VITAL
Extrato de trevo vermelho cura cancro?
Na prateleira de qualquer ervanária há suplementos de trevo vermelho. O que se diz é que esta planta ajuda a regular sintomas da menopausa por ter um componente muito semelhante ao estrogénio.
Em alguns vídeos nas redes sociais diz-se mesmo que o trevo vermelho cura cancro. Mas será mesmo assim? Que propriedades tem o trevo vermelho?
Rosa Vilares, nutricionista e docente da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), afirma, em declarações ao Viral, que o trevo vermelho não só não cura cancro, como, em alguns casos, tomar esse tipo de suplementos pode não ser seguro.
Trevo vermelho cura cancro?
Não. Mas é possível perceber porque é que a hipótese foi levantada, apesar de não ter sido comprovada: em alguns estudos in vitro e com certos animais, o trevo vermelho “mostrou alguma capacidade para travar o crescimento de células tumorais”, diz Rosa Vilares.
E, “em alguns casos, parecia mesmo ‘ensinar’ essas células a morrerem sozinhas, induzindo a apoptose”. Num estudo publicado em 2020, utilizou-se o trevo vermelho em associação com um fármaco utilizado na quimioterapia.
A mistura foi administrada a ratos com tumores e teve efeitos mais notórios na redução do crescimento tumoral e melhoria do estado geral, quando comparada com a quimioterapia isolada.
Mas “estes resultados só foram observados em laboratório, com doses e condições que não são iguais às do corpo humano”, sublinha a nutricionista.
Nos estudos em pessoas, a maior parte, diz Rosa Vilares, avaliou “os efeitos na menopausa, a segurança em mulheres com antecedentes de cancro da mama e o impacto sobre marcadores hormonais”. E em nenhum caso mostraram cura nem redução de tumores.
A investigadora diz que esta planta é há muito utilizada na medicina tradicional como forma de aliviar sintomas de menopausa. Isso acontece porque o trevo vermelho “contém substâncias chamadas isoflavonas, que são ‘primas’ das hormonas femininas, especialmente do estrogénio”.
Por isso, podem ter “efeitos parecidos, mas muito mais fracos, do que as hormonas”. Os efeito mais bem documentados são nos afrontamentos — uma meta-análise de 2007 observou que houve “uma redução na frequência das ondas de calor no grupo de tratamento ativo”, que utilizava trevo vermelho, quando comparado com o placebo. Mas, avisam os autores, não é certo que seja suficiente para ser “clinicamente relevante”.
Outra meta-análise, mais recente, de 2021, chegou às mesmas conclusões, mas os autores indicam que, ainda assim, “são necessários mais estudos bem concebidos para confirmar os resultados e determinar os efeitos do trevo vermelho no alívio dos episódios de ondas de calor”.
Também foi levantada a hipótese de extratos de trevo vermelho terem efeitos negativos em pessoas com cancro da mama hormonodependente. E apesar de os estudos não apresentarem evidência muito robusta, Rosa Vilares considera que quem está nessa situação não deve utilizar este tipo de suplemento, muito menos sem aconselhamento médico.
Numa análise de 2013, diz-se que, como não há provas de que seja totalmente seguro para uma pessoa com cancro da mama tomar suplementos de trevo vermelho, a prática não é aconselhável.
O que pode acontecer é que, por serem semelhantes aos estrogénios, as isoflavonas presentes nesta planta podem ligar-se aos recetores de hormonas presentes em alguns tumores, promovendo o seu crescimento.
Mas esta hipótese não está totalmente comprovada, até porque a regulação de suplementos não é tão restrita como a de medicamentos.
O que é certo, diz a nutricionista, é que não se deve trocar qualquer tratamento e medicamento comprovado para o cancro por um suplemento que, na melhor das hipóteses, não terá qualquer efeito.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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