso, “a conexão social promove a sensação de pertença e autoestima” e “relações duradouras oferecem segurança emocional, história partilhada e suporte em momentos de crise”.
De forma geral, Ângela Rodrigues concorda que as amizades são muito importantes para o bem-estar emocional e saúde mental e que as “relações de amizade de qualidade, sejam longas ou mais recentes, são um fator de proteção importante para a saúde mental”.
No entanto, as psicólogas reforçam que “a qualidade da relação é mais determinante do que a duração em si” e que “ter poucas amizades sólidas pode ser mais benéfico do que manter laços antigos que já não trazem significado ou que se tornaram tóxicos”.
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