VITAL
É seguro fazer quimioterapia durante a gravidez? Oncologista responde
O diagnóstico de cancro durante a gravidez é raro, mas, quando se verifica, pode ser necessário fazer tratamento, incluindo quimioterapia. Mas será que é seguro fazer quimioterapia na gravidez?
Quimioterapia na gravidez: é seguro?
Em declarações ao Viral e ao Polígrafo, Ana Ferreira Magalhães, oncologista e coordenadora da Clínica de Mama do IPO do Porto, adianta que “a evidência científica acumulada ao longo de mais de 20 anos mostra que a quimioterapia pode ser administrada em segurança durante a gravidez, desde que seja iniciada após o primeiro trimestre” (ver aqui, aqui e aqui).
Aliás, a quimioterapia durante a gravidez “faz parte da prática clínica atual”. Segundo a oncologista, “o cancro ocorre em cerca de uma em cada mil gravidezes e, hoje, a grande maioria dessas mulheres pode e deve ser tratada durante a gravidez, sem necessidade de a interromper”.
Segundo um texto da American Cancer Society, “os tipos mais comuns de cancro detetados durante a gravidez incluem cancro da mama, do colo do útero, da tiroide, do cólon e dos ovários, bem como melanoma da pele, linfoma e leucemia”.
Tal como explica Ana Ferreira Magalhães, “a segurança da quimioterapia na gravidez depende essencialmente de três fatores: a idade gestacional no momento em que o tratamento é iniciado, os medicamentos utilizados e a existência de um acompanhamento médico especializado”.
Estes três elementos “determinam se é possível tratar a mãe de forma eficaz sem colocar o feto em risco”, sublinha.
Em relação ao momento da gravidez, “o primeiro trimestre é o período mais sensível, porque corresponde à formação dos órgãos do bebé”.
Nessa fase, “a quimioterapia pode interferir com esse processo e, por isso, é evitada”, esclarece a oncologista.
A partir do segundo trimestre, “quando os órgãos já estão formados, o risco de malformações cai drasticamente” – passa a ser “semelhante ao da população geral” – e “a quimioterapia passa a ser possível”.
O principal risco associado à quimioterapia durante a gravidez “não é a toxicidade direta dos medicamentos, mas sim a maior probabilidade de parto prematuro, muitas vezes por razões clínicas relacionadas com o cancro”.
Por exemplo, “as antraciclinas, como a doxorrubicina e a ciclofosfamida, têm uma longa história de utilização em grávidas e são consideradas seguras após o primeiro trimestre”, salienta.
“Os taxanos, como o paclitaxel ou o docetaxel, também podem ser usados depois dessa fase quando são clinicamente necessários; embora existam menos dados do que para as antraciclinas, os estudos disponíveis não mostram aumento do risco de malformações quando são usados no segundo e terceiro trimestres”, prossegue Ana Ferreira Magalhães.
Já outro tipo de tratamentos, “como imunoterapia ou muitas terapias alvo, não podem ser usados porque atravessam a placenta e podem afetar o bebé”.
Quais os cuidados a ter antes, durante e depois da quimioterapia na gravidez?
Antes de iniciar o tratamento, “é essencial confirmar a idade gestacional e avaliar o estadio do cancro com exames seguros para o feto”, adianta Ana Ferreira Magalhães.
O tratamento pode ter de ser adiado “quando o cancro é diagnosticado no primeiro trimestre e a doença não é muito agressiva, permitindo esperar até ao segundo trimestre para iniciar a quimioterapia em segurança”.
Em alguns casos, pode também “optar-se por realizar primeiro a cirurgia e adiar o tratamento sistémico para mais tarde ou ainda, se viável, realizar o parto prematuramente”, refere.
A discussão sobre a possibilidade de fazer uma interrupção voluntária da gravidez neste contexto “é rara” atualmente, “mas pode surgir quando o cancro é muito agressivo, o diagnóstico é muito precoce ou é necessário iniciar tratamentos que não são compatíveis com a gravidez” (ver também aqui).
Mesmo nessas situações, “a decisão é sempre individual e tomada pela mulher depois de receber toda a informação médica disponível”, esclarece a oncologista.
Durante o tratamento em si, quando se reúne todas as condições de segurança para o realizar, “a quimioterapia é administrada em doses normais e a gravidez deve ser seguida em articulação entre a oncologia, a obstetrícia de alto risco e a neonatologia, com ecografias regulares para monitorizar o crescimento do bebé”.
O último ciclo de quimioterapia é planeado “de modo a existir um intervalo de cerca de três semanas antes do parto, para permitir a recuperação da mãe e do recém-nascido”, sublinha a médica.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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