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Doenças autoimunes: 80% dos doentes são mulheres? A culpa é do stress?

28 Dez 2024 - 09:21

Doenças autoimunes: 80% dos doentes são mulheres? A culpa é do stress?

Num vídeo que circula nas redes sociais, diz-se que 80% das pessoas com doenças autoimunes são mulheres. Além disso, alega-se que a razão para esta percentagem está relacionada com o stress e com as imposições sociais sobre este género, nomeadamente o facto de, segundo o autor destas declarações, reprimirem as suas necessidades e emoções em prol dos outros.

Confirma-se que 80% dos pacientes com doença autoimune são mulheres? E é verdade que o stress e os comportamentos da população feminina são a principal razão para esta elevada percentagem?

80% dos pacientes com as doenças autoimunes são mulheres?

Antes de mais, importa explicar que as doenças autoimunes são patologias em que o sistema imunológico do indivíduo (desenhado para o proteger de possíveis atacantes externos) começa a destruir as células do próprio organismo. Estas patologias podem afetar diferentes órgãos, dividindo-se em quatro grupos: doenças reumáticas sistémicas, endócrinas, gastrointestinais e neurológicas.

Se tivermos em conta todas as doenças autoimunes, é verdade que a grande maioria dos pacientes são do sexo feminino. No entanto, é importante salientar que o grupo das doenças autoimunes é vasto, incluindo mais de 100 doenças – cada uma com as suas características e prevalências.

Em declarações ao Viral, a médica internista Sofia Pinheiro, coordenadora da unidade de doenças autoimunes da Unidade de Saúde Local (USL) de São José e assistente na Nova Medical School, admite que a percentagem referida no vídeo está “próxima da realidade”.

Entre 70% e 80% dos pacientes com doença autoimune são mulheres”, afirma a especialista, lembrando que “diferentes doenças têm diferentes prevalências” e que existem também patologias autoimunes que “atingem mais os homens”.

No mesmo sentido, Luís Graça, imunologista do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (IMM), e Tânia Santiago, reumatologista na USL de Coimbra, reconhecem que as doenças autoimunes “são mais frequentes nas mulheres que nos homens”, mas ressalvam que este grupo de doenças é “muito heterogéneo e diverso”.

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A reumatologista alerta que “a percentagem de 80% deve ser interpretada com cautela”, tendo em conta “a definição e a heterogeneidade das doenças autoimunes” e a forma como foram “agregados os dados de ‘todas as doenças autoimunes’ para alcançarem esta percentagem”.

Dá exemplos: em doenças como a síndrome de Sjogren, o lúpus eritematoso sistémico e a esclerose sistémica, a “proporção de mulheres para homens afetados é de entre sete e dez para cada um”. Se analisarmos a prevalência da artite reumatóide, esclerose múltipla ou miastenia gravis, o cenário já é mais equilibrado (entre duas e três mulheres para cada homem).

Por outro lado, na esclerose sistémica, “os homens têm uma expressão mais grave da doença, incluindo complicações de órgãos internos e maior mortalidade”, acrescenta Tânia Santiago.

Um artigo conduzido pelo Centro norte-americano para o Controlo e Prevenção de Doença (CDC, na sigla inglesa) avança que “as doenças autoimunes afetam aproximadamente 8% da população [norte-americana], 78% das quais são mulheres”. 

Noutro estudo, publicado em 2014, pode ler-se que “existem diferenças de género” nas doenças autoimunes, com tendência a “seguir um viés feminino”.

“As diferenças claras entre os sistemas imunológico feminino e masculino sugerem que o aumento da reatividade imunitária nas mulheres pode predispô-las ao desenvolvimento de doenças autoimunes”, esclarecem os investigadores. 

Por que razão as doenças autoimunes afetam mais as mulheres?

No vídeo partilhado, identifica-se o stress como uma das principais causas das doenças autoimunes entre as mulheres. Alega-se que as imposições da sociedade ao género feminino são fatores associados às causas destas patologias.

Luís Graça lembra que as doenças autoimunes são “multifatoriais” e “não existe uma causa única”. 

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A reumatologista Tânia Santiago acrescenta que a “diferença de prevalência e gravidade das doenças autoimunes entre homens e mulheres” resulta de “interações complexas e ainda pouco compreendidas entre fatores genéticos, hormonais, ambientais, entre outros”.

No caso das hormonas, sabe-se que o estrogénio (que existe em maior quantidade nas mulheres) “tem muita importância no desenvolvimento da doença autoimune”, afirma Sofia Pereira. 

Também Tânia Santiago sublinha que “múltiplas hormonas (como o estrogénio) têm uma função imunorreguladora e podem modular a incidência e gravidade das doenças autoimunes”.

Sobre os fatores genéticos, a reumatologista acrescenta que “existem fatores relacionados com o cromossoma X que podem ser um fator predisponente” para as doenças autoimunes.

No mesmo sentido, Sofia Pereira adianta que existem estudos recentes “que mostram que o cromossoma X parece estar muito envolvido no aparecimento de doença autoimune”.

Um desses estudos foi desenvolvido por uma equipa de investigadores da Universidade de Standford (EUA). Howard Chang, um dos autores do artigo, explica, em entrevista à mesma instituição, que a predisposição para doença autoimune está relacionada com “um RNA [Xist] que vem do segundo cromossoma X”.

“O risco de desenvolver doença autoimune vem dos genes, não é algo que se faz de mal”, garante o investigador.

Apesar de os fatores genéticos criarem uma predisposição para desenvolver doença autoimune, isso não significa que a pessoa desenvolva a doença. É preciso que haja “um gatilho” para que a doença surja, esclarece Sofia Pereira, acrescentando que o stress pode ser esse tal “gatilho”.

“Um pico de stress pode desencadear uma doença autoimune ou exacerbá-la”, afirma a médica internista, dando como exemplo o caso da psoríase. Esta questão pode tornar-se uma “pescadinha de rabo na boca”, com o “stress a exacerbar a doença e a doença causar mais stress” ao paciente.

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Luís Graça confirma que é do conhecimento da ciência que “o stress pode influenciar o sistema imunitário”, podendo ser “uma causa no meio de muitas outras”.

Tânia Santiago refere que “o papel do stress (ou dos distúrbios relacionados com o stress) como fator de risco para desenvolvimento de doenças autoimunes ainda permanece especulativo”.

Contudo, a reumatologista reconhece que, no caso da lúpus eritematoso sistémico e da artrite reumatóide, “o stress psicossocial (especificamente o trauma e a perturbação de stress pós-traumático) está associado ao início e à gravidade da doença”.

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São ainda fatores de risco para o desenvolvimento de doenças autoimunes o microbioma intestinal, as infeções (principalmente víricas), o tabagismo e o excesso de peso. O nível socioeconómico e os níveis de educação mais baixos estão também “associados a um maior risco de artrite reumatóide”, acrescenta a especialista.

Apesar de cada doença autoimune ter as suas próprias características, os sintomas mais comuns destas patologias são fadiga, dores nas articulações, problemas de pele, dores abdominais e dificuldades ao nível digestivo, febre recorrente ou inchaço das glândulas.

28 Dez 2024 - 09:21

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