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Está provado que consumir leite aumenta o risco de cancro da mama?

24 Mar 2026 - 08:15
falso

Está provado que consumir leite aumenta o risco de cancro da mama?

“Uma mulher que consuma leite está mais predisposta a ter cancro da mama?” É esta a pergunta que o ex-apresentador de televisão Gustavo Santos faz, num episódio do podcast “ACORDA”, a um convidado que se apresenta como terapeuta de medicina oriental. A resposta de Tiago Gomes vem de imediato: “Sim, é o substrato perfeito para começar a desenvolver isso”. Na mesma entrevista, Tiago Gomes diz ainda que “a mulher é produtora de leite, não deve ser consumidora dele”. Mas a evidência científica comprova estas declarações?

Consumir leite aumenta o risco de cancro da mama?

Não há evidência científica robusta que comprove que uma mulher que consuma leite está mais predisposta a ter cancro da mama. Quem o afirma é Paula Ravasco, médica, nutricionista e diretora do Programa de Pós-graduação Internacional “Nutrição e Metabolismo em Oncologia” da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Em declarações ao Viral, Paula Ravasco explica que, ao longo dos anos, já foram feitos vários estudos, com diferentes metodologias e tipos de desenho, sobre este tema. No entanto, os resultados são “inconsistentes” e, até hoje, não foi comprovada a existência de uma “associação entre o consumo de leite e um maior risco de vir a desenvolver cancro da mama”.

Um dos argumentos utilizados frequentemente por quem defende esta associação está relacionado com o IGF-1, uma hormona que, teoricamente, poderia estimular o crescimento de células tumorais.

Nesse sentido, a médica consultada pelo Viral lembra que o facto de um argumento fazer sentido em teoria – nomeadamente em estudos com células ou animais de experiência – não significa que se verifique da mesma forma em humanos.

Paula Ravasco explica que já foi sugerido que o consumo de leite pode, potencialmente, estar ligado ao aumento da produção de IGF-1 pelo organismo.

No entanto, acrescenta, “na prática, quando se fizeram estudos que mediram os níveis circulantes desta proteína, verificou-se que, de facto, não existe uma associação clara, ou então o efeito é tão reduzido que não justifica um aumento significativo do risco”.

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Outro argumento frequentemente evocado é a presença de pesticidas no leite, provenientes das pastagens consumidas pelos animais. Paula Ravasco reconhece que esta questão também foi estudada, à semelhança do que acontece com outras substâncias presentes na carne. 

“Mas, na prática, aquilo que se verifica é que, além de os estudos não mostrarem uma presença significativa de pesticidas no leite, não é possível concluir que estes níveis, por serem tão baixos, consigam ter esse impacto”, sustenta.

Esta ideia é também defendida pela Cancer Research UK. No site da organização, adianta-se que “não existem evidências fiáveis de que o leite ou os laticínios aumentem o risco de cancro da mama”.

“Por outro lado, alguns estudos concluíram que os laticínios podem reduzir o risco de cancro da mama em algumas pessoas”, lê-se no mesmo texto.

Assim sendo, sublinha-se, “uma vez que os resultados das investigações são contraditórios, são necessários mais estudos de elevada qualidade para se poder afirmar com certeza qual o impacto dos laticínios no risco de cancro da mama”.

Uma meta-análise publicada em 2019 analisou oito estudos, realizados em diferentes países, sobre o consumo de leite magro, leite gordo e iogurte.

Os resultados foram consistentes nos três casos: nenhum dos produtos lácteos analisados mostrou associação com o aumento do risco de cancro da mama. Os autores são claros na conclusão: “a evidência epidemiológica disponível não suporta uma associação forte entre o consumo de leite ou produtos lácteos e o risco de cancro da mama”.

Os investigadores reconhecem, ainda assim, que algumas hipóteses ligam certos componentes do leite – como gorduras, fatores de crescimento ou contaminantes ambientais – a um potencial aumento de risco, e recomenda estudos adicionais com maior número de participantes para estudar esta relação.

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Outra meta-análise, publicada em 2021 na revista Advances in Nutrition, analisou dezenas de estudos prospectivos sobre o consumo de alimentos e o risco de cancro da mama e não encontrou qualquer associação significativa entre o consumo habitual de leite e o risco da doença.

Os autores do estudo identificaram, no entanto, uma relação não linear: para ingestões até 450 g por dia (um valor que a maioria das pessoas não atinge), o risco não aumentou. Acima desse limiar, e até 1300 g diários, verificou-se uma associação estatística com aumento de risco de cerca de 30%. No entanto, os autores do estudo ressalvam que “a causalidade não pode ser inferida a partir destas correlações estatísticas”, o que sublinha a necessidade de ensaios clínicos mais rigorosos antes de se tirarem conclusões definitivas.

Outros produtos lácteos, como o queijo e o iogurte, não apresentaram aumento de risco, sendo que o queijo parece até poder ter um efeito protetor ligeiro.

Além de não existir evidência científica robusta que comprove uma associação direta e clara entre o consumo de leite e o aumento do risco de desenvolver cancro da mama, a médica e nutricionista lembra que “até há estudos que mostram uma associação exatamente oposta”, ou seja, que sugerem que o consumo de leite poderá estar associado a um risco ligeiramente reduzido da doença.

Por fim, Paula Ravasco esclarece que não faz sentido afirmar que, por ser produtora de leite, a mulher não deve consumir este alimento.

A especialista reforça que as necessidades nutricionais de homens e mulheres são muito semelhantes ao longo da vida, desde o nascimento até à idade adulta. “A mulher nasce do mesmo sítio que nasce o homem. As nossas células têm as mesmas condicionantes, e a forma como somos alimentados deve suprir necessidades básicas”, afirma.

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Neste plano, o leite pode fazer sentido na alimentação da mulher por ser um alimento rico em cálcio, vitamina D e proteínas, “que o corpo transforma em substâncias minúsculas que vão nutrir as nossas células”.

Em suma: não há evidência científica sólida que comprove que consumir leite aumenta o risco de cancro da mama. Estudos epidemiológicos e meta-análises recentes mostram resultados inconsistentes ou nulos, e os possíveis mecanismos teóricos, como a ação do IGF-1 ou a presença de pesticidas, não se traduzem em efeitos significativos em humanos.

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24 Mar 2026 - 08:15

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