Vital
É possível curar cancro com “fruta e água de coco”?
Num vídeo com milhares de visualizações publicado no TikTok, um homem conta que foi diagnosticado com mieloma múltiplo, um cancro da medula óssea. Fez quimioterapia, sentia-se muito mal e começou “a procurar curas naturais”, conta. Foi para o México e alimentou-se exclusivamente de “fruta e água de coco” — alegadamente, foi assim que curou o cancro que lhe tinha sido diagnosticado. Mas será possível? Uma dieta à base de água de coco e fruta cura cancro?
Água de coco e fruta curam cancro?
Não, nenhum alimento, por si só, trata ou cura cancro. E abandonar tratamentos comprovados por supostas “curas naturais” é muito perigoso porque pode “levar a consequências graves e potencialmente irreparáveis do contexto oncológico”, dizia Diogo Alpuim Costa, oncologista, em declarações anteriores ao Viral.
A água de coco e a fruta podem ser importantes para manter a hidratação, mas não curam cancro. A ideia de que a água de coco cura cancro surge de uma crença já partilhada (e desmentida) de que a água de coco é equivalente ao plasma do sangue, o que é cientificamente incorreto.
Há, de facto, água e alguns eletrólitos na água de coco, mas não outros componentes que existem no plasma como proteínas, fatores de coagulação, anticorpos e concentrações específicas de outras substâncias. Ou seja, a água de coco não é equivalente ao plasma nem pode desempenhar as mesmas funções.
Existem relatos de utilização intravenosa de água de coco como forma de hidratação, mas “em pequenos volumes durante curtos períodos de tempo, e esta prática pode ser considerada uma alternativa temporária aos fluidos intravenosos padrão em áreas remotas onde os recursos são escassos e os cocos são abundantes e baratos”, lê-se numa descrição de um caso no qual se recorreu a esta fonte de hidratação, nas Ilhas Salomão.
“Mais estudos precisam de ser realizados para comprovar o uso em casos de emergência da água de coco como solução de hidratação intravenosa”, escrevem os autores do artigo. Até porque, noutros casos, foram registadas algumas reações adversas.
Existem também alguns estudos in vitro e em animais que observam que certas formas de água de coco (não a água de coco por si só) podem ter propriedades anti-cancro e induzir apoptose em células cancerígenas (ver aqui e aqui).
Mas isso não prova qualquer efeito em humanos, muito menos prova que beber água de coco cura cancro, como se diz no vídeo acima citado.
Beber água de coco e comer fruta são estratégias de hidratação, importantes para doentes com cancro, mas que não curam a doença.
A hidratação é especialmente importante “durante a quimioterapia, radioterapia e imunoterapia para ajudar a eliminar quaisquer toxinas do corpo” e “também pode ajudar a repor a água que o corpo pode estar a perder devido aos efeitos secundários do tratamento, como diarreia ou vómitos”, lê-se num texto da MD Anderson Cancer Centre.
Estar hidratado é uma necessidade de todos porque a hidratação adequada “ajuda nas atividades das células, na digestão, no funcionamento dos rins, regulação da temperatura corporal e pressão arterial, entre outras atividades do organismo”, segundo o Serviço Nacional de Saúde (SNS).
A fruta é outra fonte de hidratação — e também não cura cancro, mas alguns estudos mostram que pode ter um papel na prevenção da doença.
Uma meta-análise publicada em 2018 no British Journal of Cancer concluiu que maior consumo total de frutas e vegetais parece estar associado a uma redução de risco de cancro da mama. Mas este é um estudo observacional, não prova causalidade. Ou seja, o consumo de fruta pode ter um papel na prevenção, mas não cura nem trata cancro.
Uma dieta saudável, na qual a fruta deve estar incluída, tem impacto na prevenção. Segundo os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), “entre 30% e 50% das mortes por cancro poderiam ser evitadas modificando ou evitando os principais fatores de risco e aplicando as estratégias de prevenção existentes baseadas em provas”. Dentro desses fatores de risco, inclui-se o estilo de vida, do qual a alimentação faz parte.
Este artigo foi desenvolvido no âmbito do “Vital”, um projeto editorial do Viral Check e do Polígrafo que conta com o apoio da Fundação Champalimaud.
A Fundação Champalimaud não é de modo algum responsável pelos dados, informações ou pontos de vista expressos no contexto do projeto, nem está por eles vinculado, cabendo a responsabilidade dos mesmos, nos termos do direito aplicável, unicamente aos autores, às pessoas entrevistadas, aos editores ou aos difusores da iniciativa.
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