“Esfregar” água oxigenada na pele cura o cancro?
Circula nas redes sociais um vídeo em que se alega que “esfregar” peróxido de hidrogénio (água oxigenada) na pele cura o cancro. O vídeo original já não é recente, mas tem sido publicado no Facebook, em várias contas, pelo menos, desde 2021.
Segundo a autora do vídeo, a água oxigenada tem a capacidade de “matar germes”, “vírus” e “o cancro”. Para isso, supostamente, é necessário “esfregar” a substância no corpo “todos os dias”, “de preferência duas vezes”. Desta forma, sugere, a água oxigenada “é absorvida diretamente na corrente sanguínea” e “ajuda a matar germes e vírus”, “a matar o tecido tumoral” e “a oxigenar o sangue”. Será mesmo assim? “Esfregar” água oxigenada na pele cura o cancro?
É verdade que aplicar água oxigenada na pele trata o cancro?
Em declarações ao Viral, Fernando Schmitt, professor do departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), adianta que “esfregar peróxido de hidrogénio [água oxigenada] na pele não traz benefícios no contexto de tratamento do cancro”.
Embora o peróxido de hidrogénio “seja utilizado como desinfetante para feridas em concentrações baixas, a sua aplicação tópica no tratamento de doenças como o cancro não tem sustentação científica robusta”, acrescenta o investigador do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS).
O professor explica que “o peróxido de hidrogénio é um líquido com propriedades oxidantes, ou seja, é capaz de libertar oxigénio”, levantando-se a hipótese de que “possa introduzir oxigénio nas células tumorais, induzindo-as à morte”.
No entanto, “existe pouca evidência científica que apoie a sua utilização como tratamento para o cancro, e em alguns casos o seu uso pode ser fatal”, alerta.
Inclusive, a Sociedade Americana do Cancro já tinha publicado um documento, há alguns anos, intitulado “Métodos questionáveis de tratamento do cancro: peróxido de hidrogénio e outras terapias ‘hiperoxigenantes’”, em que desaconselhou a utilização de água oxigenada (e outras substâncias semelhantes) como alternativa aos tratamentos convencionais do cancro.
No documento explica-se que, embora estes compostos tenham sido objeto de investigação legítima, existe pouca ou nenhuma evidência de “que sejam eficazes para o tratamento de qualquer doença grave e cada um deles demonstrou ter potencial para causar danos”.
Segundo Fernando Schmitt, os poucos estudos “que suportam esta abordagem” são “inconsistentes e com amostras reduzidas”.
Por exemplo, num estudo de 2020, que contou apenas com uma amostra de 11 doentes, demonstrou-se “uma redução significativa do tamanho de lesões múltiplas após a aplicação de peróxido de hidrogénio a 33%” (ver aqui).
Contudo, além de a aplicação da solução ter sido controlada com precisão e apenas aplicada no local da lesão, este método não curou, por si só, o cancro.
Por outro lado, um único estudo com uma amostra tão baixa como esta nunca seria suficiente para validar um tratamento médico. Aliás, os próprios autores da investigação referem que são necessários mais estudos.
Alegações semelhantes também foram verificadas por outras plataformas de fact-checking, como a AFP Checamos, a Reuters Fact Check, a AAP FactCheck e o Full Fact.
Há perigos para a saúde associados a esta prática?
Sim. Fernando Schmitt esclarece que “alguns estudos indicam que o uso inadequado do peróxido de hidrogénio pode causar irritações, danos teciduais e outros efeitos adversos”.
Ao contrário do que se sugere no vídeo em análise, “o peróxido de hidrogénio é uma molécula pequena e hidrofílica, o que limita a sua penetração através da pele intacta” (ver também aqui).
Ainda assim, quando aplicado, “pode atravessar a pele em pequenas quantidades, sobretudo em zonas mais finas ou em áreas com lesões como feridas, cortes e queimaduras”, prossegue o investigador.
Quanto maior a concentração de água oxigenada, maior o risco de absorção e de efeitos adversos. Por exemplo, “em concentrações baixas a moderadas (3 a 10%), como as usadas em produtos cosméticos e desinfetantes, a absorção é limitada e tende a ser neutralizada por enzimas cutâneas, que decompõem o peróxido de hidrogénio em água e oxigénio”, explica.
Por outro lado, “em concentrações altas (mais de 30%), utilizadas em processos industriais ou de branqueamento, pode ocorrer uma penetração significativa do peróxido de hidrogénio, o que pode levar a queimaduras químicas e formação de bolhas na pele”.
A absorção de grandes quantidades através da pele pode resultar na entrada da substância “na circulação sanguínea”, podendo causar “efeitos hematológicos e gastrointestinais (como formação de bolhas gasosas no sangue, conhecida como embolia gasosa)”.
Segundo um texto informativo dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla inglesa), é preciso ter especial atenção às crianças, uma vez que “são mais vulneráveis aos tóxicos que afetam a pele, devido à sua relação maior entre a área de superfície e o peso corporal”.
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