Está provado que suplementos de chlorella alisam a barriga e resolvem problemas digestivos?
Um pequeno comprimido para “alisar a barriga” e “resolver os problemas digestivos”. É esta a premissa de diversos vídeos partilhados no Tik Tok em que se promove a toma de suplementos de chlorella.
A chlorella é uma microalga que cresce espontaneamente em água doce e é rica aminoácidos essenciais, proteínas, clorofilas e minerais. Esta composição nutricional faz com que a chlorella seja apresentada nas redes sociais como sendo um “superalimento”.
Nas publicações alega-se que esta alga “é conhecida pela habilidade de equilibrar a flora digestiva”, por potenciar o “crescimento de bactérias boas” e, dessa forma, regularizar o ritmo intestinal.
Mas será verdade que a chlorella contribui para a saúde digestiva e intestinal? Confirma-se que tomar estes suplementos trata situações de flatulência, diarreia e prisão de ventre?
Suplementos de chlorella são benéficos para o sistema digestivo?
“Não há evidência de que os suplementos de chlorella tenham impacto positivo ou negativo na saúde digestiva”, responde Rui Mendo, gastroenterologista no Hospital Lusíadas e no Hospital Egas Moniz, em Lisboa
De facto, existem poucos artigos científicos sobre os efeitos da suplementação de chlorella no sistema digestivo. Destes, a grande maioria relata estudos feitos em animais, o que não significa que em humanos os resultados seriam os mesmos.
Um ensaio clínico randomizado (realizado em humanos) concluiu que “os efeitos derivados do consumo de chlorella diferem de indivíduos para indivíduo, tendo por base os seus ambientes intestinais antes da toma”. Este estudo, que foi publicado em 2021, contou com a participação de 40 pessoas – uma amostra pequena para criar evidência robusta.
A nutricionista Helena Trigueiro afirma que os estudos existentes até à data apresentam “resultados contraditórios”. Se alguns estudos referem uma melhoria na saúde digestiva e na microbiota intestinal, outros relatam aumento do volume abdominal e flatulência – o contrário do que está a ser partilhado nas redes sociais.
“O efeito do consumo deste suplemento parece depender do contexto intestinal e da microbiota de cada indivíduo”, sublinha a nutricionista, acrescentando que, por essa razão, a toma de suplementos de chlorella “não é uma recomendação que dê para todas as pessoas”.
A toma de suplementos deve ser prescrita ou monitorizada por um profissional de saúde. Antes se iniciar qualquer suplementação, Helena Trigueiro aconselha fazer “uma avaliação de necessidade” para perceber se existe défice nutricional que a justifique.
É também importante perceber “o que está no suplemento” e de que forma este composto “atua na modulação da disbiose intestinal [desequilíbrio da flora intestinal]”. Suplementos da mesma substância podem apresentar diferentes dosagens e diferentes aditivos que podem ter efeitos contraprodutivos.
Como melhorar a saúde digestiva?
Para quem tem problemas digestivos e intestinais frequentemente, poderá ser necessário fazer algumas mudanças na sua alimentação ou estilo de vida. Mas antes de adotar qualquer mudança, deve-se procurar aconselhamento profissional.
Seguir “uma dieta geral e diversificada” é uma das recomendações de Rui Mendo para melhorar a sua saúde digestiva. O gastroenterologista recomenda seguir a Dieta Mediterrânica, um plano alimentar “rico em legumes, saladas e pobre em carnes vermelhas”.
A adoção de um estilo de vida ativo e a prática de exercício físico regular podem também contribuir para uma boa saúde digestiva. A Organização Mundial de Saúde recomenda a prática de, pelo menos, 150 a 300 minutos de exercício físico de intensidade moderada por semana (para adultos).
Em suma: não há evidência científica que valide os efeitos dos suplementos de chlorella na saúde digestiva. A maioria dos estudos que existe sobre este tema foram realizados em animais – o que significa que as conclusões não podem ser transpostas diretamente para humanos. Antes de se iniciar a tomar suplementos, é recomendado consultar um profissional de saúde.

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do European Media and Information Fund, uma iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian e do European University Institute.
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