VITAL
É possível um vírus provocar cancro?
Desde 2008 que o Plano Nacional de Vacinação (PNV) integra a vacina do vírus do Papiloma Humano, vulgarmente chamada “vacina do cancro do colo do útero”. Esta associação existe porque o HPV pode evoluir para vários tipos de cancro, sendo o do colo do útero um dos mais comuns. Mesmo que não tenham sintomas, os homens também podem ser portadores do vírus e transmiti-lo e, por isso, desde 2020, os rapazes que tenham nascido a partir de 2009, devem fazer a mesma vacina aos 10 anos no âmbito do PNV. Isto quer dizer que certos vírus podem causar cancro?
Há vírus que provocam cancro?
Sim e o HPV não é um caso único. Existem outras infeções virais ligadas ao aparecimento de cancro. Não se sabe ao certo como é que os vírus provocam doenças oncológicas, sabe-se apenas que “inserem o seu ADN ou RNA nas células humanas, o que pode fazer com que se tornem cancerígenas”, lê-se no site do MD Anderson Cancer Center.
A vacinação contra o HPV e a hepatite B, os rastreios regulares, como as citologias (papanicolau) e o tratamento precoce de infeções crónicas como a hepatite C ou o VIH são estratégias comprovadas para reduzir o risco de cancro associado a vírus.
Estima-se que cerca de 30% dos cancros diagnosticados a nível global em países de baixo rendimento e países de rendimento médio inferior estejam ligados a infeções, principalmente de origem viral, já que há menos acesso a vacinas e rastreios.
Isto não significa que todas as pessoas infetadas por esses vírus venham a desenvolver a doença. O risco depende de diversos fatores, como o tipo de vírus, o tempo de infeção, a resposta imunitária da pessoa e a presença de outros fatores de risco, como o tabagismo ou outras infeções.
Que vírus podem causar cancro?
Papiloma Humano (HPV)
Entre os vírus com potencial de cancro, o HPV é um dos mais falados e também o mais prevalente. É transmitido sobretudo por contacto sexual e estima-se que a maioria das pessoas sexualmente ativas entre em contacto com o vírus em algum momento da vida.
“Na população sexualmente ativa, 50 a 80% dos indivíduos adquirem infeção por vírus do papiloma humano em alguma altura da sua vida”, mesmo que sem sintomas, lê-se no site do balcão digital do Serviço Nacional de Saúde (SNS 24).
Existem mais de 100 subtipos de HPV, mas cerca de uma dúzia são considerados de alto risco para o desenvolvimento de cancro, com destaque para os tipos 16 e 18.
O HPV está ligado ao cancro do colo do útero, mas também pode causar cancro da vagina, da vulva, do pénis, do ânus e da orofaringe. A infeção, na maioria dos casos, é transitória e não causa sintomas. No entanto, quando persiste no tempo, pode provocar alterações celulares que evoluem para lesões pré-cancerígenas e, se não forem tratadas, para cancro.
A vacina disponível protege contra os tipos de HPV de maior risco e tem mostrado ser altamente eficaz na prevenção de vários tipos de cancro.
Hepatite B e C (HBV e HCV)
Os vírus da hepatite B (HBV) e da hepatite C (HCV) são infeções que afetam o fígado e, quando não tratadas, podem tornar-se crónicas. A inflamação persistente provocada por estas infeções pode levar à cirrose e, em muitos casos, ao carcinoma hepatocelular.
A hepatite B pode ser prevenida com a vacina incluída no Plano Nacional de Vacinação. Para a hepatite C, por outro lado, não há vacina, mas existem tratamentos antivirais que conseguem eliminar o vírus em grande parte dos casos. Os sistemas imunitários de cerca de 30% dos indivíduos infetados com o vírus conseguem eliminá-lo em seis meses sem auxílio medicamentoso, mas no caso de haver hepatite C crónica o tratamento é sempre necessário, refere a Organização Mundial da Saúde (OMS).
