Do Wegovy ao Mounjaro. 7 mitos e verdades sobre medicamentos para tratar a obesidade
Nos últimos dois anos foram aprovados dois fármacos injetáveis – agonistas de recetores de GLP-1 – para tratar especificamente a obesidade ou o excesso de peso com comorbilidades: o Wegovy e o Mounjaro. Apesar de já ter sido publicada muita informação sobre estes medicamentos, ainda persistem algumas dúvidas sobre o que são e como funcionam. São todos iguais? Qualquer pessoa pode tomar? Causam sempre náuseas intensas?
A propósito do Dia Mundial da Obesidade, que se assinala todos os anos no dia 4 de março, Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), esclarece sete mitos e verdades sobre os agonistas de recetores de GLP-1 utilizados no tratamento da obesidade e do excesso de peso.
Todos os agonistas de recetores de GLP-1 são iguais?
Não. Existem, sobretudo, três tipos de medicamentos injetáveis desta classe, utilizados no tratamento da obesidade: o liraglutido, o semaglutido e a tirzepatida.
“O liraglutido 3.0, cujo nome comercial é Saxenda, foi o primeiro da classe”, adianta Paula Freitas. “Está aprovado a partir dos 12 anos”, mas a sua utilização “tem vindo a cair em desuso” por ter de ser administrado diariamente.
Depois, surgiu o semaglutido, com o nome comercial Wegovy (e também Ozempic, quando o principal objetivo é tratar a diabetes tipo 2), também aprovado a partir dos 12 anos, mas “com a vantagem de ser de administração semanal”, explica a endocrinologista.
Existe ainda “o Mounjaro, que é o nome comercial da tirzepatida”. Esta substância “é um agonista dual, ou seja, atua em dois recetores, no do GLP-1 e no GIP” (ver também aqui). No entanto, este fármaco só “está aprovado, neste momento, para adultos com obesidade ou pré-obesidade com doenças associadas”.
A decisão de recomendar um ou outro fármaco vai depender da evidência disponível sobre cada um. Por exemplo, para alguém que tem “obesidade e já teve doença cardiovascular, como um enfarte ou um AVC, ou tem doença arterial periférica, o único fármaco que demonstrou redução da morte cardiovascular em 20% foi o semaglutido 2.4, o Wegovy” (ver aqui).
Então, neste caso, o Wegovy seria o preferível. Não quer dizer que os outros não funcionassem. É preferível utilizar o Wegovy, porque os estudos mostraram que este fármaco pode ter benefícios extra naquele paciente.
Qualquer pessoa pode tomar?
Os agonistas de recetores de GLP-1 só estão indicados para “pessoas com obesidade – índice de massa corporal superior a 30 -, ou pré-obesidade – índice de massa corporal superior a 27 – com qualquer comorbilidade”, como “fígado gordo, apneia do sono, síndrome do ovário poliquístico”, entre outras.
Mesmo nestes casos existem contraindicações. “As pessoas com neoplasia endócrina múltipla, como cancro medular da tiroide, que é raro”, não podem tomar agonistas de recetores de GLP-1. Isto porque os estudos em animais reportaram casos de cancro medular da tiroide, associados à utilização destes fármacos.
Além disso, há uma contraindicação relativa “em pessoas que já tenham tido pancreatites”, ou seja, deve-se “elencar o risco-benefício” nestes casos.
É recomendado manter uma alimentação equilibrada e praticar exercício quando se toma estes medicamentos?
“Comer de forma equilibrada e fazer exercício físico, assim como a higiene do sono, não fumar, não beber álcool, gerir o stress e manter interações sociais, faz tudo parte do que faz bem do ponto de vista de saúde”, defende Paula Freitas.
A médica explica que o fármaco “trata a doença e sobretudo o sintoma da obesidade, a fome, portanto, é o momento ideal para ensinar as pessoas a comer de uma forma equilibrada”.
“As guidelines canadianas dizem que a terapêutica da obesidade assenta em três pilares fundamentais, terapêutica cognitivo-comportamental, terapêutica médica e terapêutica cirúrgica”, refere.
A alimentação e o exercício “não são tratamento, são outcomes” (resultados), ou seja, “quando eu trato o doente, consequentemente, o doente vai conseguir ter uma alimentação equilibrada e fazer exercício”. Para Paula Freitas, este “é o momento de ouro para ensinar a pessoa a fazer as escolhas corretas”.
Estes fármacos têm benefícios a nível cardiovascular?
Sim, e não só. Paula Freitas explica que “estes fármacos, inicialmente estudados para diabetes” e que depois mostraram ter “um grande impacto na obesidade”, também já demonstraram outros benefícios para a saúde.
Destacam-se os benefícios “do ponto de vista metabólico”, ao “reverter a hipertensão, a diabetes e a dislipidemia”. Têm, também, impacto positivo “na doença hepática (fígado gordo)” e na redução da “doença renal e cardíaca”.
Neste momento, estes medicamentos estão a ser estudados (ainda não há dados suficientes) no âmbito da cognição, mais especificamente na “demência, doença de Alzheimer e na doença de Parkinson”, refere a médica.
Também está a decorrer alguma investigação sobre o possível impacto dos agonistas de recetores de GLP-1 no tratamento de “comportamentos aditivos, por exemplo, na adição ao álcool”.
Causam sempre náuseas intensas?
Os efeitos secundários associados a estes fármacos são, sobretudo, “náuseas, vómitos, diarreia ou obstipação”, adianta Paula Freitas.
No entanto, estes efeitos não se verificam em todas as pessoas, nem na mesma intensidade. “Há pessoas que têm isto de uma forma muito ligeira, há pessoas que têm de forma moderada, há outras que têm de forma muito intensa e até há pessoas que não têm nada”, sublinha.
Mesmo quando estes sintomas se verificam, “são mais frequentes nas primeiras semanas de tratamento e depois vão diminuindo à medida que o doente vai aumentando o tempo de tratamento”, acrescenta a especialista.
As pessoas que tomam agonistas de recetores de GLP-1 correm um risco acrescido de ter pancreatite?
“Os dados que temos atualmente não mostram um aumento significativo” de risco de pancreatite associado aos fármacos. Aliás, Paula Freitas considera importante realçar que “as pessoas com obesidade, só por si, já têm o risco aumentado de pancreatites”.
Em alguns casos, reportados em estudos, “houve um aumento numérico, mas nunca houve um aumento com significado estatístico”, refere. As pessoas que podem correr um maior risco são as que já tiveram várias pancreatites.
Se parar de tomar, o peso pode voltar?
Segundo Paula Freitas, “a obesidade tem uma biologia semelhante às outras doenças“. Quando alguém tem diabetes, “tem de tomar a medicação para a diabetes” e “quando alguém tem hipertensão, tem de tomar a medicação para baixar a tensão”.
Como doença crónica que é, o tratamento da obesidade “devia ser crónico”. Mas nem sempre é possível. Até porque estes são fármacos muito caros e nem todas as pessoas os podem comprar.
Quando se deixa de tomar, “algumas pessoas podem ficar sem nunca recuperar o peso”, “algumas pessoas podem recuperar algum peso” e outras “podem recuperar muito peso”, explica. “Acontece o mesmo com a cirurgia de obesidade”.
Isto não significa “que as coisas falharam, quer dizer que a doença é crónica e progressiva”, sublinha a especialista.
Atualmente não se sabe “qual é a melhor estratégia, se é parar e ver o que acontece”, se é reduzir, “ou se é fazer outra estratégia”. Uma possibilidade que se fala, para o futuro, é administrar “um fármaco oral para a manutenção do peso perdido”.