Excesso de água pode inchar o cérebro e provocar a morte? Médico esclarece
É frequente ouvir-se que a ingestão de água é fundamental para o organismo. Contudo, num vídeo que circula nas redes sociais, é dito que, em excesso, pode inchar o cérebro e provocar a morte.
Na publicação, o autor alega que, se beber “muita água”, o excesso vai encher o estômago e ser “absorvido na corrente sanguínea”. Consequentemente, podendo fazer com que as células cerebrais “inchem”.
O autor da publicação refere ainda que, se beber “seis litros de água em poucas horas”, a pressão aumenta no cérebro, o que pode provocar o coma e posteriormente a morte. Mas será assim? O Viral procurou esclarecer.
É verdade que o excesso de água pode inchar o cérebro e provocar a morte?
Em declarações ao Viral, Paulo Santos, especialista em Medicina Geral e Familiar e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), diz que um “alerta se transformou em desinformação” e considera que a “história não está bem contada”.
Apesar de reconhecer que um “garrafão de água” logo de manhã “não faz bem”, o especialista em Medicina Geral e Familiar considera exagerado dizer que o excesso de água provoca a morte.
“Claro que não se deve beber água como se não houvesse amanhã. Mas não há risco de água a mais numa pessoa saudável, a não ser que seja mesmo muito em excesso”, refere.
Paulo Santos explica que se uma pessoa “saudável” beber água “a mais” pode sentir “alterações”, como náuseas e tonturas, como se estivesse embriagado, contudo, esclarece que “não provoca muito mais do que isso”. As alterações “desaparecem muito rapidamente”, acrescenta.
Num texto informativo da Harvard School of Public Heath, é dito que, por norma, a água “a mais” é libertada através da urina e do suor, contudo, uma “condição rara” denominada de “toxicidade da água” é “rara mas possível”. Acontece quando uma “grande quantidade de fluidos é ingerida num curto período de tempo”.
A intoxicação por água decorre, sobretudo, em doentes em que os rins “não funcionam adequadamente” ou atletas de alta competição, que ingerem grandes quantidades de água, diz a mesma instituição.
Um artigo publicado no Journal of Clinical Pathology, após a apresentação de um caso clínico em que uma mulher morreu devido a uma “intoxicação aguda por água”, refere que é uma causa “incomum” de morte. A vítima ingeriu “grandes quantidades” de água (cerca de 30 a 40 copos) na noite anterior à morte.
De acordo com a Direção-Geral da Saúde (DGS), uma hidratação correta é importante para “ajudar nas atividades das células, na digestão, no funcionamento dos rins, regulação da temperatura corporal e pressão arterial”.
O recomendado para uma pessoa saudável é a ingestão hídrica, no total, considerando a também a água presente nos alimentos, de cerca de 2 litros e meio/3 litros de água “distribuídos ao longo do dia”, explica Paulo Santos, acrescentando que este valor depende, por exemplo, da idade e do género.
A DGS explica que a quantidade ingerida por dia varia consoante as “caraterísticas físicas” e fatores externos, como a prática de atividade física, idade e condições climáticas. De forma geral, recomenda-se o consumo de “um litro e meio a dois litros, o equivalente a 8 a 10 copos)” de água em adultos.
As crianças devem beber, acrescenta a DGS, entre 1 litro e 1 litro e meio de água por dia. Contudo, os valores “dependem” da idade e, por isso, serão “bastante inferiores” abaixo dos 12 meses.
O serviço nacional de aconselhamento de saúde da Austrália, Health Direct, especifica que os homens precisam de 2,6 litros de água por dia e as mulheres um bocadinho menos, 2,1 litros.
O também professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) refere que a ingestão de água em excesso pode ser “mais complicada” em doentes com insuficiência renal, que precisam de cuidados mais específicos. Estes doentes “não podem beber muita água”.
O serviço nacional de aconselhamento de saúde da Austrália explica que as pessoas com doenças renal e hepática ou com insuficiência cardíaca não conseguem libertar a água do corpo “com a mesma eficiência” que as saudáveis. Nestes casos, devem consultar o médico para saber a quantidade de água adequada.
“É preferível água a mais do que a menos”
Na página do Health Direct explica-se que o corpo precisa de água para “sobreviver e funcionar corretamente”. A hidratação em “quantidade suficiente” é importante para compensar as “perdas que ocorrem com a respiração, transpiração, urina e fezes”, completa a DGS.
O especialista consultado pelo Viral esclarece que, em pessoas saudáveis, a água “a mais” é eliminada pelo rim.
“É preferível água a mais do que a menos”, considera o médico de Medicina Geral e Familiar.
Questionado sobre os sinais de desidratação, que segundo o Health Direct acontece quando o corpo não tem água suficiente, Paulo Santos explica que as pessoas apresentam pele “seca e quebradiça”, boca e olhos “secos” e urina concentrada. De acordo com a DGS, podem também sentir fraqueza, cansaço, dor de cabeça e cãibras.
O médico consultado pelo Viral indica que a desidratação “aumenta” o risco de infeções urinárias e de doenças crónicas. Pode também provocar insuficiência renal, pedras nos rins, obstipação, convulsões e até coma, indica a DGS.

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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