A deteção precoce e o tratamento são essenciais para reduzir o risco de complicações oncológicas.
Epstein-Barr (EBV)
O vírus de Epstein-Barr é um herpesvírus e está associado à mononucleose infeciosa, conhecida como “doença do beijo”. É contagioso e pode ser passado através de tosse, espirros ou partilha de utensílios utilizados para beber ou comer (como garrafas, talheres, etc.). Embora a maioria das pessoas seja infetada por este vírus em algum momento da vida, quase sempre sem consequências graves, em certos contextos é possível potenciar o desenvolvimento de alguns tipos de cancro (ver aqui).
O EBV pode provocar linfoma de Burkitt, linfoma de Hodgkin, carcinoma nasofaríngeo e alguns tipos de cancro gástrico. A infeção, por si só, não é suficiente para causar cancro, mas pode desempenhar um papel importante, sobretudo quando combinada com fatores genéticos ou imunológicos.
Segundo a American Cancer Society, o desenvolvimento de cancro potenciado por este vírus é mais comum em África e no Sudeste Asiático, mas muito poucas pessoas que têm EPV desenvolvem doença oncológica ao longo da vida.
Linfomas T humanos (HTLV-1)
Este vírus pode levar ao desenvolvimento de leucemia/linfoma de células T do adulto, um tipo raro e agressivo de cancro do sangue (ver aqui). A transmissão ocorre por via sexual, transfusões sanguíneas, partilha de seringas ou da mãe para o filho durante o parto ou amamentação.
Embora a maioria das pessoas infetadas nunca desenvolva sintomas, estima-se que até 5% possam vir a desenvolver este tipo de cancro — muitas vezes após duas ou mais décadas sem sinais clínicos.
O HTLV-1 é um retrovírus — ou seja, utiliza RNA como material genético e, para se reproduzir, converte esse RNA em DNA, que pode integrar-se no genoma das células humanas. Esta integração pode alterar o funcionamento celular e, em alguns casos, levar ao aparecimento de cancro.
O cancro causado por este vírus afeta os glóbulos brancos (linfócitos T) e tem maior prevalência em regiões como o sul do Japão, Caraíbas, África Central, partes da América do Sul e em alguns grupos imigrantes nos Estados Unidos.
Herpes humano 8 (HHV8)
É um herpesvírus detetado na maioria dos indivíduos com sarcoma de Kaposi, um cancro raro que provoca lesões arroxeadas na pele e afeta vasos sanguíneos e linfáticos. O vírus faz com que as células infetadas se multipliquem mais do que o normal e vivam mais tempo, o que pode levar ao desenvolvimento de tumores. Embora a infeção por HHV-8 dure a vida toda, raramente causa problemas em pessoas saudáveis.
A transmissão pode ocorrer por via sexual, saliva ou sangue. O risco de desenvolver sarcoma de Kaposi é maior em pessoas com o sistema imunitário enfraquecido, como doentes com VIH/SIDA ou transplantados. O HHV8 também está ligado a doenças raras como o linfoma efusivo primário e a doença de Castleman, embora ainda se esteja a estudar o seu papel nessas patologias.
Imunodeficiência humana (VIH)
O VIH é o vírus que provoca a SIDA e não é propriamente um vírus que pode causar cancro, mas o seu impacto no sistema imunitário tem consequências significativas no risco oncológico. Ao enfraquecer as defesas do organismo, dificulta a eliminação de células com mutações e reduz a capacidade do corpo de controlar infeções crónicas por outros vírus potencialmente cancerígenos.
Pessoas que vivem com VIH têm maior risco de desenvolver sarcoma de Kaposi (relacionado com o HHV8), certos linfomas e cancro do colo do útero. A introdução da terapêutica antirretroviral mudou drasticamente este cenário, permitindo o controlo da infeção e reduzindo o risco de cancros associados.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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