Tratamento com dióxido de cloro cura o autismo?
Num vídeo partilhado no Facebook, alega-se que é possível “reverter o autismo” através de um tratamento com “dióxido de cloro”. Segundo o autor do post, o autismo é causado por “metais tóxicos” no organismo, que podem ser removidos. Mas será verdade que o dióxido de cloro cura o autismo?
É possível curar o autismo com dióxido de cloro?
Não existe evidência científica de que o dióxido de cloro cure o autismo e a exposição a esta substância apresenta riscos conhecidos para a saúde. Além disso, não existe cura para as perturbações do espetro do autismo (ver aqui, aqui e aqui).
Várias organizações internacionais de saúde publicaram textos, nos seus sites, a alertar para os potenciais perigos de supostas curas para o autismo.
No site da Food and Drug Administration (FDA), uma agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, adianta-se que “os produtos ou tratamentos que afirmam curar o autismo são enganosos e ilusórios, porque não há cura para o autismo”.
O mesmo se aplica a muitos produtos “que afirmam ‘tratar’ o autismo ou sintomas relacionados com o autismo”.
Alguns destes produtos ou tratamento podem, de facto, “acarretar riscos significativos para a saúde”, salienta-se no mesmo texto.
A utilização de dióxido de cloro – também conhecido como Solução Mineral Milagrosa (MMS, na sigla inglesa) – neste contexto, é assinalada, pela FDA, como um tratamento que não provou ser eficaz e que põe em risco a saúde.
No mesmo sentido, o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS, na sigla inglesa), num texto sobre “tratamentos não recomendados para o autismo”, destaca a utilização de dióxido de cloro.
Segundo o NHS, este e outros tratamentos – como, a “quelação” (“remoção de toxinas de metais pesados do sangue”), a ingestão de “leite cru de camelo” e a “GcMAF” (“uma injeção não licenciada feita a partir de células sanguíneas”) – são “falsos” e “há provas de que são prejudiciais” para a saúde.
Tal como se explica numa declaração de saúde pública da Agência para o Registo de Substâncias Tóxicas e Doenças dos Estados Unidos (ATSDR), uma divisão dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), o dióxido de cloro é “um gás perigoso”, utilizado como “lixívia em fábricas que produzem papel e produtos de papel” e “em instalações públicas de tratamento de água, para tornar a água segura para beber”.
De acordo com o mesmo texto, o dióxido de cloro “é solúvel em água e reage rapidamente com outros compostos”. Como é muito reativo, este gás “é capaz de matar bactérias e microorganismos na água”.
O contacto direto com o dióxido de cloro pode pôr em risco a saúde. “Se respirar ar que contenha dióxido de cloro gasoso, pode sentir irritação no nariz, na garganta e nos pulmões”, refere-se.
A ingestão de grandes quantidades de dióxido de cloro pode causar “irritação na boca, esófago ou estômago”.
Em quantidades suficientes, esta substância pode provocar “falta de ar e outros problemas respiratórios devido a danos nas substâncias do sangue que transportam o oxigénio pelo corpo”, salienta-se.
O autismo é causado por toxinas?
Como já tinha explicado o psiquiatra Carlos Filipe, em declarações anteriores ao Viral, “as perturbações do espetro do autismo são perturbações do neurodesenvolvimento”, que “ocorrem durante o desenvolvimento pré-natal”.
As “alterações funcionais” específicas determinam “as alterações ao nível da coordenação motora, da integração das sensibilidades, da comunicação (quer no sentido da capacidade da comunicação, quer no entendimento) e da rigidez comportamental”, esclarecia o médico à data.
Assim, dependendo do nível, as pessoas com autismo vão ter mais, ou menos, dificuldades de autonomia durante a vida.
Não existe apenas uma causa específica para o autismo, mas não há evidência científica de que toxinas ou metais tóxicos sejam os responsáveis por esta perturbação.
Num texto dos CDC, explica-se que existem “fatores ambientais, biológicos e genéticos” que contribuem para a probabilidade de uma pessoa nascer com uma perturbação do espetro do autismo.
Fatores como “ter um irmão com autismo”, “ter certas condições genéticas ou cromossómicas” e haver “complicações à nascença” podem contribuir para o desenvolvimento desta perturbação.
Não é a primeira vez que se sugere nas redes sociais que o dióxido de cloro cura o autismo. Plataformas que fazem fact-checking, como o Science Feedback, o Chequeado e a Reuters já tinham desmentido alegações semelhantes.